Bioterrorismo
Nova frente contra o terrorismo está aberta nos
Estados Unidos desde o último dia 5, quando o editor de fotografia
do jornal The Sun, da Flórida, morreu contaminado por antraz.
Já são quase cinqüenta os casos de pessoas atacadas
pelo bacilo, entre as quais funcionários dos gabinetes dos senadores
Tom Daschle (Dakota do Sul), Russel Fengold (Wisconsin) e uma assistente
do apresentador Dan Rather, da rede de tevê CBS News. A correspondência
é o meio que tem sido utilizado para disseminação
da moléstia.
A colossal mobilização investigativa da polícia
federal, o FBI, até agora não conseguiu reunir provas
para vincular os ataques à rede terrorista Al Qaeda, comandada
por Osama bin Laden. É fácil imaginar as dificuldades
enfrentadas pelos contingentes policiais para identificar a origem da
conspiração. O inimigo usa métodos tortuosos, age
de forma sorrateira, mantém-se na sombra, oculta-se em meio a
uma população multirracial de mais de 260 milhões
de pessoas.
Uma onda de pânico se ergue a cada dia com maior ímpeto
sobre o território norte-americano. Afinal, qual o risco potencial
do antraz? A moléstia é transmitida por bacilo próprio
que provoca infecção grave. A contaminação
pode ocorrer por contato direto, ingestão ou aspiração.
Porém, uma vez atacada após diagnóstico oportuno,
é curável com facilidade. Não resiste às
terapias com sulfamida, penicilinas ou outros antibióticos. Assim
garantem os mais autorizados especialistas em enfermidades do gênero,
como Sebastião Prado Sampaio, professor emérito de dermatologia
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
A psicologia humana, ensinam as lições colhidas
do comportamento social, é muito mais sensível aos apelos
do medo do que às certezas da ciência. A ofensiva bacteriológica
desfechada pelo terror, seja lá qual for a bandeira sob a qual
se abriga, assentou aí a sua lógica. E colhe no rastro
da operação sinistra o pavor de um povo que, até
11 de setembro, julgava-se a salvo de qualquer ameaça. O sóbrio
Washington Post, um dos mais acreditados diários do Mundo, registra
o fenômeno em sua dimensão real. E adverte que o sentimento
de impotência diante do bioterrorismo cria sérias perplexidades
na Casa Branca.
É notório, como reconhece o jornal, a falta
de unidade no discurso dos líderes governamentais no tratamento
da questão. Assim, mina-se cada vez mais a resistência
moral do povo. Washington lida com um tipo de agressão pelo visto
ignorado em sua estratégia de segurança. Contudo, da própria
administração das tragédias sempre se recolhe experiência
apta a superá-las. Aí está desafio aos Estados
Unidos tão grande quanto os assaltos militares contra os antros
terroristas no Afeganistão.