Edição de Sexta-Feira, 24 de Agosto de 2001
 

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Opinião

Reajuste dos servidores

A decisão do Governo de reajustar em 3,5%, a partir de janeiro, os salários dos servidores públicos, frustra expectativas da categoria. Desde janeiro de 1995, não há reposição das perdas no poder aquisitivo dos vencimentos. No período, os órgãos de representação classista calculam que o incremento inflacionário foi da ordem de 75,48%. É o percentual que alimenta os protestos e surge na greve atual como bandeira de reivindicação.

  Compreende-se que a crise econômica há tempos instalada no País não permite resolver demandas sociais do gênero mediante retribuição adequada. Tanto mais porque os efeitos do desastre argentino desatam instabilidade financeira interna de proporções inquietantes. Para agravar a situação, a insuficiência no abastecimento de energia se reflete de modo perverso no desempenho do setor privado, com repercussão nos fluxos de receita para o erário. Todavia, o aumento projetado de 3,5% para o próximo ano sequer atenua a aflição dos destinatários no exercício corrente, que se encerrará com inflação de 6% na melhor das hipóteses. Mas não se trata de enfocar a causa dos servidores apenas como uma questão de justiça.

  A fixação de salários justos na administração pública é fator indispensável para a execução das políticas estratégicas do Estado. Ainda não se fez com exatidão científica o inventário dos prejuízos causados ao País pela ineficiência da burocracia estatal. Mas se sabe que é fenômeno associado sobretudo à baixa remuneração de quase todos os agentes públicos, à qual se associa a ausência de estímulos funcionais e de programas de aperfeiçoamento profissional. Até agora o Governo tem alcançado soluções engenhosas para resolver problemas tão angustiantes quanto o do funcionalismo, apesar do mais severo ajuste fiscal já experimentado pelo País.

  Um dos dogmas da ciência administrativa proclama que as crises costumam favorecer o encontro de saídas não ortodoxas. É fundamental, pois, rever relações contábeis para que se encontrem espaços orçamentários capazes de garantir realinhamento dignopara os vencimentos dos trabalhadores públicos. Caso contrário, cumpre ao Congresso identificar fontes de receitas aptas a cobrir aumento mais consentâneo com as carências dos servidores. Também é indispensável evitar a concessão de reajustes diferenciados por meio de gratificações adicionais a determinadas classes. Assim como o percentual insuficiente de 3,5%, aí está outro fator que causará o ajuizamento de milhões de demandas perante o Judiciário. É que o artigo 37, inciso X, da Constituição, ordena que os salários devem ser corrigidos para todos sem distinção de índices. É precaução que se impõe para não comprometer as contas futuras do Governo.

Artigos

Ao mais fracos, a fatura


Hugo Cavalcanti Melo Filho
PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS MAGISTRADOS DA JUSTIÇA DO TRABALHO

Na ânsia de cumprir mais uma das perversas exigências do Fundo Monetário Internacional, o Governo se prepara para tentar aprovar no Congresso, mais uma vez, a PEC 136/99, que impõe a contribuição previdenciária aos servidores inativos.

  Em um país sério, poucos acreditariam nisso. Antes desta tentativa, projetos semelhantes foram submetidos ao crivo dos parlamentares nada menos do que seis vezes. Duas durante o governo Itamar Franco e três no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique, sendo todos rejeitados. No início de 1999 foi sancionada a Lei nº 9.783/99, aprovada em regime de urgência na Câmara dos Deputados e no Senado, no prazo recorde de uma semana, fixando a contribuição para os servidores aposentados e pensionistas, que foi, meses depois, declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal.

  Na época, temerosos de serem apontados como responsáveis pelo agravamento da crise econômica, os parlamentares não pensaram duas vezes e chancelaram a pretensão governamental. Agora, a situação é diferente. Importantes líderes, inclusive de partidos da base de sustentação do Governo, já se manifestaram contrariamente à nova investida.

