Cinéfilo gasta R$ 80 mil para montar cinema com 166 cadeiras em cidade há 9 anos sem filmes
São cem lugares, o chão é de azulejo velho e quatro lâmpadas fracas iluminam a salinha. Parece mais uma casa, com portas de madeira e nenhuma janela. O que destoa do ambiente familiar são os cartazes pregados com fita adesiva nas paredes descascadas: Amnésia, Moulin Rouge, Pearl Harbour e Tomb Raider enfeitam os muros e os sonhos de quem mora numa cidade cuja principal oportunidade de se divertir consiste em dar voltas na praça da Matriz. Por causa deles, têm-se a certeza de que se está diante do único cinema de Vitória de Santo Antão, idilicamente denominado Star Cine Vitória.
"Não é fita de videocassete; é maquinário de cinema profissional com som original!". Essa frase pode ser lida num papel afixado à parede. "As pessoas criaram o hábito de ver filmes no vídeo e chegam a estranhar quando vêm aqui e não querem pagar, porque acham que aqui também vai ser em vídeo", situa Aquiles Thomaz, 30 anos, gerente, dono, administrador, mandatário e faz-tudo do Star Cine. Há sete meses, ele concretizou o sonho de inaugurar um cinema de verdade na sua terra natal, desprovida de salas de exibição há nove anos, quando o cine Braga encerrou as atividades e deixou o campo aberto para a proliferação das locadoras. Hoje, Aquiles luta para reaver o público.
Falando com entusiasmo sobre a casa, ele nem franze o cenho para revelar que gastou R$ 80 mil - economizados ao longo de doze anos como representante de vendas no Rio de Janeiro - para investir na construção do Star Cine. Apropriou-se de uma antiga sapataria, uma área de 109 metros quadrados, derrubou o primeiro andar, reservou o espaço para a bomboniere ainda em fase de acabamento e para uma tosca mas eficaz cabine de projeção, comprou cadeiras do São Luiz e mandou confeccionar em madeirito uma tela de 5 m x 2,80. À pergunta habitual sobre os parceiros na empreitada, ele reage com calma e humildade. "Não tive ninguém para me ajudar. Investi porque gosto de cinema mesmo e não quis me associar porque sabia do risco", justifica.
Se contada numa metrópole como Recife, por exemplo, a saga de Aquiles poderia ser interpretada como altruísmo interesseiro. Mas não há de se perder tempo pensando assim. A verdade é que uma única pessoa arquitetou o retorno da maior diversão ao município, tirando do maramos as noites dos adolescentes e injetando um sopro de novidade na vida dos vitorianos. Toda semana, ele repete o ritual de contactar as distribuidoras, fechar a programação, perambular pela cidade colando cartazes e, finalmente, cumprimentar os espectadores tão logo a diminuta bilheteria se abra na noite de sexta-feira.
Quem agradece é a trupe formada por Elanne Dantas, 17, Carolina Freire, 13, e Kaline Ferreira, 13, que bate ponto no número 140 da avenida Mariana Amália para paquerar, conversar e rir um bocado com as presepadas de Miss Simpatia e Do que as Mulheres Gostam. As três amigas têm um discurso afinado: "o cinema é a única opção de diversão aqui na cidade".
É por isso que Aquiles Thomaz, mesmo tirando do bolso R$ 3.500 todo mês e sem perspectivas para reavar o montanteinvestido, só fala em melhorar o Star Cine Vitória. "Vou diversificar ao máximo a programação para criar uma base. Antigamente, só passava os filmes de Bruce Lee e de faroeste e isso cansava as pessoas", argumenta, recordando que títulos tão distintos como O Exorcista e Xuxa Pop Star obtiveram aceitação do público.
Mas a realização mesmo, aquela sensação de ter alcançado o objetivo, só virá quando um filme entrar no Star Cine em lançamento nacional. Será a glória para quem acredita, e assim injeta toneladas de felicidade na vida dos cinéfilos residentes em Vitória, que o cinema é mesmo a maior diversão. "Tanto que é a Sétima Arte e ainda não inventaram a oitava", conclui Aquiles. (Luciana Veras)
Serviço
Star Cine Vitória
Onde: Av. Mariana Amália, 340 - Vitória de Santo Antão
Quando: De segunda a sexta, às 20h. Sábado, às 17h30 e 20h. Domingo, às 15h, 17h30 e 20h
Quanto: De segunda a quinta, R$ 3,00 (preço único). Sexta, sábado e domingo,
R$ 5,00 e R$ 2,50 estudante
Inaugurado em março de 2001