Edição de Terça-Feira, 2 de Outubro de 2001
 

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Novo medievo

Estranha Idade Média, esta a que estamos chegando. Em Nova Iorque discute-se a ética de comprar máscaras contra gás para cachorros que podem faltar para as crianças. Cabines de pilotos inacessíveis a seqüestradores suicidas levantam outra questão moral: os pilotos devem resistir às ameaças dos seqüestradores de matarem todos a bordo sem abrir seu santuário, ou não devem nem saber o que se passa no resto do avião? Cor de pele e formato de nariz devem determinar quem entra ou não em avião, mesmo passando sem apito por dezessete detectores de bomba ou canivete? Curiosidades do novo medievo.
  Mas se na primeira Idade Média não havia avião nem arranha-céu nem raio-x e as epidemias que matavam cachorro e gente eram naturais, não produzidas em laboratório, seu vocabulário pode ser reusado hoje sem muitas adaptações. O Berlusconi não disse nada sobre a civilização cristã e a civilização muçulmana que já não tivesse sido dito há 1200 anos. Apenas ninguém esperava ouvir de novo.
  O progresso da Humanidade das trevas para a luz foi antes de mais nada uma transformação da linguagem, a Renascença e o Iluminismo foram seqüências de uma narrativa que nem as teorias cíclicas da História previam que fosse revertida - o ser humano poderia voltar à tribo, poderia até voltar à caverna e ao tacape, mas certamente jamais voltaria à mesma sintaxe do começo da História. E, no entanto, regredimos ao ponto da narrativa em que cristãos e mouros se xingavam mutuamente de infiéis, como se nada que veio depois tivesse acontecido, ou sido escrito.
  A história da luta anticolonial passou pela fase dos líderes místicos - não há potência ocidental que não tenha enfrentado dervixes insurretos nos limites do seu império, ou pelo menos retratado a insurreição como coisa de primitivos loucos -, mas depois evoluiu para a fase ideológica e produziu mártires e emancipadores que, além de derrotarem os impérios, melhoraram muito a qualidade da narrativa. É triste pensar, nesta recaída nas trevas, que assim como 5 mil anos de civilização greco-romana produziram nada melhor do que um Berlusconi para falar por nós, os antecedentes diretos dos chamados a morrer por Alá são os chamados à consciência mundial de um Franz Fanon, por exemplo. Pode-se argumentar que os apelos à guerra santa são os mesmos apelos à justiça em outras palavras, ou que os místicos voltaram porque os ideólogos foram insuficientes, ou o Ocidente literalmente não ouviu a razão. Sei lá. Este é apenas um lamento pela regressão da História e a falência da linguagem. A minha maneira de assoviar enquanto escurece.








 

 
 
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