A 130 km de Lisboa, cidade é um exemplo de como se pode superar divergências políticas e religiosas
Saulo Moreira
enviado especial
Em tempos de guerra, quando a intolerância provoca violência e ninguém sabe ao certo o rumo que o Mundo irá tomar, talvez seja confortável saber que ainda existem lugares à margem de conflitos bélicos e, diferentes do Brasil, livres de problemas sociais. Évora, região do Alentejo, sul de Portugal. Cenário de antigos combates entre diferentes povos, a cidade é uma prova viva de que divergências políticas, religiosas e étnicas podem ser superadas.
Fundada pelos romanos em 80 a.C, passou por um período de grande prosperidade durante a Idade Média. Em 712 d.C, foi conquistada pelos mouros, os descendentes dos muçulmanos que habitavam a Península Ibérica. Depois de sangrentas batalhas contra os árabes, os cristãos tomaram a cidade em 1165. Hoje, as velhas rotas de invasões, as planícies de guerra e as muralhas seculares não passam de monumentos turísticos. Monumentos que compõem a atmosfera medieval desta bela cidade, sede da Corte portuguesa no século XVI e patrimônio da humanidade desde 1987.
Capital - Situada a 130 quilômetros de Lisboa, Évora é a capital de um distrito de mesmo nome. Suas ruas estreitas, praças, mosteiros, fontes, castelos e tabernas exalam história. Os vestígios estão em todo lugar. São tão presentes que, curiosamente, impedem a chegada do novo. Os cinqüenta mil habitantes da cidade estão privados de ver TV a cabo e de desfrutar uma moderna rede de gás natural. Não, nada a ver com fundamentalismo religioso ou reserva de mercado. Os cabos de fibra ótica e os gasodutos não foram instalados ainda porque todas as vezes que iniciam uma escavação, eis que surgem resquícios de construções antigas, ossos, esqueletos completos. Em nome do resgate histórico, as obras são paralisadas e uma equipe de arqueólogos é chamada ao local. Assim é Évora. Um fascinante convite ao passado.
Independente de credo ou religião, comece seu passeio pelas igrejas. São 22 dentro da cidade. Cada uma guarda uma lenda, um mito, uma história que, contada pelos nativos (não dispense os guias), ganha um clima de mistérioe reverência. Catedral de Évora. Com uma arquitetura marcada por um estilo de transição do romântico para o gótico, remonta aos séculos XII e XIII e chama atenção por lembrar um forte. Faz sentido porque durante a empreitada, que durou cinqüenta anos, houve vários ataques dos mouros, que àquela altura já tinham perdido a posse da cidade para os cristãos.
Mitos - A catedral foi erguida por decisão do fundador da cidade, Giraldo "Sem Pavor" Geraldes. O nome do sujeito, sempre lembrado em Évora, é decorrente do heroísmo atribuído a ele. Uma curiosidade: na catedral está uma das raras imagens de Nossa Senhora grávida. E num primitivo presbitério, dizem que foram benzidas as bandeiras usadas por Vasco da Gama quando ele iniciava suas viagens ao Oriente, em 1497. Ao ouvir histórias que, naturalmente, têm muito a ver com o Brasil, não estranhe se você recordar os livros da escola e ter uma sensação do tipo "quer dizer que foi por aqui onde tudo começou".
Perto da catedral está o Convento dos Lóios, uma construção do século XV e que hoje funciona como pousada, a mais cara do país, diga-se. Uma diária não sai por menos que 36,5 mil escudos (cerca de 180 dólares). Para entrar na Igreja dos Lóios, é preciso desembolsar 500 escudos (2,5 dólares). A cobrança é esquisita, já que não é comum visitas pagas a igrejas, mas acredite: vale a pena. Quase ao lado do Convento está a Catedral de Santa Maria, cujo destaque é um imponente altar do século XVIII. O altar foi construído com mármore da cidade italiana de Carrara e granito da própria Évora. O ouro e a madeira não precisa nem dizer de onde veio. Lembra dos espelhinhos?
O jornalista viajou a convite da TAP