Especialistas questionam criação de cópias e até mesmo uso da técnica para a obtenção de orgãos e tecidos
Roberto Cavalcanti
Da equipe do DIARIO
Seria no mínimo inusitado. Imagine encontrar pelas ruas uma cópia quase perfeita de ídolos já mortos como Elvis Presley, Merilyn Monroe ou Einstien, ou, quem sabe, reproduzir um filho perdido precocemente. O que na prática pode parecer absurdo, já é teoricamente viável através da tão discutida clonagem humana. Pairando no limiar entre ficção e realidade, os avanços científicos no campo da engenharia genética têm sido alvo de grande especulação, sobretudo pela potencial possibilidade de se obter o primeiro clone humano da História. O assunto, amplamente explorado pelo cinema, chega agora ao horário nobre da televisão brasileira, através do geneticista visionário Augusto Albiere - personagem do ator Juca de Oliveira, na novela O Clone - e abre espaço para uma ampla discussão que ultrapassa as barreiras filosóficas, éticas e morais.
Extremamente polêmica e motivo de impasse entre a própria comunidade científica, a clonagem depara-se com uma questão crucial: qual a utilidade prática de se proceder à criação decópias humanas, mesmo que um grande número de países, inclusive o Brasil, tenha condições de colocar a técnica em prática? Segundo a professora de genética da Universidade Federal de Pernambuco Aline Alexandrino, que vem prestando consultoria à Glória Perez, autora da novela da Rede Globo, não existe uma explicação plausível para a obtenção de clones humanos. Até o uso da técnica como instrumento de auxílio à reprodução assistida ou para a obtenção de órgãos e tecidos para transplantes vem sendo repudiada por especialistas em todo o Mundo.
Aline Alexandrino explica que a partir do momento em que os cientistas britânicos Ian Wilmut e Keith Campbell conseguiram criar a ovelha Dolly, a clonagem humana se tornou potencialmente possível. No entanto, apesar do domínio do conhecimento teórico, na prática, os resultados são pouco animadores. "Para a obtenção da Dolly, por exemplo, foram manipulados 277 óvulos, dos quais apenas um conseguiu desenvolver-se. Além disso, existem diversas nuances igualmente importantes,principalmente do ponto de vista do clone, que seria concebido sem pai nem mãe, muito embora legalmente os pais seriam os mesmos da pessoa que cedeu a cadeia cromossômica (o clonado)", acentua.
doenças - Outro aspecto a ser considerado, de acordo com a geneticista, diz respeito à modificação nos mecanismos da seleção natural, tendo em vista que o próprio organismo, normalmente, se encarrega de eliminar os óvulos fecundados que apresentem defeitos. " Em massa, a clonagem pode significar a multiplicação de serem geneticamente fracos em determinados aspectos. Predisposições a doenças, por exemplo, podem ser repassadas na clonagem, alterando o curso natural da evuloção da própria espécie", ressalta.
O presidente da Sociedade Brasileira de Genética Secção Pernambuco (SBG-PE), José Ferreira dos Santos, lembra que o argumento de que a clonagem pode ser mais uma arma de combate à esterilidade não é convincente, mesmo porque já existem técnicas bastante precisas e que possibilitam a obtenção de filhos naturais emlaboratório, mesmo em casos bastante difíceis. "Temos que ver a clonagem como uma possibilidade e não como um fato consumado, pois não há nada que justifique a criação de cópias geneticamente idênticas. Até mesmo a obtenção de tecido para transplante pode ocorrer pela reprodução celular em meios de cultura, sem que seja preciso clonar ninguém", argumenta.
O geneticista afirma que no processo de clonagem o máximo que se conseguiria obter seria uma cópia 99,9% igual ao doador do DNA. Além disso, aspectos emocionais, caráter e habilidades cognitivas estão ligadas ao ambiente, sendo impossível conceber duas pessoas absolutamente iguais. "Uma cópia perfeita nunca será possível. Os clones terão sua própria individualidade, assim como os gêmeos univitelinos, que embora sejam fruto de um único óvulo fecundado e subdividido, resguardam características peculiares, tais como temperamento e caráter".