  No momento em que se espera do presidente o cumprimento de decisão do Supremo Tribunal Federal, que o considerou omisso e em mora, no que concerne ao encaminhamento de projeto de lei destinado à revisão da retribuição dos servidores, há mais de seis anos estagnada e corroída por índices inflacionários que ultrapassam os 70%, o Governo acena com infame proposta de reajuste no percentual de 5%, em 2002, do qual ficariam de fora os servidores aposentados, e ressuscita a discussão da contribuição dos inativos. Dessa forma, ao contrário de aumento, muitos servidores sofrerão, no final das contas, diminuição de seus ganhos. Tudo para que se atinja a meta imposta pelo FMI como condição para a concessão de empréstimo de US$ 15 bilhões: a arrecadação extraordinária de R$ 6 bilhões, somente em 2002.

  A redução de retribuição, quando se anseia por ajustes, trata-se de verdadeiro acinte. Se o propósito é aumentar a arrecadação da Previdência, por que não se criam mecanismos facilitadores da cobrança das dezenas de bilhões de dólares que lhe são devidos pelas grandes empresas? Por que não se elaboram fórmulas para impedir as fraudes? Será razoável exigir de servidores mal pagos, de pensionistas e, principalmente, de aposentados que passaram décadas contribuindo, na esperança de uma velhice tranqüila e segura, o pagamento de mais essa fatura?

  Numa imagem muito interessante, Maurice Duverger identifica a ambivalência da política com Jano, o deus de duas faces, a verdadeira representação do Estado, que é sempre, e ao mesmo tempo, "instrumento de domínio de certas classes sobre outras, utilizado pelas primeiras em seu proveito e em detrimento das segundas, e um meio de assegurar uma certa ordem social, uma certa integração de todos na coletividade, para o bem comum".

  O Jano brasileiroapresenta-se com uma face apenas. A terrível face da exploração, da dominação, da exclusão, do sacrifício. Sacrifício sem recompensa, sem contrapartida. Sacrifício que não se assimila, que não se aceita. Quanto ao bem comum...

Interior

Cleo Nicéas
CONSULTOR DE EMPRESAS

Manhã de sol quente no Interior. É sábado, dia de feira, quando os moradores de sítios e fazendas chegam nos "carros" como se fossem romeiros, a fim de colocar as conversas "em dia", reabastecer as dispensas, pagar as contas do crediário e se amostrar. As moças com suas roupas novas, pintadas e perfumadas lembram as atrizes da televisão e os homens com seu vestuário imitam as duplas sertanejas. No mercado de farinha é um roça, danada de boa, entre olhares desejosos à procura de um compromisso mais sério. Em cada box um fornecedor amigo, fidelizando um compromisso que vem de pai para filho, onde além de vender produtos, trocam os cheques dos pagamentos semanais dos novos patrões do Interior. Jovens da cidade grande tentando resgatar as tradições familiares, facilmente reconhecidos pelas caminhonetes importadas.

  Manhã de sol quente de verão no Interior. Há uma nevoa no ar. É a poeira da farinha sempre pegada e jogada na boca antes de comprar. Há poeira do feijão sempre mexido com a mão antes de mandar pesar. Há poeira de milho no xerém mexido na hora de embrulhar. Tudo isso mexido e cheirado traz um prazer danado, renovado a cada minuto vivido na porta do mercado. De repente, um circulo de gente no meio da rua, é um camelô com uma cobra no pescoço, microfone de Sílvio Santos propagando pomadas que curam todo tipo de mordida de bicho. É uma verdadeira aula prática de vendas e um show de ilusionismo.

  Acolá, um grupo menor observa uma conversa nada amistosa entre um velho (o pai), uma mulher (a filha), um bêbado (o genro), um sóbrio (irmão do bêbado). É um ajuste de condições para a separação do casal que tem cinco filhos. O pai da moça fala por ela e diz querer apenas a feira para os meninos, pois lugar em casa para abrigá-los não é problema, onde moram dois moram sete. Não é isso filha? Ela acena que sim com a cabeça e o velho emenda: pois não há mais "gosto" nesse casório. Esse aí é um cabra safado só pensa em beber. O marido arruma as calças na cintura e tenta falar alguma coisa. A língua parece pesada e não consegue retrucar. O irmão toma as dores e o clima fica tenso. Ele pode ser bêbado, mas é homem e meu irmão e o senhor tem que lhe respeitar. Retiro o que disse. O que o senhor sugere tá acertado e a feira dos meninos garantida, até ela arrumar outro. É no bigode. Estende a mão e o velho também. O aperto sela o acordo e o povo em volta aplaude. Uma senhora chega perto da mulher e pergunta: você ainda gosta dele? O pai percebe e olha pra filha. Ela responde baixinho que não e uma lágrima escorre pela face. Uma cega passa a mão no rosto da mulher, enxuga a lágrima e resume: o medo diz que não, a lágrima diz que sim. É assim lá no Interior!

