"Todos nós somos vulneráveis"
Patrícia Noblat
Da equipe do DIARIO
Os ataques terroristas ocorridos no dia 11 de setembro nos Estados Unidos não resultaram apenas no início da guerra que atualmente acontece no Afeganistão. Eles também provocaram um medo generalizado não só na população norte-americana, mas em em todo mundo, já que a sensação de vulnerabilidade em relação a esse tipo de incidente passou a ser compartilhada por todos os países. O clima de tensão que se alastrou acabou repercutindo na saúde mental das pessoas, que chegam a desenvolver fobias, paranóias, depressão, angústias e neuroses como forma de defesa. Um estudioso do tema, o psiquiatra paulista e presidente da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Miguel Roberto Jorge, vem ao Recife debater justamente esse assunto. Na sua palestra, que irá acontecer durante o Congresso Brasileiro de Psquiatria, ele irá mostrar que a "situação traumática" causada pelos atentados e o início do bioterrorismo com a bactéria Antraz podem atingir não só pessoas que possuam uma fragilidade psicológica, mas também aquelas consideradas emocionalmente equilibradas. Os efeitos desses acontecimentos tanto podem ser sentidos de imediato como daqui a alguns meses. Só que na opinião de Miguel Roberto Jorge, que também é chefe da disciplina de psiquiatria da Escola Paulista de Medicina, é possível que a humanidade possa tirar desses acontencimentos e de sua repercussão uma lição de solidariedade. Ele acredita que momentos como essse que estamos vivemos podem servir como uma oportunidade de crescimento, onde os nossos valores e diferanças são repensados. Na entrevista que concedeu ao DIARIO, o especialista fala mais sobre as conseqüências dos atos terroristas para a saúde mental da população.
DIARIO DE PERNAMBUCO - Como o senhor classificaria o sentimento ou a sensação que está sendo sentida pela população dos Estados Unidos nesses tempos de guerra?
Miguel Roberto Jorge - Fatos tão espetaculares e dramáticos como os representadospelos atentados terroristas de 11 de setembro último representam do ponto de vista psíquico o que denomionamos uma "situação traumática". É uma condição que aporta um nível de vivências que uma parte das pessoas não tem estrutura psíquica para lidar de forma satisfatória, o que deixa margem para uma série de reações de diferentes naturezas: depressão, fobia, pânico, somatizações, dissociações.
DP - Que situações aqui no Brasil podem causar essa situação traumática que o senhor se refere?
Roberto Jorge - Aqui no Brasil estamos constantemente expostos a situações desta natureza, como assaltos à mão armada, mini-seqüestros (para retirada de dinheiro em caixas-eletrônicos) ou mesmo seqüestros (para exigir resgate), tiroteio em favelas, estupros, etc.
DP - Existem pessoas mais predispostas a problemas psíquicos?
Roberto Jorge - Pessoas psicologicamente mais imaturas, com transtornos da personalidade ou antecedentes de doenças psiquiátricas estão, pela sua maior fragilidade psicológica, mais predispostas a apresentar. Entretanto, mesmo pessoas até então perfeitamente equilibradas do ponto de vista emocional podem sofrer um processo de descompensação que resulte em algum dos quadros que citei anteriormente.
DP - Há formas de prevenção?
Roberto Jorge - Quando sabemos que uma determinada situação traumática irá acontecer, como por exemplo aquelas situações nos EUA onde se detecta que um furacão vai passar por uma determinada cidade ou há grande possibilidade de enchente ou de desmoronamento de morros em cidades brasileiras em função de intensas chuvas, uma série de medidas preventivas podem ser adotadas. Isso é feito para tentar minimizar o efeito deletério que estas catástrofes naturais possam ocasionar, tanto do ponto de vista social como da saúde física e mental. No caso de umacontecimento provocado pelo homem, de caráter imprevisível, só nos resta cuidar das suas conseqüências. Entretanto, como sabemos que reações psicológicas anormais ou mesmo o desenvolvimento de certos transtornos mentais podem aparecer decorridos até mais de 6 meses depois do evento traumático, alguma forma de prevenção é possível através de informações veiculadas pela mídia ou pela disponibilização de atenção à saúde mental, como atualmente vem sendo feito porserviços psiquiátricos particularmente na cidade de New York (onde as duas torres do World Trade Center foram ao chão no dia 11 de setembro depois serem atingidas por dois aviões pilotados por terroristas) e em todo os EUA.
