Novo medievo
Estranha Idade Média, esta a que estamos chegando.
Em Nova Iorque discute-se a ética de comprar máscaras
contra gás para cachorros que podem faltar para as crianças.
Cabines de pilotos inacessíveis a seqüestradores suicidas
levantam outra questão moral: os pilotos devem resistir às
ameaças dos seqüestradores de matarem todos a bordo sem
abrir seu santuário, ou não devem nem saber o que se passa
no resto do avião? Cor de pele e formato de nariz devem determinar
quem entra ou não em avião, mesmo passando sem apito por
dezessete detectores de bomba ou canivete? Curiosidades do novo medievo.
Mas se na primeira Idade Média não havia avião
nem arranha-céu nem raio-x e as epidemias que matavam cachorro
e gente eram naturais, não produzidas em laboratório,
seu vocabulário pode ser reusado hoje sem muitas adaptações.
O Berlusconi não disse nada sobre a civilização
cristã e a civilização muçulmana que já
não tivesse sido dito há 1200 anos. Apenas ninguém
esperava ouvir de novo.
O progresso da Humanidade das trevas para a luz foi antes
de mais nada uma transformação da linguagem, a Renascença
e o Iluminismo foram seqüências de uma narrativa que nem
as teorias cíclicas da História previam que fosse revertida
- o ser humano poderia voltar à tribo, poderia até voltar
à caverna e ao tacape, mas certamente jamais voltaria à
mesma sintaxe do começo da História. E, no entanto, regredimos
ao ponto da narrativa em que cristãos e mouros se xingavam mutuamente
de infiéis, como se nada que veio depois tivesse acontecido,
ou sido escrito.
A história da luta anticolonial passou pela fase
dos líderes místicos - não há potência
ocidental que não tenha enfrentado dervixes insurretos nos limites
do seu império, ou pelo menos retratado a insurreição
como coisa de primitivos loucos -, mas depois evoluiu para a fase ideológica
e produziu mártires e emancipadores que, além de derrotarem
os impérios, melhoraram muito a qualidade da narrativa. É
triste pensar, nesta recaída nas trevas, que assim como 5 mil
anos de civilização greco-romana produziram nada melhor
do que um Berlusconi para falar por nós, os antecedentes diretos
dos chamados a morrer por Alá são os chamados à
consciência mundial de um Franz Fanon, por exemplo. Pode-se argumentar
que os apelos à guerra santa são os mesmos apelos à
justiça em outras palavras, ou que os místicos voltaram
porque os ideólogos foram insuficientes, ou o Ocidente literalmente
não ouviu a razão. Sei lá. Este é apenas
um lamento pela regressão da História e a falência
da linguagem. A minha maneira de assoviar enquanto escurece.