Documentário aborda episódio ocorrido no aeroporto dos Guararapes, que resultou na prisão de inocentes
Samarone Lima
Especial para o DIARIO
A lembrança que se tem de uma ditadura é a que o tempo vai moldando. Prisões, torturas, assassinatos, desaparecimentos são processados pelo encontro das gerações, pelos relatos dos mais velhos, dos que participaram da resistência. Às novas gerações, abre-se uma perspectiva generosa: saber compartilhar dessaa memória. O passo seguinte é contar, ajudar a construir memória, tirar do esquecimento.
Andrea Ferraz, jornalista de 23 anos, resolveu contar em vídeo uma das histórias mais nebulosas do período militar (1964-1985): a explosão de uma bomba no Aeroporto dos Guararapes, no Recife, em julho de 1966. Dois mortos, 14 feridos, alguns mutilados para sempre. Especialmente os engenheiros Edinaldo Miranda e Ricardo Zarattini, presos em 1968 e apontados como os autores do atentado. Presos e torturados pela máquina repressiva, sempre negaram qualquer participação no episódio.
Quando o Silêncio Condena, documentário de 28 minutos produzido e dirigido por Andrea Ferraz, é um desses raros momentos em que uma geração conta suas histórias dolorosas e a outra escuta, proporcionando o encontro do País com o seu passado. Fruto de um projeto experimental para o curso de Jornalismo da Unicap, o vídeo será lançado amanhã, às 19h, no Teatro do Apolo.
ARMADILHA - A bomba do Guararapes foi preparada por um grupo de militantes da Ação Popular (AP) e colocada no dia em que o então presidente, general Costa e Silva, chegava ao Recife. O que seria um protesto, acabou em tragédia. Diante dos cadáveres, a organização preferiu silenciar. Ninguém assumiu a "ação revolucionária". A polícia não conseguiu encontrar os autores. Em 11 de dezembro de 1968, Edinaldo e Zarattini foram presos e apresentados à Imprensa como os autores do atentado. Dois dias depois, foi promulgado o Ato Institucional Número 5, que mergulhou o país nas trevas.
Em 35 anos, muita coisa mudou. Ex-militantes da AP, como José Serra, Sérgio Mota, Herbet de Souza (Betinho), ganharam projeção nacional. Mas nenhum dos ex-integrantes demonstrou interesse em revelar averdade. Qualquer menção ao episódio era vista como um incômodo, ou com a tradicional pergunta: "Para que mexer nisso?". Numa carta escrita aos engenheiros, Betinho reconheceu que a bomba foi preparada por integrantes da AP, sem o conhecimento da direção da organização. Uma "ação isolada". Nada mais.
O vídeo mostra a luta incansável dos engenheiros pela verdade, o drama de terem sido usados como bodes expiatórios, mas não cai na armadilha de querer desvendar a autoria do atentado. "Queria contar a história deles, as prisões, torturas, exílios. Na trajetória de Edinaldo e Zarattini, está o percurso de uma geração", diz Andréa.
Ela fez dezenas de entrevistas com familiares dos engenheiros, ex-militantes, ex-presos políticos. Pela primeira vez, Ricardo Zarattini deu um longo depoimento falando sobre o assunto. Uma pesquisa histórica e contextualização dos fatos, a partir de 1964, fazem do documentário um mosaico do período.
Em seu depoimento, Ricardo Zarattini diz que "a verdade tem força revolucionária, ela muda o Mundo". O documentário sugere que os males de uma ditadura não podem ser contabilizados pelo número de mortos, torturados ou desaparecidos. Há os mutilados, os que tiveram vidas, sonhos e projetos devastados, que tiveram que recomeçar de escombros. "Foi uma honra ter tido a oportunidade de contar essa história. Conheci uma geração que sofreu muito, mas que não teve medo de lutar pelo que acreditava", diz Andrea Ferraz.
O exemplo mais contundente da força do documentário talvez tenha sido, ironicamente, o silêncio. Há três semanas, Andréa Ferraz exibiu seu trabalho para um grupo de amigos, estudantes universitários, na faixa dos 22, 23 anos. Ao final da sessão, seguiu-se um longo e perturbador silêncio. "As pessoas ficaram absolutamente caladas. Ninguém falava nada", conta Andréa. O vídeo mostra que o silêncio condenou dois homens inocentes, mas tem a capacidade de proporcionar outro silêncio, que é o da emoção, da reflexão, do questionamento, do encontro com o passado. É um silêncio novo, que liberta.