A nova ordem e o Brasil
Não é uma quimera como a que dominou as
últimas décadas do século passado apostar em mudanças
profundas nas relações internacionais. Agora, a situação
vulnerável dos Estados Unidos diante das maquinações
do terror marca espécie de termo dialético na evolução
mundial. A confrontação entre as teses de ontem e as antíteses
de hoje operou a síntese histórica que se expressou nas
tragédias de Nova Iorque e Washington. Dos escombros do World
Trade Center e do ataque ao Pentágono ergue-se o chamado em favor
de nova ordem internacional.
É preciso recolher as pedras da destruição
para construir o Mundo novo. É o que a consciência civilizada
já intuiu logo cessado o estado de choque provocado pelos monstruosos
atentados terroristas. Os cenários futuros da geopolítica
começam a antecipar os seus contornos. Países como Rússia,
Paquistão e algumas nações desatreladas da extinta
União Soviética já deitam uma visão solidária
com o Ocidente. Não é apenas o temor aos métodos
brutais do terrorismo a causa da mudança. Mas, sobretudo, a convicção
de que o mundo jamais será pacificado na ausência de esforço
coletivo capaz de assegurar um mínimo de dignidade a todos os
povos.
O Brasil está convocado a inserir-se no contexto
da realidade emergente. O ministro das Relações Exteriores,
Celso Lafer, não guarda dúvida de que o País aperfeiçoará
sua política exterior para melhor adequar-se à nova ordem
em construção. É certo que não abdicará
de doutrinas adotadas com o sentido da perenidade, como a do respeito
à igualdade jurídica dos Estados e ao princípio
da não-intervenção. Mas, assim pensa Lafer, exercerá
papel mais incisivo na elaboração das políticas
mundiais e ocupará maiores espaços nos fóruns internacionais.
Para além das corretas projeções do
ministro Lafer, espera-se que o Brasil seja atuante em maior escala
no espaço das relações interamericanas. O projeto
mais ousado no continente é a formação da Área
de Livre Comércio das Américas (Alca), com implantação
prevista para 2005. Obstáculos de grande magnitude necessitam
ser removidos para que a integração econômica se
efetive. As barreiras alfandegárias levantadas pelos Estados
Unidos contra importações da América Latina são
um deles. Ainda agora, relatório da Embaixada do Brasil em Washington
mostra que os 15 principais produtos brasileiros de exportação
são gravados nos EUA com tarifa média de 46,5%. Já
os 15 principais produtos norte-americanos importados pelo Brasil enfrentam
aqui tarifa média de 14,3%.
Não há como recusar a obrigação
da diplomacia brasileira de exercer papel mais ativo nas negociações
sobre a Alca em busca de igualitarismo no intercâmbio comercial.
As mudanças geopolíticas na visão dos que hoje
têm o dever de reformar o Mundo, sob as inspirações
da justiça, da afluência e da solidariedade, dependem em
parte substancial de formas eqüitativas de relações
comerciais. Não se deve jamais esquecer que as nações
só se realizam politicamente quando são capazes de harmonizar
seus interesses econômicos.
Bochechas desiguais
Cristovam Buarque Ex-governador do Distrito Federal e professor da Unb
Há décadas os economistas escrevem sobre
a desigualdade na distribuição da renda, mas não
há livros analisando a desigualdade na redondez e no rosado das
bochechas das crianças brasileiras : parte delas rechonchudas
e rosadas, outra parte pálida e esquálida. Porque o Brasil
se vê com olhos de economista, critica-se a concentração
da renda, sem perceber-se a desigualdade na forma e na cor das bochechas
infantis.
Três razões explicam esse desprezo às
bochechas das crianças no pensamento social brasileiro: primeiro,
o fato de que os autores dos estudos têm filhos sadios e não
vêm as bochechas dos filhos dos pobres; segundo, porque a dominação
acadêmica do pensamento considera ridículo e risível
preocupar-se com bochechas, no lugar da seriedade dos assuntos da economia;
e, terceiro, porque viciados no pensamento econômico, o brasileiros
acham que a cor e a forma das bochechas não existem por si, elas
são produtos da renda. A cor e a forma dependeriam da renda dos
seus pais.
Para olhos econômicos, é a renda, não
as bochechas,que de fato existe.
A primeira razão mostra o egoísmo; a segunda,
a insensibilidade; e a terceira mostra a estupidez.
Ninguém pode exigir solidariedade ou sensibilidade,
mas é um direito exigir que os pensadores brasileiros não
sejam estúpidos. A saúde de uma criança está,
quase sempre, mostrada no seu rosto, nas suas bochechas. Se queremos
um País saudável, temos que partir da observação
do rosto das nossas crianças; por isso, é um absurdo recusar-se
a ver e dar importância às suas bochechas.
