Edição de Sábado, 25 de Agosto de 2001
 

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Opinião

Sindicato dos Médicos

No dia 15 de agosto de 1931, o DIARIO DE PERNAMBUCO publicou notícia dando conta de que os doutores Barros Lima, Edgar Altino, Ageu Magalhães, Geraldo de Andrade e Jorge Lobo se reuniram para fundar o Sindicato dos Médicos de Pernambuco, sendo o primeiro presidente João Paulino Marques.
  Iniciava-se ali caminhada, perseverante e construtiva, que alcança agora setenta anos. Não é pouco. Sobretudo num país jovem, como o Brasil, onde as instituições aprendem a resistir às intempéries do tempo e do esquecimento. No caso do Sindicato dos Médicos ele está cada vez socialmente mais forte. Determinado a patrocinar sua causa. E a garantir o registro da atuação médica.
  Fazer sindicalismo em nossa pátria não é apenas defender a corporação. Nem somente edificar o horizonte da sociedade civil. Mas será, com igual prioridade, testemunhar a cidadania. O espaço público, mais largo do que a esfera estatal é seu território de luta. E a democracia sua via preferencial. No período de sua trajetória, o Sindicato dos Médicos conviveu com trinta anos de regime democrático e quarenta anos de ditadura. Por isso, ele é vertical.
  A medicina, talvez mais do que qualquer outra ciência, tem agregado, de forma continuada e eficiente, novas tecnologias. Tem sabido introduzir, tanto na clareza laboratorial, quanto na exatidão do ato cirúrgico, os avanços tecnológicos e da pesquisa científica. A revolução da penicilina, a aplicação da vacina Sabin, os transplantes cardíacos, os anti-hipertensivos são exemplos de evolução que dignifica os autores de obra coletiva. E afirmam símbolos perenes do combate pela vida.
  Mais recentemente o estudo do genoma aprofundou extraordinariamente não só as possibilidades de entendimento de doenças e de sua cura. Também ampliou a compreensão da genética humana em quase todos os seus aspectos constitutivos. É a pesquisa inaugurando hipóteses, a tecnologia consolidando conquistas e a medicina certificando a relevância de seu papel social.
  Em Pernambuco, a atividade médica soma mérito acadêmico e empreendimento, junta centro de pesquisa e pólo de serviços, combina talento pessoal e ação coletiva, justapõe memória e confiante futuro. Nessa diversidade, a medicina pernambucana não perdeu a vocação histórica que a tem distinguido: o sentido social de sua ação. Porque, extrapolando os limites da corporação, se identifica com os anseios e as angústias da comunidade da qual é integrante.
  No âmbito da representação profissional, o Sindicato dos Médicos confirma essa destinação, honrando sua finalidade. Ao lutar inclusive pelo aperfeiçoamento do Sistema Único de Saúde (SUS), o Sindicato tem buscado defender a população mais carente e humanizar a prática da medicina. Assim o presidente Ricardo Paiva mantém fidelidade ao ideário que originou a ação sindical. E concretiza o esperado gesto de partilhar com todos o pedaço de felicidade que cabe a cada um aspirar.

Olinda sem lei
Clóvis Cavalcanti Economista e pesquisador social da Fundação Joaquim Nabuco