 

Comentário dos leitores:

O FUTURO EM GREVE

"Venho por meio deste manifesto expressar minha indignação sobre a maneira como vem sendo conduzida a greve dos servidores da Universidade Federal de Pernambuco, não pelas suas motivações, com as quais mesmo STF ,de imparcialidade política duvidosa , tem-se mostrado simpático , mas pela filosofia ultrapassada, " ingênua" e pouco eficiente a partir da qual a mesma se deflagra . Confesso que não conheço forma de protesto e reivindicação mais ordeiro e democrático que a greve, direito constitucional de valor inegável no mais amplo dos sentidos. A mobilização de categorias unidas em prol da defesa de seus interesses tem angariado conquistas históricas que permitiram a maturação, se não política, ao menos do senso de justiça do povo brasileiro como um todo. Contudo, ao se obterem certas vitórias, costumam-se esquecer os interesses políticos meticulosamente considerados quando nossos dirigentes responsáveis pelas negociações cedem em prol dos trabalhadores. Aliás, isso não é novidade segundo uma lógica linear a partir da qual os políticos querem ser eleitos e precisam ao menos ter argumentos para afirmarem que são sensíveis às reivindicações do seu eleitorado. Ora, mas será que os servidores públicos que hoje cruzam os braços são eleitores em potencial do emeritíssimo senhor presidente da república ? A categoria em questão tem convívio diário e, portanto, simpatia e influência ideológica de ninguém menos que dos estudantes universitários e, no caso da Faculdade de Direito por exemplo, de alguns dos mais atuantes movimentos estudantis cujas posições políticas são inegavelmente esquerdistas. Para quê investir num eleitorado cuja opinião já está quase que irreversivelmente "viciada" contra o governo ? Esse é o primeiro ponto. Além disso, não obstante os esforços dos grevistas em conseguirem o maior número de adesões possível, contando com isso para o sucesso do movimento, esquecem de que este, objetivamente, depende da simpatia popular ao movimento. Olvida-se com facilidade de zelar pela imagem do movimento grevista junto à população e principalmente, negligenciam-se explicações e conforto aos usuários que são diretamente prejudicados com as paralizações. Por mais boa vontade que se tenha em aceitar a pertinência das reivindicações, é muito comum que acabe predominando sentimentos de abandono, impaciência e rancor contra os grevistas, ao menos aparentemente indiferentes aos prejuízos pelos quais, deve-se já admitir, são os diretamente responsáveis. Nada contra o marxismo, mas o preceito comunista do corporativismo mal-interpretado tem provocado um esquecimento, por parte dos líderes grevistas que a ordem última do Manifesto: " Operários de todo mundo, uni-vos!" conclama à união das massas populares para o sucesso das conquistas trabalhistas emanadas da iniciativa de determinado grupo de trabalhadores ; falta solidariedade, o pressuposto basilar da fraternidade que enseja o companheirismo dos vitoriosos: todos. A antipatia e a falta de solidariedade, quando não o mais vil desprezo acabam caracterizando as relações entre os servidores grevistas e a sociedade civil a que servem, minando a unidade do povo em prol daqueles que expõem argumentos convincentes que justifiquem as paralizações. Da mesma forma que salários e condições de trabalho indignas são eminentemente injustos, de forma análoga o é o desamparo dos usuários e o drama de esses últimos não terem a quem recorrer em seus apuros, se os políticos e grevistas se acusam mutuamente de responsáveis pelo movimento. É uma situação delicada rechaçar o intuito de discordar do movimento grevista, mas a impressão que se tem é a da falta de empenho do governo, óbvia, e dos trabalhadores ( preguiçosos, baderneiros, insuflados pela esquerda ? ) em resolver os impasses rapidamente. Sem a prática da velha máxima latina " Um por todos e todos por um "o máximo que se conquistam são esmolas impostas humilhantemente em negociações viciadas e impostas. Se já existe o descontentamento geral contra a atitude frente ao social por parte do povo em relação ao governo, que se saiba aproveitar o somar de forças a partir do diálogo que os poderosos tanto negligenciam, mas que incoerentemente alardeiam como o instrumento mais eficaz em favor da