Edição de Sábado, 6 de Outubro de 2001
 

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Opinião

A nova ordem e o Brasil

Não é uma quimera como a que dominou as últimas décadas do século passado apostar em mudanças profundas nas relações internacionais. Agora, a situação vulnerável dos Estados Unidos diante das maquinações do terror marca espécie de termo dialético na evolução mundial. A confrontação entre as teses de ontem e as antíteses de hoje operou a síntese histórica que se expressou nas tragédias de Nova Iorque e Washington. Dos escombros do World Trade Center e do ataque ao Pentágono ergue-se o chamado em favor de nova ordem internacional.
  É preciso recolher as pedras da destruição para construir o Mundo novo. É o que a consciência civilizada já intuiu logo cessado o estado de choque provocado pelos monstruosos atentados terroristas. Os cenários futuros da geopolítica começam a antecipar os seus contornos. Países como Rússia, Paquistão e algumas nações desatreladas da extinta União Soviética já deitam uma visão solidária com o Ocidente. Não é apenas o temor aos métodos brutais do terrorismo a causa da mudança. Mas, sobretudo, a convicção de que o mundo jamais será pacificado na ausência de esforço coletivo capaz de assegurar um mínimo de dignidade a todos os povos.
  O Brasil está convocado a inserir-se no contexto da realidade emergente. O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, não guarda dúvida de que o País aperfeiçoará sua política exterior para melhor adequar-se à nova ordem em construção. É certo que não abdicará de doutrinas adotadas com o sentido da perenidade, como a do respeito à igualdade jurídica dos Estados e ao princípio da não-intervenção. Mas, assim pensa Lafer, exercerá papel mais incisivo na elaboração das políticas mundiais e ocupará maiores espaços nos fóruns internacionais.
  Para além das corretas projeções do ministro Lafer, espera-se que o Brasil seja atuante em maior escala no espaço das relações interamericanas. O projeto mais ousado no continente é a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), com implantação prevista para 2005. Obstáculos de grande magnitude necessitam ser removidos para que a integração econômica se efetive. As barreiras alfandegárias levantadas pelos Estados Unidos contra importações da América Latina são um deles. Ainda agora, relatório da Embaixada do Brasil em Washington mostra que os 15 principais produtos brasileiros de exportação são gravados nos EUA com tarifa média de 46,5%. Já os 15 principais produtos norte-americanos importados pelo Brasil enfrentam aqui tarifa média de 14,3%.
   Não há como recusar a obrigação da diplomacia brasileira de exercer papel mais ativo nas negociações sobre a Alca em busca de igualitarismo no intercâmbio comercial. As mudanças geopolíticas na visão dos que hoje têm o dever de reformar o Mundo, sob as inspirações da justiça, da afluência e da solidariedade, dependem em parte substancial de formas eqüitativas de relações comerciais. Não se deve jamais esquecer que as nações só se realizam politicamente quando são capazes de harmonizar seus interesses econômicos.