Com freqüência, me indagam como vai Olinda com a prefeita Luciana Santos. Sou também muito cobrado pelo ostensivo apoio que dei à eleita no pleito de outubro passado. Minha amiga (e parente) Neide Vasconcelos, eficiente colaboradora da prefeita Jacilda Urquiza, até parou de ler esta coluna por não concordar com a escolha que fiz de candidata. Optei por Luciana por acreditar em seus intentos de melhorar a qualidade de vida da cidade, de proteger o patrimônio maltratado do sítio histórico olindense e de abrir espaço para uma gestão efetivamente participativa do município. Todos os que percebem o sentido da cidadania têm a expectativa de que possam influir nos rumos da gestão pública da sociedade em que vivem. Sem isso, fica-se, de fato, ao sabor dos caprichos dos governantes, como se se lhes tivesse sido outorgada uma procuração em branco. Não é esse o caso de eleitores conscientes, muito menos os de Olinda, que votaram num programa e querem vê-lo vivo e aplicado. A prefeita Luciana Santos deve saber disso, razão pela qual as cobranças - legítimas - estão aparecendo.
  Há sinais de que a nova administração tem agido com propósitos de transformar as situações desagradáveis de que Olinda tem sido vítima, como no caso da ocupação irregular do espaço no importante e formoso sítio histórico da Marim. No entanto, por algum motivo não muito evidente, tem faltado um esforço mais intenso para correção de equívocos. Na semana passada, estando no Fórum de Olinda, na avenida Presidente Kennedy, pude ver a beleza incomparável da colina que se enxerga dali, com o complexo do Alto da Sé projetando-se quase como uma cidade italiana medieval. A vista é atraente. Contudo, bem diante do Fórum, uma construção totalmente irregular e imprópria (pois em área que os urbanistas chamam de “non aedificandi”), para a qual me chamou a atenção na ocasião meu amigo, o vereador Marcelo Santa Cruz, está começando a tapar a visão do belo cenário que dali se aprecia. A mesma coisa, infelizmente, ocorre amiúde na Cidade Alta, com velhas casas apresentando puxadas inadequadas, novas construções erguendo-se em fundos de terreno (na rua do Bonfim há várias; no Alto da Sé, idem), invasões em toda parte e por aí vai. A Prefeitura projeta revitalizar a praça da Sé, o que já não é sem tempo, dada a aberração que aquilo representa, com barracas feias e boxes que simplesmente fecham a vista do lado do magnífico Horto del Rey, sem contar o insólito prédio (que se diz significativo, por ser obra arquitetônica pioneira do modernismo no Brasil) da Caixa Dágua. Providência simples que já deveria ter sido tomada é a da retirada dos horrendos blocos de cimento (gelos baianos) da Sigismundo Gonçalves e de lugares como a rua de São Francisco, o Carmo, etc.
  A decisão de fazer sair do Carmo a Faculdade de Ciências Contábeis e Administrativas (Focca) é das mais acertadas, apesar dos transtornos que isso possa causar ao estabelecimento de ensino e aos que a ele estão ligados. A vocação de um centro histórico não é o de dar abrigo a atividades que congestionam suas vias, nas quais, na verdade, o trânsito deveria ser o mais restrito possível, como ocorre em muitas cidades-patrimônio do Mundo, a exemplo de Florença, San Juan de Porto Rico, ou a equatoriana Cuenca. Tampouco a vocação de um sítio histórico da singularidade e riqueza do de Olinda é ser palco de barulhos ensurdecedores como o que se produz nos fins de semana na Colônia Z-4 ou o das segundas-feiras no Clube Atlântico. Ou o de festas em casas alugadas, como tem ocorrido na ladeira de São Francisco, em que a ordem é totalmente perturbada por emissões sonoras altíssimas de fuzuês que se estendem por noites inteiras, até manhã alta, com o efeito ainda de violentos engarrafamentos de trânsito numa rua estreita. Com relação a esses abusos, nem as autoridades municipais nem a polícia estadual, às quais se tem recorrido, demonstram qualquer empenho na coibição dos desrespeitos. Um hotel de Olinda da categoria do Sete Colinas, por exemplo, tem sido vítima desses abusos, havendo solicitado providências à Prefeitura, sem que fosse atendido em seu justo pleito. Há três ou quatro anos, a barulheira que se produzia no Bar da Rampa, do Varadouro, além dos ensaios diários de maracatu do Mercado Eufrásio Barbosa, foi eliminada por intervenção municipal. Do mesmo modo, um som aos domingos que procedia da área do Fortim de S. Francisco, se conseguiu da prefeita Jacilda que ficasse restringido a um horário que não excedia as 22h.
  Lamentavelmente, a realidade agora mudou. Chegando de viagem no dia 13 de agosto, segunda-feira, a uma hora da madrugada, espantei-me com o barulho que vinha da Z-4. A zoada foi até de manhã. No dia 19, domingo, a zoada começou às 21h e prosseguiu pela madrugada, tendo já acontecido na sexta e sábado precedentes. Meus jovens vizinhos Marina e Mateus Oliveira contaram-me em detalhes como havia evoluído o barulho no sábado. Eles não tinham conseguido pregar o olho (eu descansava no meu silencioso reduto de Gravatá). Independentemente do efeito nefasto - fácil de perceber - que isso representa para um turismo civilizado, os moradores do sítio histórico têm todo o direito de requerer modos corteses de convivência no local. Não se pode admitir uma Olinda sem lei, como está se tornando a situação na cidade. A simpática prefeita Luciana está devendo uma providência àqueles que lhe conferiram o mandato que ostenta. Sou um dos que aguardam corajosas decisões suas, em sintonia com aspirações genuínas de uma cidade-patrimônio.

