Sindicato dos Médicos
No dia 15 de agosto de 1931, o DIARIO DE PERNAMBUCO publicou
notícia dando conta de que os doutores Barros Lima, Edgar Altino,
Ageu Magalhães, Geraldo de Andrade e Jorge Lobo se reuniram para
fundar o Sindicato dos Médicos de Pernambuco, sendo o primeiro
presidente João Paulino Marques.
Iniciava-se ali caminhada, perseverante e construtiva, que
alcança agora setenta anos. Não é pouco. Sobretudo
num país jovem, como o Brasil, onde as instituições
aprendem a resistir às intempéries do tempo e do esquecimento.
No caso do Sindicato dos Médicos ele está cada vez socialmente
mais forte. Determinado a patrocinar sua causa. E a garantir o registro
da atuação médica.
Fazer sindicalismo em nossa pátria não é
apenas defender a corporação. Nem somente edificar o horizonte
da sociedade civil. Mas será, com igual prioridade, testemunhar
a cidadania. O espaço público, mais largo do que a esfera
estatal é seu território de luta. E a democracia sua via
preferencial. No período de sua trajetória, o Sindicato
dos Médicos conviveu com trinta anos de regime democrático
e quarenta anos de ditadura. Por isso, ele é vertical.
A medicina, talvez mais do que qualquer outra ciência,
tem agregado, de forma continuada e eficiente, novas tecnologias. Tem
sabido introduzir, tanto na clareza laboratorial, quanto na exatidão
do ato cirúrgico, os avanços tecnológicos e da
pesquisa científica. A revolução da penicilina,
a aplicação da vacina Sabin, os transplantes cardíacos,
os anti-hipertensivos são exemplos de evolução
que dignifica os autores de obra coletiva. E afirmam símbolos
perenes do combate pela vida.
Mais recentemente o estudo do genoma aprofundou extraordinariamente
não só as possibilidades de entendimento de doenças
e de sua cura. Também ampliou a compreensão da genética
humana em quase todos os seus aspectos constitutivos. É a pesquisa
inaugurando hipóteses, a tecnologia consolidando conquistas e
a medicina certificando a relevância de seu papel social.
Em Pernambuco, a atividade médica soma mérito
acadêmico e empreendimento, junta centro de pesquisa e pólo
de serviços, combina talento pessoal e ação coletiva,
justapõe memória e confiante futuro. Nessa diversidade,
a medicina pernambucana não perdeu a vocação histórica
que a tem distinguido: o sentido social de sua ação. Porque,
extrapolando os limites da corporação, se identifica com
os anseios e as angústias da comunidade da qual é integrante.
No âmbito da representação profissional,
o Sindicato dos Médicos confirma essa destinação,
honrando sua finalidade. Ao lutar inclusive pelo aperfeiçoamento
do Sistema Único de Saúde (SUS), o Sindicato tem buscado
defender a população mais carente e humanizar a prática
da medicina. Assim o presidente Ricardo Paiva mantém fidelidade
ao ideário que originou a ação sindical. E concretiza
o esperado gesto de partilhar com todos o pedaço de felicidade
que cabe a cada um aspirar.
Olinda sem lei
Clóvis Cavalcanti Economista e pesquisador social da Fundação
Joaquim Nabuco
Com freqüência, me indagam como vai Olinda com
a prefeita Luciana Santos. Sou também muito cobrado pelo ostensivo
apoio que dei à eleita no pleito de outubro passado. Minha amiga
(e parente) Neide Vasconcelos, eficiente colaboradora da prefeita Jacilda
Urquiza, até parou de ler esta coluna por não concordar
com a escolha que fiz de candidata. Optei por Luciana por acreditar
em seus intentos de melhorar a qualidade de vida da cidade, de proteger
o patrimônio maltratado do sítio histórico olindense
e de abrir espaço para uma gestão efetivamente participativa
do município. Todos os que percebem o sentido da cidadania têm
a expectativa de que possam influir nos rumos da gestão pública
da sociedade em que vivem. Sem isso, fica-se, de fato, ao sabor dos
caprichos dos governantes, como se se lhes tivesse sido outorgada uma
procuração em branco. Não é esse o caso
de eleitores conscientes, muito menos os de Olinda, que votaram num
programa e querem vê-lo vivo e aplicado. A prefeita Luciana Santos
deve saber disso, razão pela qual as cobranças - legítimas
- estão aparecendo.