DP - Há diferenças entre a reação individual ao problema e a reação coletiva?
Roberto Jorge - Em geral, o medo é coletivo quando o evento que o deflagrou foi de tal natureza ou intensidade que um contingente muito maior depessoas não se mostrou suficientemente preparado para lidar com o mesmo de forma satisfatória. Nesta situação, ao invés de "pipocarem" casos isolados, um enorme contingente de pessoas se mostra afetado a pondo de precisar de, no mínimo, aconselhamento psicológico, quando não de medicamentos específicos.
DP - Quais sãos efeitos da guerra e do bioterrorismo nas crianças, tanto nas que assistem tudo pela televisão como nas que são personagens, no caso as crianças afegãs ?
Roberto Jorge - De maneira geral, as crianças - por estarem ainda em processo dedesenvolvimento e maturação psicológica - tem maior probabilidade de serem afetadas por estes eventos traumáticos do que os adultos. Entretanto, sua forma de reação difere daqueles preponderantes entre os mais velhos. Assim, mais do que ouvirmos uma criança dizer que está preocupada com o que vem acontecendo ou referindo estar com medo de ataques terroristas ou manifestando tristeza, o que percebemos são crianças desenvolvendo doenças físicas ou apresentando sintomas de somatização. Crianças recusando-se a ir na escola, crianças voltando a querer dormir em companhia dos pais, crianças interessando-se mais por jogos e filmes violentos ou de guerra
DP - Na avaliação do senhor, o que mais justifica o medo hoje nos EUA: a possibilidade de um outro ataque aéreo terrorista ou o bioterrorismo que está sendo feito com a bactéria Antraz ?
Roberto Jorge - Certamente uma das grandes mudanças experimentadas após estes ataques terroristas contra o país mais poderoso do mundo e seus símbolos de poderio econômico (World Trade Center) e militar (Pentágono), foi uma conscientização de nossa vulnerabilidade. Não há sistema no mundo que garanta 100% de segurança a quem quer que seja. Todos estamos sujeitos em maior ou menor grau. E em minha opinião, neste sentido, bioterrorismo é um fenômeno mais ameaçador pois é mais difícil de ser controlado e pode atingir um contingente muito maior de pessoas.
DP - Por que apesar de estarmos longe geograficamente do conflito armado, passamos aqui no Brasil a ficar assustados e apreensivos? O medo também é globalizado?
Roberto Jorge - Estamos geograficamente longe da zona de conflito armado, que está acontecendo no Afeganistão, mas psicologicamente identificados na noção maior de nossa vulnerabilidade enquanto seres humanos a uma enorme diversidade de fatores agressivos que podem nos atingir em qualquer lugar do mundo. Obviamente que as chances não são as mesmas em qualquer lugar, mas não há um lugar sequer onde a chance seja zero. E todos que estamos acompanhando os acontecimentos pelos jornais, rádio, TV ou pela internet temos hoje consciência disto.
DP - Qual o papel dos meios de comunicação na disseminação desse medo?
Roberto Jorge - Os meios de comunicação podem, neste momento, tanto ter o papel de disseminarem o medo com informações que em realidade dão condições às pessoas de lidarem melhor com a situação. Tudo depende da atitude que tomam. Se privilegiam o sensacionalismo ou qualquer imagem espetacular porque isto vende mais, certamente estarão contribuindo para disseminar não somente medo mas quem sabe até pânico. Entretanto, se como fizeram as TVs norte-americanas no dia do atentado, não divulguem imagens chocantes de corpos soterrados ou coisas assim e ao invés, como também fizeram algumas, colocaram psiquiatras e outros profissionais no ar, respondendo as perguntas da população sobre uma série de questões. Dessa forma, os meios de comunicação contribuem para apaziguar o desespero e fornecer informações que orientam as pessoas e as ajudam a prevenir uma série de problemas, inclusive psiquiátricos.