Os rostos de nossas crianças servem como indicador
da desigualdade e permitem entender a pobreza real, não como
uma questão de renda, mas de acesso aos bens e serviços
essenciais, aos direitos fundamentais de cada cidadãos, começando
das crianças.
Vista pelos incluídos na modernidade, a renda é
definitiva para garantir uma boa escola privada e um seguro privado
de saúde. Porque eles dispões do mínimo de renda
necessária para pagar esses custos. Mas é uma mentira
prometer que é por meio da renda que todos terão acesso
aos serviços médicos e educacionais privados.
A distribuição eqüitativa da renda nacional
entre todos os brasileiros não seria suficiente para assegurar
qualidade de vida a todos os brasileiros. Mais do que a distribuição,
o que importa é a utilização da renda. Como o Brasil
usa o conjunto de quase R$ 1 trilhão da renda nacional, dos quais
mais de R$ 300 bilhões vão para as mãos do setor
público, utilizados conforme as decisões do Poder Executivo
e dos parlamentares brasileiros.
Mais do que a renda dos pais, a causa da desnutrição
infantil no campo está no latifúndio,que não permite
trabalho ao sem-terra, e na aculturação das famílias
que perderam o conhecimento de formas próprias de alimentação.
A saúde de uma criança depende mais dos serviços
disponíveis, do cuidado dos governos, do grau de educação,
dos valores culturais e do conhecimento social de seus pais, do que
da renda. Mais do que renda, faltam políticas públicas
de proteção a todas as crianças.
A visão econômica fez com que o brasil tenha
uma obsessão com o crescimento das pessoas. Há ministérios
administrando o crescimento econômico, mas não há
uma preocupação com a coordenação de políticas
públicas, um ministério do crescimento real, capaz de
cuidar do pré-natal até o primeiro emprego de cada novo
brasileiro.
Para isso bastaria um sistema de proteção
à infância com programas perfeitamente possíveis:
a) a garantia de atendimento com qualidade a todas as mães, durante
a gravidez; b) um programa de apoio às famílias pobres
para cuidarem de seus filhos até os 5 anos; c) a garantia de
bolsa-escola em valor suficiente, sem atraso e com rigoroso controle
da freqüência escolar, até o final do ensino médio;
d) um programa de poupança-escola para induzir a promoção
escolar no final do ano letivo; e) a universalização do
serviço cívico voluntário, competente a todos os
jovens; f) a contratação de professores no número
necessário e com salários satisfatórios; g) a avaliação
do sistema educacional com a responsabilidade recaindo sobre governantes,
professores e pais; h) um sistema de microcrédito assegurado
a todos os jovens; i) garantia de vagas em universidades particulares
ou bolsas de estudos em universidades particulares de qualidade para
todos que passassem em vestibulares sérios; j) universalisação
do ensino técnico profissional para todos os jovens.
O conjunto desses programas custaria cerca de R$ 15 bilhões
por ano, menos de 5% da receita atual do setor público brasileiro,
perfeitamente dentro das possibilidades nacionais. Distribuiriam a cor
e a forma das bochechas de nossas crianças, a competência
e a esperança de nossos jovens,que mudariam o Brasil em poucos
anos.
Dois fatores impedem a realização de um programa
desse tipo: a miopia moral, que não permite aos ricos verem as
bochechas das crianças pobres; e a miopia lógica, que
amarra o problema moral à economia.
Por isso, o primeiro passo para um Brasil com boa distribuição
das cores e das formas das bochechas de nossas crianças é
uma mudança na consciência e na visão de nossa elite
dirigente. Elite que, em geral, não percebe a desigualdade social
e, quando percebe, simplifica e transforma em simples desigualdade de
renda.
Com essa nova visão, os próximos meses são
o momento certo para começar a fazer a distribuição.
Bastaria que na elaboração do Orçamento para o
ano de 2002, ao lerem os números apresentados pelos economistas
dos governos (federal, estaduais, municipais e distrital), os parlamentares
brasileiros percebessem que escondida naqueles números está
a desigualdade nas bochechas de nossas crianças. E, dependendo
de como aqueles números viraram as leis dos orçamentos
da União, dos estados e dos municípios, essa vergonha
nacional poderá ser corrigida.
Bom-dia, Recife
Ronildo Maia Leite
Esse negócio de dizer que Deus escreve certo em
linha torta é boato do Diabo, camaradas. Ele não é
nenhum tolo e entende do riscado. Sem essa de dizer fulano nasceu assim,
assim e terminou assim ou assado. Quando inventa e manda pra terra,
veste de carne as almas e a mercê lhes põe virtudes e pecados.