Há sinais de que a nova administração
tem agido com propósitos de transformar as situações
desagradáveis de que Olinda tem sido vítima, como no caso
da ocupação irregular do espaço no importante e
formoso sítio histórico da Marim. No entanto, por algum
motivo não muito evidente, tem faltado um esforço mais
intenso para correção de equívocos. Na semana passada,
estando no Fórum de Olinda, na avenida Presidente Kennedy, pude
ver a beleza incomparável da colina que se enxerga dali, com
o complexo do Alto da Sé projetando-se quase como uma cidade
italiana medieval. A vista é atraente. Contudo, bem diante do
Fórum, uma construção totalmente irregular e imprópria
(pois em área que os urbanistas chamam de non aedificandi),
para a qual me chamou a atenção na ocasião meu
amigo, o vereador Marcelo Santa Cruz, está começando a
tapar a visão do belo cenário que dali se aprecia. A mesma
coisa, infelizmente, ocorre amiúde na Cidade Alta, com velhas
casas apresentando puxadas inadequadas, novas construções
erguendo-se em fundos de terreno (na rua do Bonfim há várias;
no Alto da Sé, idem), invasões em toda parte e por aí
vai. A Prefeitura projeta revitalizar a praça da Sé, o
que já não é sem tempo, dada a aberração
que aquilo representa, com barracas feias e boxes que simplesmente fecham
a vista do lado do magnífico Horto del Rey, sem contar o insólito
prédio (que se diz significativo, por ser obra arquitetônica
pioneira do modernismo no Brasil) da Caixa Dágua. Providência
simples que já deveria ter sido tomada é a da retirada
dos horrendos blocos de cimento (gelos baianos) da Sigismundo Gonçalves
e de lugares como a rua de São Francisco, o Carmo, etc.
A decisão de fazer sair do Carmo a Faculdade de Ciências
Contábeis e Administrativas (Focca) é das mais acertadas,
apesar dos transtornos que isso possa causar ao estabelecimento de ensino
e aos que a ele estão ligados. A vocação de um
centro histórico não é o de dar abrigo a atividades
que congestionam suas vias, nas quais, na verdade, o trânsito
deveria ser o mais restrito possível, como ocorre em muitas cidades-patrimônio
do Mundo, a exemplo de Florença, San Juan de Porto Rico, ou a
equatoriana Cuenca. Tampouco a vocação de um sítio
histórico da singularidade e riqueza do de Olinda é ser
palco de barulhos ensurdecedores como o que se produz nos fins de semana
na Colônia Z-4 ou o das segundas-feiras no Clube Atlântico.
Ou o de festas em casas alugadas, como tem ocorrido na ladeira de São
Francisco, em que a ordem é totalmente perturbada por emissões
sonoras altíssimas de fuzuês que se estendem por noites
inteiras, até manhã alta, com o efeito ainda de violentos
engarrafamentos de trânsito numa rua estreita. Com relação
a esses abusos, nem as autoridades municipais nem a polícia estadual,
às quais se tem recorrido, demonstram qualquer empenho na coibição
dos desrespeitos. Um hotel de Olinda da categoria do Sete Colinas, por
exemplo, tem sido vítima desses abusos, havendo solicitado providências
à Prefeitura, sem que fosse atendido em seu justo pleito. Há
três ou quatro anos, a barulheira que se produzia no Bar da Rampa,
do Varadouro, além dos ensaios diários de maracatu do
Mercado Eufrásio Barbosa, foi eliminada por intervenção
municipal. Do mesmo modo, um som aos domingos que procedia da área
do Fortim de S. Francisco, se conseguiu da prefeita Jacilda que ficasse
restringido a um horário que não excedia as 22h.
Lamentavelmente, a realidade agora mudou. Chegando de viagem
no dia 13 de agosto, segunda-feira, a uma hora da madrugada, espantei-me
com o barulho que vinha da Z-4. A zoada foi até de manhã.
No dia 19, domingo, a zoada começou às 21h e prosseguiu
pela madrugada, tendo já acontecido na sexta e sábado
precedentes. Meus jovens vizinhos Marina e Mateus Oliveira contaram-me
em detalhes como havia evoluído o barulho no sábado. Eles
não tinham conseguido pregar o olho (eu descansava no meu silencioso
reduto de Gravatá). Independentemente do efeito nefasto - fácil
de perceber - que isso representa para um turismo civilizado, os moradores
do sítio histórico têm todo o direito de requerer
modos corteses de convivência no local. Não se pode admitir
uma Olinda sem lei, como está se tornando a situação
na cidade. A simpática prefeita Luciana está devendo uma
providência àqueles que lhe conferiram o mandato que ostenta.
Sou um dos que aguardam corajosas decisões suas, em sintonia
com aspirações genuínas de uma cidade-patrimônio.
Bom-dia, Recife
Ronildo Maia Leite
Domingo passado, falei sem citar o nome, da professora
Maria das Graças Andrade de Almeida. Embora sem muita convivência
pessoal, conheço-a como uma profissional competente e honesta,
dona de um currículo que a engrandece e aos que estão
ao seu lado. A ela dei, e dou enquanto estiver no Arquivo Público,
o apoio que necessitava para levar ao mundo acadêmico o trabalho
que desenvolve em pesquisas.