DP - O clima de tensão deixa as pessoas mais predispostas à violência?
Roberto Jorge - De forma geral, não. Obviamente que isto depende em parte de algo já potencialmente existente nas pessoas, mas em geral tensão não torna uma pessoa pacífica em uma pessoa violenta.
DP - Esse mesmo clima de tensão pode influenciar de alguma forma a cena política, levando os eleitores a escolher candidatos supostamente mais equilibrados?
Roberto Jorge - Se você quer dizer com isto algo como "estes ataques terroristas são, em parte, uma reação à política norte-americana no Oriente Médio, de apoio incondicional a Israel" e que isto poderia fazer com que a população norte-americana pudesse escolher em uma próxima eleição políticos menos partidários desta situação, não acredito. Talvez algumas pessoas possam ter este tipo de raciocínio, mas como fenômeno de massa penso que a bárbarie dos ataques terroristas predominará na população em geral mais do que qualquer análise política mais aprofundada.
DP - O medo é sempre ruim ou em alguns casos ele pode ser encarado como positivo?
Roberto Jorge - No fenômeno do medo há uma série de reações físicas e emocioniais que até certo ponto fazem parte do sistema de defesa do organismo. Ou melhor, diante de um estímulo ameaçador há uma reação inicial de alerta que nos coloca em condições de enfrentar o fato e buscar a melhor solução possível, no menor espaço de tempo. Esta situação de alerta pode ser acompanhada por uma sensação de medo, absolutamente natural quando o estímulo representa um perigo verdadeiro. O que acontece de anormal é que às vezes o medo se instala sem a presença de um perigo real ou o medo é tão intenso e desproporcional ao que o está causando que ao invés de mobilizar os processos naturais de defesa da pessoa, a paraliza.
DP - Pode acontecer o clima de tensão vivido hoje no mundo todo provocar traumas em pessoas daqui a alguns anos?
Roberto Jorge - O normal é que após vivenciar uma situação traumática, os problemas apareçam em dias, semanas ou meses. O ocorrência após muitos anos só se dará se por ocasião do acontecimento traumático não foi possível uma boa resolução psicológica de seu impacto e consequências imediatas. Ou seja, o que pode ocorrer após anos é o reaparecimento de problemas vivenciados por ocasião do trauma e não uma primeira manifestação.
DP - Há algum antídoto ou meio de se evitar ficar nervoso ou tenso num clima como esse que estamos vivendo?
Roberto Jorge - De forma geral, sentimentos e sensações se apresentam de forma totalmente involuntária, nada sendo possível fazer para evitar que isto aconteça. Nestas circunstâncias, o desafio é o que fazer diante do seu aparecimento. Ou seja, se não consigo evitar o nervosismo, a tensão ou o medo, o que fazer quando eles aparecem, como lidar com eles? A primeira coisa é pensar que por mais assustadora que seja uma situação como a que estamos vivendo, ela não deixa de ser um evento isolado em um contexto muito grande de acontecimentos mundiais. Uma forma de tentar controlar o medo é não nos desesperarmos e agirmos com base em hipóteses ou especulações. Procurar a companhia de outras pessoas e compartilhar com elas nossas preocupações também ajuda bastante, assim com procurar manter nossas atividades rotineiras. Ou seja, não entre em pânico pois isto paraliza. Continue fazendo, convivendo, e até mesmo tirando desta experiência um sentimento de solidariedade, de fazer parte de uma grande comunidade, de um estar junto em direção a um mundo melhor que até poderá colocar-nos em uma situação mais privelegiada do que a que tínhamos antes destes terríveis acontecimentos. Crises podemser paralizantes mas também uma enorme oportunidade de crescimento.