Bochechas desiguais

Cristovam Buarque Ex-governador do Distrito Federal e professor da Unb

Há décadas os economistas escrevem sobre a desigualdade na distribuição da renda, mas não há livros analisando a desigualdade na redondez e no rosado das bochechas das crianças brasileiras : parte delas rechonchudas e rosadas, outra parte pálida e esquálida. Porque o Brasil se vê com olhos de economista, critica-se a concentração da renda, sem perceber-se a desigualdade na forma e na cor das bochechas infantis.
  Três razões explicam esse desprezo às bochechas das crianças no pensamento social brasileiro: primeiro, o fato de que os autores dos estudos têm filhos sadios e não vêm as bochechas dos filhos dos pobres; segundo, porque a dominação acadêmica do pensamento considera ridículo e risível preocupar-se com bochechas, no lugar da seriedade dos assuntos da economia; e, terceiro, porque viciados no pensamento econômico, o brasileiros acham que a cor e a forma das bochechas não existem por si, elas são produtos da renda. A cor e a forma dependeriam da renda dos seus pais.
  Para olhos econômicos, é a renda, não as bochechas,que de fato existe.
  A primeira razão mostra o egoísmo; a segunda, a insensibilidade; e a terceira mostra a estupidez.
  Ninguém pode exigir solidariedade ou sensibilidade, mas é um direito exigir que os pensadores brasileiros não sejam estúpidos. A saúde de uma criança está, quase sempre, mostrada no seu rosto, nas suas bochechas. Se queremos um País saudável, temos que partir da observação do rosto das nossas crianças; por isso, é um absurdo recusar-se a ver e dar importância às suas bochechas.
  Os rostos de nossas crianças servem como indicador da desigualdade e permitem entender a pobreza real, não como uma questão de renda, mas de acesso aos bens e serviços essenciais, aos direitos fundamentais de cada cidadãos, começando das crianças.
  Vista pelos incluídos na modernidade, a renda é definitiva para garantir uma boa escola privada e um seguro privado de saúde. Porque eles dispões do mínimo de renda necessária para pagar esses custos. Mas é uma mentira prometer que é por meio da renda que todos terão acesso aos serviços médicos e educacionais privados.
  A distribuição eqüitativa da renda nacional entre todos os brasileiros não seria suficiente para assegurar qualidade de vida a todos os brasileiros. Mais do que a distribuição, o que importa é a utilização da renda. Como o Brasil usa o conjunto de quase R$ 1 trilhão da renda nacional, dos quais mais de R$ 300 bilhões vão para as mãos do setor público, utilizados conforme as decisões do Poder Executivo e dos parlamentares brasileiros.
  Mais do que a renda dos pais, a causa da desnutrição infantil no campo está no latifúndio,que não permite trabalho ao sem-terra, e na aculturação das famílias que perderam o conhecimento de formas próprias de alimentação. A saúde de uma criança depende mais dos serviços disponíveis, do cuidado dos governos, do grau de educação, dos valores culturais e do conhecimento social de seus pais, do que da renda. Mais do que renda, faltam políticas públicas de proteção a todas as crianças.
  A visão econômica fez com que o brasil tenha uma obsessão com o crescimento das pessoas. Há ministérios administrando o crescimento econômico, mas não há uma preocupação com a coordenação de políticas públicas, um ministério do crescimento real, capaz de cuidar do pré-natal até o primeiro emprego de cada novo brasileiro.
  Para isso bastaria um sistema de proteção à infância com programas perfeitamente possíveis: a) a garantia de atendimento com qualidade a todas as mães, durante a gravidez; b) um programa de apoio às famílias pobres para cuidarem de seus filhos até os 5 anos; c) a garantia de bolsa-escola em valor suficiente, sem atraso e com rigoroso controle da freqüência escolar, até o final do ensino médio; d) um programa de poupança-escola para induzir a promoção escolar no final do ano letivo; e) a universalização do serviço cívico voluntário, competente a todos os jovens; f) a contratação de professores no número necessário e com salários satisfatórios; g) a avaliação do sistema educacional com a responsabilidade recaindo sobre governantes, professores e pais; h) um sistema de microcrédito assegurado a todos os jovens; i) garantia de vagas em universidades particulares ou bolsas de estudos em universidades particulares de qualidade para todos que passassem em vestibulares sérios; j) universalisação do ensino técnico profissional para todos os jovens.
  O conjunto desses programas custaria cerca de R$ 15 bilhões por ano, menos de 5% da receita atual do setor público brasileiro, perfeitamente dentro das possibilidades nacionais. Distribuiriam a cor e a forma das bochechas de nossas crianças, a competência e a esperança de nossos jovens,que mudariam o Brasil em poucos anos.
  Dois fatores impedem a realização de um programa desse tipo: a miopia moral, que não permite aos ricos verem as bochechas das crianças pobres; e a miopia lógica, que amarra o problema moral à economia.
  Por isso, o primeiro passo para um Brasil com boa distribuição das cores e das formas das bochechas de nossas crianças é uma mudança na consciência e na visão de nossa elite dirigente. Elite que, em geral, não percebe a desigualdade social e, quando percebe, simplifica e transforma em simples desigualdade de renda.
  Com essa nova visão, os próximos meses são o momento certo para começar a fazer a distribuição. Bastaria que na elaboração do Orçamento para o ano de 2002, ao lerem os números apresentados pelos economistas dos governos (federal, estaduais, municipais e distrital), os parlamentares brasileiros percebessem que escondida naqueles números está a desigualdade nas bochechas de nossas crianças. E, dependendo de como aqueles números viraram as leis dos orçamentos da União, dos estados e dos municípios, essa vergonha nacional poderá ser corrigida.

