Discurso obscurantista
Causa espanto que a maior demonstração de obscurantismo destes tempos conturbados tenha vindo do berço do Renascimento. O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, afirmou que a civilização ocidental é superior à islâmica. E "seguirá conquistando povos da mesma maneira que conquistou o comunismo, ainda que signifique um enfrentamento com outra civilização". Não são poucos os estudiosos que vêem na ida dos mouros para a Europa no Século VII o grande estímulo à explosão do movimento que revolucionou a arte, a ciência e o modo de ver o Mundo. Os muçulmanos levaram para o Velho Continente 20 mil anos de história. A sabedoria de assírios, babilônicos, fenícios, egípcios, judeus, gregos desembarcou com eles na Espanha. De lá, foi transmitida ao Ocidente e impulsionou o renascer das letras e das ciências na Europa mergulhada na Idade Média.
O discurso belicoso provocou reações indignadas. Líderes do Oriente e do Ocidente condenaram o preconceito e a ignorância histórica revelados por Berlusconi em momento deextrema delicadeza para a humanidade. A repulsa procede. As palavras irresponsáveis do líder direitista pode comprometer o esforço diplomático das democracias ocidentais de formar uma coalizão antiterrorismo liderada pelos Estados Unidos. As negociações vêm enfrentando dificuldades, sobretudo nos Estados de maioria muçulmana.
A população vê com desconfiança a adesão a Washington. Suspeita que, por trás da guerra contra o terror, esconde-se a intenção de combater o Islamismo. Uma aliança com os Estados Unidos, temem os governantes, poderia provocar convulsões internas. Cenas de revolta popular vêm-se registrando no Paquistão, aliado dos americanos no combate ao regime dos talibãs no vizinho Afeganistão.
Antes de Berlusconi, George W. Bush já havia atiçado a suspicácia dos muçulmanos. Em discurso inflamado, proclamou o Mundo a participar de uma cruzada contra o terrorismo. Foi infeliz. Cruzada traz más lembranças aos seguidores de Maomé. Recorda as guerras medievais levadas avante pelos cristãos para reconquistar o território europeu ocupado e desalojar os islâmicos da Terra Santa e adjacências.
Bush pediu desculpas. Berlusconi também. Mas o estrago está feito. As trapalhadas lingüísticas são exploradas com competência pelo lado atingido. A resposta a Bush não tardou. Bin Laden convocou os paquistaneses a lutar contra os "cruzados norte-americanos". A resposta a Berlusconi, por enquanto, veio dos líderes mundiais. É possível, porém, que os emissários europeus que percorrem o Oriente Médio em busca, se não do apoio, pelo menos da não hostilidade dos países árabes à ação antiterror, tenham o trabalho dificultado.
Artigos
Cenas de guerras particulares
André Resende
JORNALISTA
Desde o dia em que os terroristas e suicidas jogaram os aviões nas torres do WTC e no Pentágono, recebo pedidos para escrever sobre o assunto. Alguns pedem para que eu diga que, quem sabe, agora os Estados Unidos param para pensar um pouco no Mundo de maneira mais gentil. Outros, pedem que eu diga de uma forma clara e objetiva que o Mundo não quer guerra. Os mais otimistas acreditam que, com o atentado, a globalização pára e o Mundo volta ao normal. Respondo logo aqui: os Estados Unidos não vão ser gentis, ainda veremos muitas guerras particulares e a globalização não vai parar. E que invenção é essa de esperar que o Mundo volte a ser normal?
Quando tudo aconteceu, eu estava ocupado em outros assuntos. Primeiro, sobre a necessidade de o Brasil ter uma década de prosperidade social. Segundo, sobre o modelo de relações societárias do capitalismo fechado que o Brasil viveu durante o Século XX, capaz de fazer a Lei das SA só acontecer com alguma flexibilidade de incentivo a investidores minoritários neste ano,em outro século. Quer dizer: eu estava pensando local, no meu mundinho brasileiro, enquanto, se me permite dizer assim, o Mundo global estava prestes a arder e chorar.
Passei os dias seguintes acompanhando pela mídia o desenrolar dos acontecimentos. Eu deveria ter uma opinião madura e preparada sobre o assunto, não é mesmo? Na verdade, cansei de repetir as prováveis soluções dos americanos para punir com a mesma moeda os terroristas.
