Exposição assinala comemorações da chegada do empresário a Alagoas, em 1902
Mário Hélio
Da equipe do DIARIO
Uma cena de Nova Iorque que jamais se repetirá. Uma gata leva a sua cria pela boca de um lado ao outro da Center Street. O guarda pára o trânsito para que ela atravesse tranqüila a rua. O flagrante lírico é de 1925 e foi imortalizada por uma foto de Harry Warnecke.
Numa obscura cidade do Interior do Nordeste do Brasil um homem contempla uma cachoeira que resolveu domar como a um bicho selvagem. As duas cenas fazem parte do mesmo tempo, o da fotografia, que dá vida ao apenas fugidio, mas pela sua natureza paradoxal. A imortalidade de um nunca mais, um para sempre sem eternidade.
Não importa que a gata não tenha nome e o homem seja o empresário Delmiro Gouveia. As cronologias de ambos se confundem no estranho mundo das imagens porque os flagrantes épicos do titã Delmiro também foram mumificados em luz e papel e estarão à mostra na exposição que a Fundação Joaquim Nabuco realiza a partir do dia 10 de outubro, para assinalar o começo das comemorações da chegada de Delmiro Gouveia a Alagoas.
Sessenta imagensforam cuidadosamente escolhidas por Bety Lacerda Malta para compor Delmiro Gouveia - o Modernizador do Nordeste. As imagens são do acervo da Fundação Joaquim Nabuco e do Museu Delmiro Gouveia. A curadoria é do historiador Frederico Pernambucano de Mello. O seu livro Delmiro Gouveia - Desenvolvimento com Impulso de Preservação Ambiental foi a fonte da pesquisa para a mostra.
Diversas imagens raras como um cartão postal original do Hotel Internacional do Derby, fotos do interior de Angiquinho, reproduções de anúncios da época e muitas fotos do próprio Delmiro, sempre algo hierático nas poses.
Delmiro Gouveia está na dura categoria dos pioneiros, que logo aprendem na própria pele aquilo que Aristóteles disse que é a coisa que primeiro envelhece: a gratidão. Se hoje há a memória de que fez o primeiro shopping center, a primeira grande fábrica, a primeira grande usina de energia, os primeiros grandes cinemas, deve-se lembrar primeiro o que sobre ele escreveu Frederico Pernambucano de Mello:
"É do destino dos pioneiros colecionar incompreensões. E se um governador de Estado, herói de duas guerras, ex-ministro de Governo, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, como era o general Dantas Barreto, Delmiro recolheu mais que uma recusa, uma grosseria paralisante, que se poderia esperar de velhos chefes políticos sertanejos afeitos ao cangaço e cercados de jagunços na faina imemorial de governar o escuro. O sertão das massas analfabetas, mantidas assim como garantia de perpetuidade da elite no poder. De costumes tão arcaicos que remontavam ao seiscentismo do português chegado ali a partir do meado do século XVII. Num meio assim, acender luzes é sempre um perigo. E não fora outra coisa o que Delmiro fizera com prodigalidade singular."
Num plano mais alegórico, pode-se dizer que Delmiro Gouveia foi aquela personagem da célebre caverna de Platão que ao sair de lá tenta mostrar aos seus companheiros o que viu e termina por ser morto. Ou um Prometeu a quem a luz condenou a roer o fígado um abutre. Quis a luz- a matéria de que é feita a fotografia - para o Nordeste. Porque quis grandeza - "qual a sorte a não dá" - esteve sempre exposto.
Estará ainda mais exposto no próximo dia 10. Inclusive naquela que é a sua imagem mais íntima e limpa: está sentado numa cadeira lendo um jornal e não sabe que vão matá-lo. Tinha 54 anos. Noutra, está sendo e olha a câmera. Ao seu lado, na mesma sua pose, o seu cão. Tão vivo na fotografia quanto a gata que atravessa sã e salva uma já impossível rua de Nova Iorque.