Através da semiótica, é possível interpretar os significados dos traços e desenhos que, aparentemente, são manifestações livres do inconsciente
Ana Braga
Da equipe do DIARIO
Não são inocentes aqueles rabiscos feitos durante a conversa telefônica, no canto da agenda ou em qualquer pedaço de papel. Cubos, setas, círculos, estrelas, olhos, tudo aquilo rabiscado aparentemente sem motivo contém significados que podem revelar características pessoais e, pasme, até colaborar com descobertas científicas.
O rabisco que fala, que carrega uma informação é um signo. Como tal, está composto com um objeto, um interpretante e um representâmen. Calma, calma. Em miúdos: "o rabisco de uma flor, por exemplo, é o representâmen, o veículo da informação. Os significados que ele embute são gerados pelo interpretante. E qualquer flor pode ser objeto de interpretações", ilustra o mestre em comunicação e linguística Paulo Bertold Vieira. À essa conjunção dá-se o nome de semiótica, ou, ciência que estuda os signos.
leitura - Rabiscar o próprio nome pode signficar insegurança e instabilidade emocional. Também de acordo com alguns estudos, expressa rejeição e confusão com a auto-estima. "Pode ainda representar um certo egocentrismo, uma preocupação exagerada com a própria imagem", observa o grafotécnico e consultor de R.H. William Rebello. "Caras e bocas indicam que a pessoa se sente bem ajustada ao seu mundo. As expressões também revelam o humor. Quem está contente, desenha figuras felizes. Já fantasmas e personagens esquisitos podem comunicar triteza".
A estudante Marta Justino da Silva desenvolveu a mania de rabiscar justamente quando conseguiu um emprego. A relação entre as duas atividades? "Sou operadora de telemarketing e passo quase seis horas atendendo telefonemas e digitando. Em casa, quando não estou trabalhando e uso o telefone para conversas particulares, acho que sinto falta do movimento e por isso fico rabiscando o que aparece pela frente", conta Marta. "É como se o rabiscado me ajudasse na concentração". Ao final da entrevista para essa matéria, Marta confessa que encheu de cubos e palavras (usadas durante a conversa) a contra-capa de um revista semanal.
Quem desenha cubos, segundo Rebello, mostra que está disposto a batalhar, a colocar a mão na massa, sem preguiça. A criatividade pode ser uma das suas características. Colocar um cubo dentro de outro significa frustração com alguém ou algum projeto. Já os círculos apontam uma pessoa auto-suficiente e que gosta de estar entre outras. "Quando as figuras se sobrepõem é possível que o dono do desenho prefira estar sozinho. E quem completa os círculos cuidadosamente teme se expor", destaca Rebello.
CIÊNCIA - O estudo dos signos, a semiótica, é considerada caçula entre as ciências. As bases vêm do século XIX, pelas cabeças dos cientistas Charles S. Peirce, um americano, e Ferdinand de Saussure, um suíço. O primeiro, trabalhou
mais a face filosófica. O outro, a linguística. Um não conheceu o trabalho do outro. Também ambos não publicaram completamente suas pesquisas em vida.
Atualmente, porém, existem vários estudiosos tentando formalizar, completar e desenvolver as primeiras observações dos cientistas. É provado, hoje, que a semiótica tem várias aplicações importantes. É ferramenta de estudo, por exemplo, para a comunicação, a linguística e as artes.