Craca literária
Eu estava lendo sobre um livro que fala dos anos que James Joyce viveu em Trieste, onde dava aulas na Berlitz e escreveu o "Retrato do artista quando jovem" e começou o "Ulysses", e me dei conta que certas obras literárias são como velhos navios: críticas, análises, exegeses etc, grudam no seu casco como craca, o navio e a craca passam a ser uma coisa só e com o tempo a craca quase dispensa o navio.
Joyce talvez seja o autor mais explicado de todos os tempos e interpretações de "Ulysses" e de "Finnegans Wake" por gente como Stuart Gilbert e Antony Burgess também se tornaram clássicos, sem falar em livros sobre o autor, como a famosa biografia de Richard Ellmann. Este livro novo, de John McCourt, traz um achado crítico inédito: McCourt descobriu que muito da linguagem ancestral enigmática de "Finnegans Wake" vem do triestino, o dialeto local que a família Joyce falava em casa.
O autor também dá mais importância do que Ellmann e outros estudiosos a Trieste - descrita como uma espécie de Dublin levantina,com o mesmo vento do mar e o mesmo grande número de bares, mas uma população mais cosmopolita - como influência no trabalho de Joyce. Uma nova e brilhante craca. Ler Joyce com uma explicação do lado é tão indispensável quanto ler Shakespeare com um glossário de inglês elizabetano, a não ser que você prefira não entender a metade mas ser levado e enlevado, sem interrupções, pela linguagem.
Quando publicava suas peças, George Bernard Shaw escrevia introduções maiores do que as peças e, em alguns casos, como o do prefácio de "Santa Joana", melhores. Uma vez, tive a idéia de escrever um livro sobre outro livro sobre outro livro, este inexistente, e escrevê-lo quase todo na forma de longas notas de pé de página. Mas, claro, coisa parecida já foi feita: "Fogo pálido", do Nabokov, é apenas um pequeno poema, seguido de uma longa interpretação errada. Tudo já foi feito. Nada a ver, mas me lembrei que o sobrenome da mulher de Joyce, Nora, era Barnacle, "craca" em inglês. Joyce contava que seu pai o alertara que o nome era uma premonição: Nora Barnacle nunca largaria dele. E, fora algumas separações temporárias, nunca largou. Joyce estava destinado a ser o objeto de várias devoções, e é até hoje.