Lembro, a propósito, recente episódio que
atesta a minha conduta. Em 1999, houve no Recife um festival internacional
de histórias em quadrinhos. Estranhei o fato de a Secretaria,
só então de Cultura, promovesse o evento esquecendo o
material disponível na hemetoreca - centenas de jornais de humor,
do Recife e outros cantos do Brasil. Fui a Fernando Antônio Gonçalves,
então diretor da Fundarpe, a quem ofereci a contribuição
da hemeroteca - pra quem não sabe, hemeroteca quer dizer coleção
de jornais. Não dá mais tempo, foi a resposta recebida.
Esquecera o nosso Fernando que os meus conceitos de tempo
diferem muito dos dele. Homem de jornal, meio-dia é meio-dia,
passou disso atrasa a edição nas bancas. Voltei pro Arquivo
e convidei a professora para elaborar uma série de eventos. Em
menos de um mês, lancei o primeiro volume do livro acompanhado
de um CD, contando a história do humor em Pernambuco. Quem me
deu o apoio foi exatamente ela, e sua irmã, a também professora
universitária Rosário Andrade. O livro foi premiado num
festival de São Paulo. Foram, as duas, apanhar a premiação,
inclusive em nome do Arquivo Público e da Editora Bagaço.
A professora Maria das Graças encontra-se em Portugal,
faz algum tempo. Como seria ela responsável pela má orientação
dada a uma estudante de História falando sobre a presença
nazista em Pernambuco? Tá na cara, não foi ela. Teria
sido a professorinha primária e formada em História a
falta de melhor orientação sobre o que se encontra nos
arquivos do DOPS em poder do Arquivo. E dizer, por exemplo, que os dados
citados em recentes matéria de jornal são de autores tais
e quais.
Cheguei a contar, faz algum tempo, a elas duas, o trabalho
desenvolvido pela polícia daqui e do Rio sobre a caça
aos nazistas no Recife. Lembrei o que havia encontrado, e é capa
de dois livros meus, sobre a presença de espiões alemães
dentro dos nossos jornais, inclusive a história dos maços
de cigarro Nacionaes formando a suástica - que por sinal não
se encontra no livro Suástica sobre o Brasil. Falei, inclusive,
do afundamento de navios brasileiros partidos do cais da resistência
democrática, o porto do Recife. E que dizia o seguinte: Chicoteado
feito um poltro, primeiro o Taubaté içou a bandeira brasileira
no mastro de popa. Depois, um pano branco, de paz. Pouco antes, também
o Santa Clara havia emborcado e engolido pelas ondas, no mar das Bermudas.
E o Atalaia redemoinhado por um ciclone de balas nazistas, nas costas
da África. Seguiram-se outros. O Buarque, o Olinda, o Parnaíba,
o Aarabutã, o Alegrte, o Pacuri. Muitos. Muitos. Tantos, tantos
até completar 38.
Nenhuma coincidência: desse total, vinte haviam saído
do Recife - um deles, o Pedrinhas, da Companhia de Comércio de
Pernambuco. Que fizeram escalas em Cabedelo, Maceió e Natal.
Antes de acabar fevereiro de 1942, três cargueiros foram a pique.
Mais dois em março. Três em maio. Sete em junho. Oito em
julho e agosto. Como lombrigadas de aço, os torpedos do submarino
U-507 se enfiavam na barriga de veleiros e barcaças. Entre os
náufragos de agosto, estavam os pescadores da Jacira.
A tristeza amunhecava o povo na Pracinha. Este DIARIO DE
PERNAMBUCO berrava:
A Alemanha desce o Atlântico para atacar-nos dentro de nossa própria
casa.
Mata-se a guerra esfolando o pescoço do espião.
Inflava a bolha de ódio. Inflava. Um dia haveria de estourar,
todos sabiam.
Estouroru na quinta-feira, 18 de agosto de 1942. A manchete
dos jornais lavaria o peito afobado das pessoas, noventa e seis horas
depois, dia 22: Vargas reúne o Ministério e declara estado
de beligerância com a Alemanha e a Itália.
O Recife viveu ontem horas de intensa vibração
patriótica - foi discreta demais a notícia do Jornal
do Commercio. Apesar da censura, foi um pouco mais longe este DIARIO:
populares conduzindo materiais arrancados de casas alemães e
italianas, um caixão com o enterro simbólico do nazismo,
protesto de estudantes. Quatro fotografias.
A passeata que saiu da Faculdade de Direito carregava quase
20 mil pessoas no lombo das ruas quando chegou à Pracinha. Tinha
gente montada até nas árvores quando desembocou no Campo
das Princesas. Da sacada do Palácio, o interventor Agamenon Magalhães
arregala os olhos miúdos, achinezados - logo ele a quem o FBI
acusara de integralista e simpatizante do Eixo.
Nem todo mundo escutou o que disse o China Gordo:
- Se os acontecimentos levarem o Brasil à guerra,
serei o primeiro a marchar na vanguarda do povo do meu Estado!
Pois fum, não, pois foi. Agamenon Magalhães
se tornou no mais ferrenho antinazista da região.