Nos conformes chega à terra, entretanto, segundo figurinos previamente
traçados, de bom ou mau ou caráter
Tenho pra mim, aliás: assim como a virtude, o pecado
é dádiva maior da criação do homem. Feito
à medida, para evitar que a invenção do Mundo se
tornasse uma chatice, camaradas. Imaginem só: tudo é um
céu. Anjos, santos, canduras. Não haveriam preces, quermesses,
missas, perdões nem graças alcançadas. Nem rogatórios
ou súplicas de amor pra resgatar o impossível. Nem o arrependimento,
que é o fuxico do próprio bem contra a maldade.
Daí o crescei e multipecai, camaradas.
O homem é um homem, o boi é um boi. E a mulher
uma colher de chá de nossas virtudes aos nossos pecados, todos
eles necessariamente veniais. Pecado capital apenas um - por isso mesmo
sem direito a purgatórios - o de considerar a fêmea um
sobejo do macho. Até hoje não entendo: quando a moça
dava, inda hoje se diz ela se perdeu pra em seguida perguntar-se: com
quem? O certo seria afirmar ela se achou. Por que é que o bom
achado é somente dos homens, camaradas?
Lembro-me bem. Certa vez, com um olhar pidão ela
me espiou de cima abaixo. Tás perdida? - perguntei. Me achei,
faz tempo, ela me disse, não se dê ao trabalho.
Mulher que é mulher não se perde na vida,
camaradas. Ou se perde uma única vez. Mais de uma enfastia e
cansa. E o cansaço do amor provoca o estresse do nada. Mulheres
há tão pouco fêmeas que a prática se dão
de várias plásticas. Ou seria - perdoem-me senhoras minhas
renováveis - ou seria o himenar-se de novo o louco prazer do
esconde-esconde? Seja isso verdade, estejam sempre a perder-se. Percam-se,
percam-se e percam-se muitas vezes, minhas virgens babacas - desde que
o cabra-cega da história seja o autor destas mal traçadas
linhas.
Em verdade, em verdade eu vos digo, camaradas: homem não
há de bem metido à detetive assim que diga sempre estar
achando com tanta facilidade. A esse tipo de homem, Nélson Rodrigues
chamava de uns meros idiotas da objetividade.
Escrita de Deus em linhas certas, não se cate mulher,
que é onipresente. Dela jamais se diga é ou foi minha.
Mulher não se dá, não se vende nem se troca. Ela
não é de marocas, como diz o ditado.
Amigo meu - amigo uma ova - me disse ter sido sua a grande
Magui. Perdeu-se comigo, falou pelos cotovelos com a arrogância
dos canalhas. Ele me teve sem ter, orgulhosa de si ela me disse renegando
o calhorda e o mal achado.
Em verdade, em verdade eu vos digo: foi, não foi,
neguinho publica edição falsa do livro do destino. Engabela.
Diz que é sem ser. Fazer não faz, ver os outros fazerem.
Deus inventou a tarde pro namoro, pro achar-se a mulher que não
se perde nem à noite, já dizia o jornalista, cronista
e poeta Eugênio Coimbra Junior.
Pouca gente se lembra do mestre Coimbra, inda que seja ele
um imortal. Nem assim tão imortal, diga-se passagem. Morreu tá
morrido. Na sua cadeira na Academia Pernambucana de Letras quem virou
imortal foi o outro Maia Leite, o Waldimir, glória de Garanhuns
e orgulho de todo o resto dos Maias e dos Leite. Enquanto estiver vivo,
é claro.
Pois bem. O velho Coimbra era um homem letrado em mulher.
Tão sovina a sua tara, uma noite marcou encontro com uma anã
da rua do Imperador. Tão pequena era ela que pra se dar um beijo
precisava levar ao colo. Não sou homem de beijos, ele dizia.
Vou logo aos poréns, botou a anã no colo e vap, vap. Depois,
espalhou o boato de que Paulo Malta - que beleza de homem e de caráter
- tinha feito amor com uma menina de colo.
Mantinha também um xodó com a mulher de um
desses amostrados. Boêmio do meio-dia, o careta era um rapagão
bem falante, um e 90 de altura, passava o dia conversando nas ruas.
À tarde, o Jornal Pequeno já estava nas ruas. O veterano
boêmio passava a tarde inteira com a mulher na cama do boêmio
do meio-dia. À noite, ia pro bar quando o galalau voltava pra
casa. Morreram todos eles.
Se houver culpado, a culpa é de quem? Um chifre é
um chifre, morreu tá perdoado.