Bom-dia, Recife
Ronildo Maia Leite

Domingo passado, falei sem citar o nome, da professora Maria das Graças Andrade de Almeida. Embora sem muita convivência pessoal, conheço-a como uma profissional competente e honesta, dona de um currículo que a engrandece e aos que estão ao seu lado. A ela dei, e dou enquanto estiver no Arquivo Público, o apoio que necessitava para levar ao mundo acadêmico o trabalho que desenvolve em pesquisas.
  Lembro, a propósito, recente episódio que atesta a minha conduta. Em 1999, houve no Recife um festival internacional de histórias em quadrinhos. Estranhei o fato de a Secretaria, só então de Cultura, promovesse o evento esquecendo o material disponível na hemetoreca - centenas de jornais de humor, do Recife e outros cantos do Brasil. Fui a Fernando Antônio Gonçalves, então diretor da Fundarpe, a quem ofereci a contribuição da hemeroteca - pra quem não sabe, hemeroteca quer dizer coleção de jornais. Não dá mais tempo, foi a resposta recebida.
  Esquecera o nosso Fernando que os meus conceitos de tempo diferem muito dos dele. Homem de jornal, meio-dia é meio-dia, passou disso atrasa a edição nas bancas. Voltei pro Arquivo e convidei a professora para elaborar uma série de eventos. Em menos de um mês, lancei o primeiro volume do livro acompanhado de um CD, contando a história do humor em Pernambuco. Quem me deu o apoio foi exatamente ela, e sua irmã, a também professora universitária Rosário Andrade. O livro foi premiado num festival de São Paulo. Foram, as duas, apanhar a premiação, inclusive em nome do Arquivo Público e da Editora Bagaço.
  A professora Maria das Graças encontra-se em Portugal, faz algum tempo. Como seria ela responsável pela má orientação dada a uma estudante de História falando sobre a presença nazista em Pernambuco? Tá na cara, não foi ela. Teria sido a professorinha primária e formada em História a falta de melhor orientação sobre o que se encontra nos arquivos do DOPS em poder do Arquivo. E dizer, por exemplo, que os dados citados em recentes matéria de jornal são de autores tais e quais.
  Cheguei a contar, faz algum tempo, a elas duas, o trabalho desenvolvido pela polícia daqui e do Rio sobre a caça aos nazistas no Recife. Lembrei o que havia encontrado, e é capa de dois livros meus, sobre a presença de espiões alemães dentro dos nossos jornais, inclusive a história dos maços de cigarro Nacionaes formando a suástica - que por sinal não se encontra no livro Suástica sobre o Brasil. Falei, inclusive, do afundamento de navios brasileiros partidos do cais da resistência democrática, o porto do Recife. E que dizia o seguinte: Chicoteado feito um poltro, primeiro o Taubaté içou a bandeira brasileira no mastro de popa. Depois, um pano branco, de paz. Pouco antes, também o Santa Clara havia emborcado e engolido pelas ondas, no mar das Bermudas. E o Atalaia redemoinhado por um ciclone de balas nazistas, nas costas da África. Seguiram-se outros. O Buarque, o Olinda, o Parnaíba, o Aarabutã, o Alegrte, o Pacuri. Muitos. Muitos. Tantos, tantos até completar 38.
  Nenhuma coincidência: desse total, vinte haviam saído do Recife - um deles, o Pedrinhas, da Companhia de Comércio de Pernambuco. Que fizeram escalas em Cabedelo, Maceió e Natal. Antes de acabar fevereiro de 1942, três cargueiros foram a pique. Mais dois em março. Três em maio. Sete em junho. Oito em julho e agosto. Como lombrigadas de aço, os torpedos do submarino U-507 se enfiavam na barriga de veleiros e barcaças. Entre os náufragos de agosto, estavam os pescadores da Jacira.
  A tristeza amunhecava o povo na Pracinha. Este DIARIO DE PERNAMBUCO berrava:
A Alemanha desce o Atlântico para atacar-nos dentro de nossa própria casa.
  Mata-se a guerra esfolando o pescoço do espião. Inflava a bolha de ódio. Inflava. Um dia haveria de estourar, todos sabiam.
  Estouroru na quinta-feira, 18 de agosto de 1942. A manchete dos jornais lavaria o peito afobado das pessoas, noventa e seis horas depois, dia 22: Vargas reúne o Ministério e declara estado de beligerância com a Alemanha e a Itália.
  “O Recife viveu ontem horas de intensa vibração patriótica” - foi discreta demais a notícia do Jornal do Commercio. Apesar da censura, foi um pouco mais longe este DIARIO: populares conduzindo materiais arrancados de casas alemães e italianas, um caixão com o enterro simbólico do nazismo, protesto de estudantes. Quatro fotografias.
  A passeata que saiu da Faculdade de Direito carregava quase 20 mil pessoas no lombo das ruas quando chegou à Pracinha. Tinha gente montada até nas árvores quando desembocou no Campo das Princesas. Da sacada do Palácio, o interventor Agamenon Magalhães arregala os olhos miúdos, achinezados - logo ele a quem o FBI acusara de integralista e simpatizante do Eixo.
  Nem todo mundo escutou o que disse o China Gordo:
  - Se os acontecimentos levarem o Brasil à guerra, serei o primeiro a marchar na vanguarda do povo do meu Estado!
  Pois fum, não, pois foi. Agamenon Magalhães se tornou no mais ferrenho antinazista da região.








 

 
 
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