Bush é o tipo do estrategista que vê na guerra uma solução para sustentar a economia. Ainda que não fosse crível, não era difícil acreditar que, para conter a expectativa de diminuição do crescimento, o aumento do desemprego e a quebra financeira e empresarial da sociedade americana, ele teria de usar o Estado como há muito os americanos dizem que não deve ser usado. A questão era: como? Agora se sabe: com a Constituição, afirmando que o País está em estado de guerra.
Com pouco mais de um mês de governo, Bush bombardeou o Iraque - e vem fazendo sempre, com a alegação, provavelmente correta, de que o Iraque continua produzindo armas nucleares, químicas e biológicas, o que justifica as negativas americanas de assinar um acordo de diminuição da produção industrial para conter a poluição no mundo e a recusa em diminuir as armas nucleares. Está tudo atado. Fico com a impressão de que Bush forçou os extremos, mas nunca imaginou que a resposta aconteceria dentro de casa. Se ninguém vê razão para uma guerra, Bush vê. Se via antes, quando se sentia inabalável, imagina agora que se tornou frágil e vulnerável para o Mundo. Essa guerrinha de Bush não é contra o Oriente Médio (os americanos sabem a razão dos conflitos ), nem contra os radicais que falam em nome do Islã (também sabem que não dá para exportar democracia para todos os cantos do Mundo ): é contra a diminuição do poder dos Estados Unidos, provocada, entre outras coisas, pela globalização, pelo aparecimento de organizações mundiais cada vez mais autônomas de comércio, pela instabilidade financeira e de capitais que surgiu com anova economia. Ele queria colocar dinheiro público na indústria sofisticada da guerra. Agora, do modo como aconteceu, o dinheiro que sairia aos poucos nos próximos dez anos, está saindo imediatamente. As pessoas mortas nos atentados são vítimas, o governo americano, não.
Três semanas depois de ir a Barreiros para falar a 500 professores sobre globalização e tentar explicar como não estamos fora dos acontecimentos do Mundo, explode a tragédia seguida de ameaça de guerra. A Rede Globo foi à mesma região para saber dos canavieiros e pescadores o que eles sabiam e achavam dos acontecimentos. Os canavieiros demonstraram um estranhamento dos fatos e alegaram a falta de tempo, ocupados com o trabalho, enquanto os pescadores, mais informados, fazem-se entender que todos poderão ir à guerra.
Nesses dias, peguei Os sete pilares da sabedoria, de T.E. Lawrence, com a esperança de entender a origem dos acontecimentos. Mas deixei para lá, convencendo-me que a empreitada seria grandiosa, desafiadora e é muito provávelque não me levasse às respostas que desejaria. Imagina: o Mundo à beira de uma guerra particular, os pescadores de Serinhaém dizendo-se prontos para a guerra e eu querendo fazer média comigo mesmo. Entender o Taleban, os novos persas, os conflitos no Oriente Médio, o compromisso do Estado americano de intervir na economia em nome das ameaças de guerra, lendo Lawrence, francamente, André, "tás mesmo perdendo o foco".
Bush está convencido que evitará a recessão e a quebra financeira intervindo na economia e aceitou a idéia de que a guerra vai dissimular as investidas do Estado no mercado. Veja só o que fez de imediato: (a) injetou U$ 100 bi para aumentar a liquidez bancária; (b) U$ 15 bi para o setor aéreo, que quer mais U$ 10 bi; (c) aumentou em U$ 17 bi a verba do Departamento de Defesa; (d) assumiu o controle de segurança dos 402 aeroportos do País; (e) acrescentará mais U$ 8 bi para seguros-desemprego; (f) U$ 20 bi para quem perder o emprego manter seus seguros de saúde; (g) acrescentará mais U$ 8 bi na educação.
Parece que o Estado americano está querendo manter o ciclo de prosperidade econômica da última década com uma ajudinha oficial. Está convencido que vai funcionar, porque o País já tem um inimigo com que se preocupar e se fortalecer. Mas, aqui do meu canto, pensando no meu mundinho, acho que o Brasil precisa fazer uma intervenção para criar a década da prosperidade social, sem esquecer que o crescimento econômico, através do mercado e, às vezes, como mostra Bush, através do Estado, é o que possibilita a sociedade ser forte e se renovar.