Autorização para que reféns fossem liberados foi dada no final da tarde de ontem, após os detentos conseguirem que quatro reivindicações fossem atendidas
Ana Paula Neiva e Marcionila Teixeira
Da equipe do DIARIO
Cruzar os portões da Penitenciária Barreto Campelo, em Itamaracá, no início da tarde de ontem, foi um alívio para centenas de mulheres e crianças que passaram a madrugada em claro depois de viverem trinta horas como reféns dos próprios parentes na segunda rebelião do ano na unidade. O movimento - que teve como estopim principal o atraso de duas horas na entrada das visitas conjugais, que acontecem toda quarta-feira - só terminou depois que os 1.060 presos conquistaram quatro reivindicações. Mais uma vez, a reação do Governo diante de um movimento nas unidades penais foi classificada como falta de pulso, principalmente pelos agentes penitenciários que se dizem desmoralizados.
Os detentos somente autorizaram a saída das 223 mulheres, entre elas 100 crianças e adolescentes, depois de uma reunião com representantes da Superintendência do Sistema Penitenciário (Susipe). Diante das reivindicações dos manifestantes, a Susipe decidiu estabelecer quatro pontos para se chegar ao fim da rebelião: garantias de não haver represálias aos amotinados e atrasos na entrada das visitas, agilização nos processos judiciais e disponibilidade de carros da Susipe para transportar as mulheres pela estrada vicinal que leva à unidade. O anúncio do fim do movimento foi feito pelo diretor adjunto da Susipe, José Antônio Fonseca de Melo, o mesmo que avisou que iria cumprir o prometido junto aos presos.
Melo informou que as próximas visitas deverão começar às 9h e seguir até às 17h30, uma hora a menos do horário anterior. "O horário antigo coincidia com a troca da guarda e além disso estava sendo dificultado porque as policiais militares responsáveis pela revista nas mulheres chegaram atrasadas à unidade nas últimas três semanas". Melo disse que atualmente somente quatro advogados fazem atendimento aos presos. "Vamos analisar uma forma de agilizar esse serviço", disse. Por enquanto, a direção da unidade ainda é do major José Edilson Monteiro, que fica no cargo mesmo contra a vontade dos detentos, que também exigiram a saída de alguns agentes penitenciários. Os rebelados reivindicam ainda a proibição de presos trabalhando na penal, setor onde ficam os prontuários dos detentos.
INSISTÊNCIA - Mesmo depois do acordo firmado, muitas mulheres dos presos decidiram fincar o pé para não sair da unidade às 16h, horário determinado pela Susipe. Pediam para ficar por mais uma hora. As únicas pessoas que pareciam satisfeitas e à vontade em meio aos reféns eram as mulheres dos presos e os próprios detentos. Muitas saíram da unidade de banho tomado e com aspecto satisfeito. "Meu marido fez jantar e café da manhã. Ninguém passou fome. Domingo estou aqui de volta", disse Maria Lurdes de Souza, 44 anos.
Maria Anunciada da Silva, 29, chegou ontem à Barreto Campelo com seis crianças. "Dormi na cela com meu marido e as crianças. Os presos que não tinham mulher dormiram nos corredores. Comi até carne de charque. Foi tudo tranqüilo. Quem fez a confusão foi a direção", criticou. Preocupadas mesmo estavam as senhoras idosas, mães ou avós dos presidiários. "Apesar da noite ter sido tranqüila, não preguei o olho na madrugada. Não quero voltar aqui tão cedo", desabafou a mãe de um preso que se identificou apenas como Marina.
Por volta das 17h, quando tudo parecia estar resolvido, cerca de 50 mulheres fizeram um pequeno tumulto em frente ao portão pricipal. Elas protestaram contra a presença de duas viaturas da Radiopatrulha da Polícia Militar, por temerem que os policiais fossem entrar na unidade para fazer uma revista nas celas, e por isso, ameaçaram só ir embora quando os PMs saíssem. "Combiram que não ia ter baculejo, então o que esses policiais estão fazendo aqui?", questionou Rose da Silva, 29. O impasse só foi resolvido, quando o superintendente da Susipe, coronel Geraldo Severiano, garantiu mais uma vez que não haveria represálias contra os detentos.