democracia. Não há porque permanecer no erro do "inimigo"; não custa muito organizar formas de debater com os usuários, vizinhos e mesmo companheiros ( tendo em vista iniciativas e deflagrações postas em prática de cima para baixo dentro dos próprios sindicatos ) como, quando e por que devem se deflagrar as greves. Algumas sugestões singelas: · Divulgar com maior antecedência e clareza através, talvez, de faixas, adesivos, panfletos e cartazes a deflagração de um estado de greve. · Expressar nos últimos argumentos concretos em favor da viabilidade das reivindicações e das perspectivas reais de os dirigentes acatarem as propostas, levando em conta orçamentos, índices inflacionários, qualificação proporcional, compatibilidade do nível de vida dos trabalhadores em questão comparativamente à realidade nacional de seus companheiros em atividades de nível técnico correspondente além do custo de vida local. Vale ressaltar aí, que os servidores atualmente em greve desconsideram a inviabilidade prática da sua proposta de aumento salarial, superior a 75%. Os cálculos correspondentes ao acúmulo inflacionário no decorrer dos 7 anos sem reajustes são perfeitos, acontece que simplesmente são impossíveis de serem incluídos no orçamento oficial da União da forma como é configurado hoje. Que ao menos divulguem uma proposta de reforma de tal orçamento incluindo as fontes de onde provirão os gastos com o aumento, porque por enquanto o argumento de que não há dinheiro ( o usurpado ilegalmente não conta.) é objetivo e sólido. Além do mais, o governo já provou seu descaso com a educação, particularmente com o ensino superior, praticamente inviabilizando, por falta de pessoal, e investimento em pesquisas, material didático e qualificação do corpo docente a instituição da Universidade Pública. Duvido que os nossos dirigentes estejam preocupados com os milhares de estudantes, os quais conquistarem suas vagas a duras penas em um Vestibular , destituídos de seu direito de estudar. Quem sabe eles não se irritam de vez com estas tais greves e acabam se convencendo da inevitabilidade da privatização da universidade pública? Não é minha intenção julgar ninguém, mas como estudante, filha de servidores públicos e, quem sabe, futura magistrada gostaria de me convencer por que eu devo, continuar a me sentir culpada por achar impertinente esta greve sem prazo para terminar e que me impede de realizar meus projetos de vida e sonhos; minha dignidade enquanto cidadã também está em jogo! Algum dos lados ainda está disposto a me ouvir ? Como intuitivamente simpatizo com os grevistas, deixo uma outra sugestão para os companheiros que, sem dúvida, não têm o mínimo interesse em prejudicar os estudantes ( inclusive provavelmente nutrem laços afetivos com os mesmos ) e certamente amam a Universidade e seu trabalho.Porque não promover uma espécie de "revesamento" do movimento grevista? Greves "unificadas" têm proporções imediatistas; aparecem na mídia, mas tem conseqüências nefastas que dificilmente justificam os ganhos. O movimento poderia ter proporções temporais maiores se pudessem se alternar os estabelecimentos a suspenderem suas atividades; isso não diluiria a abrangência da greve nem o volume de adesões. Isso poderia se dar também em nível local, na área da educação, promover um rodízio de paralizações nas escolas e faculdades públicas, hospitais, delegacias etc. Não faz sentido que os estabelecimentos de ensino simplesmente parem de funcionar indefinadamente. Ora, os servidores da área de segurança e saúde nem cogitam negar 'a população a prestação de serviços considerados essenciais. Já é mais que consenso considerar a educação uma atividade indispensável á vida e invoco aqui o tão citado poeta Fernando Pessoa para nos lembrar que " Navegar é preciso; viver não é preciso ", ou seja, de que adianta sobreviver sem a perspectiva de sonhar com dias melhores, com o deslumbramento diante de " mares nunca dantes navegados" ? O governo já se mostrou insensível ao fato de usurpar-nos aos jovens brasileiros o direito a um futuro. Vocês, funcionários e professores das Universidades Federais, nossos pais, parentes, amigos e colegas não o farão, certo ? Não nos abandonem e aguardem o amanhã!"








 

 
 
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