Psicólogo canadense defende a tese de que profissionais carrancudos têm melhor desempenho no trabalho
Cleide Galdino
DA EQUIPE DO DIARIO
Ficar carrancudo, de cara feia, de pouca conversa, pode não ser tão negativo quanto parece na hora de trabalhar. Pelo menos é o que pretende provar a pesquisa feita pelo professor de psicologia Robert Sinclair, da Universidade de Alberta (Canadá), que vem provocando polêmica. Segundo o especialista, as pessoas mal-humoradas, tristes e enfadonhas - por mais incrível que isso possa parecer - produzem mais no trabalho.
Sinclair se baseou em situações de laboratório onde constatou que as pessoas tristes terminaram tarefas predeterminadas no prazo e com bons resultados. Para ele os profissionais abatidos, que buscam felicidade no trabalho, têm desempenho melhor que os bem-humorados, que tendem a se dispersar - segundo ele - na realização das atividades rotineiras.
A tese do psicólogo é rejeitada por vários consultores de RH no Brasil. "Não conheço detalhes do trabalho que ele realizou, mas creio que está equivocado", opina José Geraldo Recchia, diretor geral da Caliper (empresa que aplica o Perfil Caliper, instrumento de avaliação da personalidade, para contratação e promoção de empregados).
Segundo Recchia, no trabalho científico é preciso isolar várias hipóteses. "Se alguém está triste com relação a outras áreas da vida, e busca estímulo no trabalho para não pensar nos problemas, até poderá se tornar momentaneamente mais produtivo. Mas a questão é: por quanto tempo?", analisa.
Se há algum incremento na produtividade de empregados tristes e deprimidos, esse desempenho não é saudável, de acordo com a supervisora de RH, Rosely Melo. Ela, que trabalha há 14 anos na área, acha que o estado de espírito influi menos na produtividade do que o fato de se gostar do que se faz. "Quando você ama o trabalho que realiza, é capaz de se sair bem mesmo quando o humor não está ajudando muito", ressalta.
Apesar de gostar do que faz, o técnico em edificações e telecomunicações Aluísio Joaquim da Costa, 40, não consegue deixar de ser temperamental no trabalho. "Não sou de perder tempo, nem de muita conversa mole. Prefiro ser mal-humorado do que ser babão". Ele admite que sente mais os efeitos do mau humor na vida pessoal do que no trabalho. "Acabei de romper um namoro porque ela não me aguentou", confessa. Aluísio atribui o seu estado de espírito ao estresse diário.
Para a vice-presidente de grupos profissionais da Associação Brasileira de Recursos Humanos, Açucena Bonanato, não é novidade que algumas pessoas que passem por momentos difíceis usem o trabalho como uma espécie de fuga. "Não posso dizer, porém, que o trabalho executado por elas tenha qualidade. Isso pode significar prejuízos tanto para a pessoa quanto para a empresa". Na sua opinião, as pessoas de bom humor têm mais iniciativa e criatividade. "Um lugar harmônico e produtivo é feito por pessoas alegres".
O raciocínio de Bonanato é provado pela técnica em informática Maria do Socorro Pontes e Silva, 43, do Hospital Agamenon Magalhães. No ano passado, ela foi eleita a melhor profissional do seu setor. Além da competência de Socorro, o outro quesito que pesou foi a simpatia. "Quando chego, o primeiro a ouvir minhas brincadeiras é o flanelinha".
Com um sorriso igualmente largo, a pediatra Teresa Cristina Bacelar, 45, que trabalha na Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, é colecionadora de causos e contagia colegas com uma boa dose de alegria. "Pessoas que trabalham felizes encontram mais facilmente os caminhos para vencer dificuldades do trabalho", assegura.