Edição de Sábado, 27 de Outubro de 2001
 

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Opinião

O desafio das greves

Há quase três meses funcionários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) se encontram em greve. É contingente de 55 mil trabalhadores que reivindica equiparação com os restantes 22 mil servidores que, há tempos, receberam reajuste de 47,1%. E há 68 dias professores das universidades federais cruzaram os braços. No ponto crítico da agenda submetida ao Ministério da Educação como postulação da classe, figura a incorporação ao salário da Gratificação de Estímulo à Docência (GED). Trata-se de espécie de bônus entre R$ 100 e R$ 1.670 a ser pago de forma variável segundo o número de pesquisas e aulas dadas.
  Quando o constituinte de 1988 elevou o direito de greve à categoria de prerrogativa constitucional, estabeleceu equilíbrio mais justo nas relações entre o capital e o trabalho. A colocação do conflito trabalhista à disciplina da mais alta instância do ordenamento jurídico deveria, também, conduzir as partes ao exercício da cautela no tratamento de eventuais choques de interesses.
  Assim é, pelo menos, o espírito da norma escrita na Constituição. E, a fim de fazê-lo eficaz, cumpre à força de trabalho e a seus empregadores efetivar negociações baseadas na tolerância e na transigência para evitar greves ou encerrá-las com a maior brevidade. Ambos os setores levados à inércia causam graves prejuízos. O poder público vê-se alvo de verdadeiro colapso na prestação de serviços essenciais. Mas a grande vítima, como sempre, é o povo.
  A União já deixou de pagar a centenas de milhares de pessoas cerca de 800 mil benefícios de responsabilidade do INSS, até mesmo aposentadorias. Já a suspensão das aulas nas universidades federais prejudica cerca de 300 mil alunos. É provável que o segundo semestre do ano letivo esteja perdido de forma irremediável, salvo inesperado acordo de última hora. O único avanço alcançado nas negociações refere-se à flexibilização da pauta de reivindicações.
  O problema crucial nos dois movimentos paredistas é a adoção de posturas intransigentes. No caso do contingente funcional do INSS, o Governo já assumiu o compromisso de aprovar plano de carreira para melhorar os níveis de remuneração. Quanto aos mestres universitários, convém lembrar que os investimentos públicos nas universidades federais correspondem a 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Em outras palavras, 70% de toda dotação orçamentária do Ministério da Educação. Os salários pagos somam 90% de tais recursos.
  Os níveis de retribuição salarial no âmbito do poder público para previdenciários, professores universitários e demais categorias são insatisfatórios. Mas é indispensável situar a luta por melhores padrões de vencimentos sem recorrência a condutas radicais. Tanto de um lado quanto de outro, reclama-se a prevalência da consciência social sobre os arroubos sectários. E aqui se colhem as razões de tanto desperdício de tempo para solução do impasse. Posições de força só conduzem a confrontos estéreis.








 

 
 
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