Bom-dia, Recife

Ronildo Maia Leite

Esse negócio de dizer que Deus escreve certo em linha torta é boato do Diabo, camaradas. Ele não é nenhum tolo e entende do riscado. Sem essa de dizer fulano nasceu assim, assim e terminou assim ou assado. Quando inventa e manda pra terra, veste de carne as almas e a mercê lhes põe virtudes e pecados. Nos conformes chega à terra, entretanto, segundo figurinos previamente traçados, de bom ou mau ou caráter
  Tenho pra mim, aliás: assim como a virtude, o pecado é dádiva maior da criação do homem. Feito à medida, para evitar que a invenção do Mundo se tornasse uma chatice, camaradas. Imaginem só: tudo é um céu. Anjos, santos, canduras. Não haveriam preces, quermesses, missas, perdões nem graças alcançadas. Nem rogatórios ou súplicas de amor pra resgatar o impossível. Nem o arrependimento, que é o fuxico do próprio bem contra a maldade.
  Daí o crescei e multipecai, camaradas.
  O homem é um homem, o boi é um boi. E a mulher uma colher de chá de nossas virtudes aos nossos pecados, todos eles necessariamente veniais. Pecado capital apenas um - por isso mesmo sem direito a purgatórios - o de considerar a fêmea um sobejo do macho. Até hoje não entendo: quando a moça dava, inda hoje se diz ela se perdeu pra em seguida perguntar-se: com quem? O certo seria afirmar ela se achou. Por que é que o bom achado é somente dos homens, camaradas?
  Lembro-me bem. Certa vez, com um olhar pidão ela me espiou de cima abaixo. Tás perdida? - perguntei. Me achei, faz tempo, ela me disse, não se dê ao trabalho.
  Mulher que é mulher não se perde na vida, camaradas. Ou se perde uma única vez. Mais de uma enfastia e cansa. E o cansaço do amor provoca o estresse do nada. Mulheres há tão pouco fêmeas que a prática se dão de várias plásticas. Ou seria - perdoem-me senhoras minhas renováveis - ou seria o himenar-se de novo o louco prazer do esconde-esconde? Seja isso verdade, estejam sempre a perder-se. Percam-se, percam-se e percam-se muitas vezes, minhas virgens babacas - desde que o cabra-cega da história seja o autor destas mal traçadas linhas.
  Em verdade, em verdade eu vos digo, camaradas: homem não há de bem metido à detetive assim que diga sempre estar achando com tanta facilidade. A esse tipo de homem, Nélson Rodrigues chamava de uns meros idiotas da objetividade.
  Escrita de Deus em linhas certas, não se cate mulher, que é onipresente. Dela jamais se diga é ou foi minha. Mulher não se dá, não se vende nem se troca. Ela não é de marocas, como diz o ditado.
  Amigo meu - amigo uma ova - me disse ter sido sua a grande Magui. Perdeu-se comigo, falou pelos cotovelos com a arrogância dos canalhas. Ele me teve sem ter, orgulhosa de si ela me disse renegando o calhorda e o mal achado.
  Em verdade, em verdade eu vos digo: foi, não foi, neguinho publica edição falsa do livro do destino. Engabela. Diz que é sem ser. Fazer não faz, ver os outros fazerem. Deus inventou a tarde pro namoro, pro achar-se a mulher que não se perde nem à noite, já dizia o jornalista, cronista e poeta Eugênio Coimbra Junior.
  Pouca gente se lembra do mestre Coimbra, inda que seja ele um imortal. Nem assim tão imortal, diga-se passagem. Morreu tá morrido. Na sua cadeira na Academia Pernambucana de Letras quem virou imortal foi o outro Maia Leite, o Waldimir, glória de Garanhuns e orgulho de todo o resto dos Maias e dos Leite. Enquanto estiver vivo, é claro.
  Pois bem. O velho Coimbra era um homem letrado em mulher. Tão sovina a sua tara, uma noite marcou encontro com uma anã da rua do Imperador. Tão pequena era ela que pra se dar um beijo precisava levar ao colo. Não sou homem de beijos, ele dizia. Vou logo aos poréns, botou a anã no colo e vap, vap. Depois, espalhou o boato de que Paulo Malta - que beleza de homem e de caráter - tinha feito amor com uma menina de colo.
  Mantinha também um xodó com a mulher de um desses amostrados. Boêmio do meio-dia, o careta era um rapagão bem falante, um e 90 de altura, passava o dia conversando nas ruas. À tarde, o Jornal Pequeno já estava nas ruas. O veterano boêmio passava a tarde inteira com a mulher na cama do boêmio do meio-dia. À noite, ia pro bar quando o galalau voltava pra casa. Morreram todos eles.
  Se houver culpado, a culpa é de quem? Um chifre é um chifre, morreu tá perdoado.








 

 
 
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