Jorge Amado
A morte de Jorge Amado fecha o ciclo mais original da literatura brasileira em todos os tempos. Nenhum outro romancista tocou-se de igual intuição para recolher na alma do povo o fascínio que vibrava em suas instigantes narrativas. O escritor não tem o seu nome associado ao realismo fantástico. Mas, nos terreiros de fetichismo afro, caboclos encarnam pais de santo, viram duendes e, sob o ritmo alucinante dos atabaques, dançam arquejantes nas páginas de seus livros.
Os orixás são entidades vivas, descritas com precisão de detalhes, autoridade e voz nas liturgias do candomblé. É impossível dizer o que mais fascina na obra de Jorge Amado. Se os mitos divinizados pela cultura negra ou a magia dos becos, ladeiras e praças de Salvador. Se a aflição dos despossuídos nas mãos truculentas dos coronéis do cacau ou os folguedos nos cais e saveiros de tantas cidades. Se o cheiro das caboclas inebriadas de amor ou as esperanças de miseráveis renascidas nos vapores alcoólicos da cachaça. Se a ilusão da glória nos homenstraídos pela vida ou a vida sem glória dos homens traídos pela ilusão.
O certo é que Jorge Amado revelou cenários e gentes de um Brasil náufrago da injustiça. Suas histórias reuniam personagens flagrados nos últimos estágios do infortúnio social. Na tessitura dos enredos, corria o conflito entre nababos insaciáveis de poder e a exploração perversa do braço humano deserdado da sorte. A questão agrária, antiga como os primeiros vagidos da nacionalidade, restou exposta com o seu cortejo de desgraças. Famílias inteiras expulsas da terra debaixo do espoucar dos bacamartes. A massa crítica de semelhante realidade teria se esvaído se não houvesse encontrado em Jorge Amado o talento capaz de dar-lhe consistência literária e vínculo universal.
As imagens e os personagens trabalhados em técnica original de prosa e ritmo romperam as fronteiras físicas do País. Seguiram roteiro de respeito e encantamento em todo o Mundo. Há raros sítios do globo em que a obra do romancista não seja conhecida e o seu nome reverenciado. Ele foi, sem dúvida, o maior propagador da cultura brasileira no plano internacional.
Há outro traço singular na produção literária de Jorge Amado. A tragédia social que perpassa a trama de quase todos os seus livros não o impediu de recorrer ao humor moleque, à linguagem zombeteira, aos diálogos picantes. É o fio condutor que, ao entrelaçar a evolução de um salto a outro do texto, prende o leitor e o leva ao embevecimento. Aí está o retrato sucinto do artista que o Brasil acaba de perder. Em uma época avara em vocações autênticas para os desafios da ficção literária, a morte de Jorge Amado cobre de tristeza e empobrece os brasileiros.
Artigos
Primeiro mártir antiglobal
Frei Aloísio Fragoso
PROVINCIAL FRANCISCANO
Reza a tradição cristã que o martírio de sangue purifica de todos os pecados. Daí, os mártires da fé, independente dos pecados cometidos, partem direto para o céu. Martírio significa, em sentido amplo, dar a vida por aquilo em que se acredita. Há mártires do amor, mártires da justiça, como os há da fé.
O jovem italiano assassinado em Gênova, Itália, quando se juntou a outros para protestar contra a política neoliberal, que reunia ali os seus mais ricos próceres, morreu pela causa que abraçou. Independe de seus erros anteriores o mérito que lhe cabe agora: primeiro mártir da luta antiglobalização. Vale lembrar o que disse João Paulo II, em sua última viagem ao México: "É missão da Igreja, no Terceiro Milênio, combater os malefícios do neoliberalismo".
Faz cerca de quinze anos, quem não se lembra? Um tremendo baixo astral pegou de surpresa muita gente que apostava na derrocada do imperialismo capitalista. Mas a queda do muro de Berlim assinalou na direção contrária, em sentido real e simbólico, representou o colapso do socialismo, em sua mais recente versão histórica.
Daí retumbou por toda parte um grito de triunfo. Os países capitalistas levantaram a bandeira triunfante, inaugurava-se a Nova Ordem Política Internacional, apelidada de "Pax Americana", reeditando a famosa "Pax Romana" do imperador César Augusto.
Pouco tempo durou tamanha euforia. Pouco tempo bastou para se compreender que a nova ordem não passava da velha desordem com novos sócios. Na esteira da "nova ordem" foram surgindo os antiprofetas. Uns pregando o fim das idéias como força propulsora da História. Outros propalando a morte das utopias, em favor do pragmatismo absoluto.
A Economia de Mercado converteu-se em Via Única, conduzida por uma Mão Invisível na direção do Êxito Incontestável, uma espécie de deificação. Uma minoria de adoradores, com direito ao ouro do novo templo, distancia-se da massa dos excluídos, destinada a ser a vítima para os holocaustos desta nova religião.
Contudo, a História é feita não só de cálculos, mas também de surpresas. O Senhor da História é absolutamente autônomo. Alguns bons olheiros descobriram que o deu neoliberal não era todo-poderoso, tinha pernas de barro,sentava-se sobre suas próprias contradições.
Então começou a reação. Seattle, nos Estados Unidos, foi o começo. Porto Alegre, no Brasil, o ápice. E agora Gênova, na Itália, produziu o que faltava para selar a luta, o batismo de sangue, o primeiro mártir. A mesma acima citada tradição cristã afirma que o sangue dos mártires é semente de novos combatentes. Toda militância, quando gera um mártir, vira mística. Mais cedo ou mais tarde o G-8 terá que se reunir numa ilha deserta, que tal a ilha de Elba, onde refugiou-se Napoleão Bonaparte?
Evidentemente, este batismo de sangue não acertou o cérebro poderosíssimo da economia de mercado, porém seus fatores, atores e asseclas perderam aquele arzinho de infalibilidade e terão de descer do pedestal para entrar na polêmica de igual para igual. É o que provará o novoFórum Mundial, previsto para o próximo ano, em Porto Alegre.
Um mártir, era só disso que a militância estava precisando para acionar a velha paixão pela justiça.
E o riso cínico dos deuses neoliberais já pode ser atacado com canto e poesia: "Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com minha dor".
Dois sentimentos e um PS
Rivaldo Paiva
ESCRITOR
Um é de origem literária, o outro político, e no roda-pé apenas um conserto para uma citação empolgada, porém distraída - salientando serem todos estes sentimentos de tristeza.
1 - Morreu antontem o romancista Jorge Amado, que conheci na minha adolescência graúda caçando sua Tieta lá pelas bandas do Sertão do Salgueiro (que virou do Agreste), e com o qual mantive uma rapidíssima, todavia proveitosa convivência - pretendendo contar esse episódio numa das "Últimas Palavras", última página que assino na pernambucaníssima revista Continente Multicultural (por sinal ainda uma flor em botão, mas fazendo um enorme rebuliço no mercado literário brasileiro, e que recomendo aos leitores assiná-la já).
Anos depois, quando resolvi dar asas à minha teimosia de querer ser um escritor, publicando o ensaio "Como era lindo o meu Salgueiro" (edição esgotada e que, um dia, talvez volte a reeditar), recebo, me entusiasmando demais da conta, uma cartinha do mesmo, agradecido pelo registro que fiz do nosso encontro naquela cidade, lembrando-me que lhe havia prometido escrever um romance baseado no relato que fizera sobre a Serra da Onça - localizada naquele rincão alumbrado de lirismo. Não escrevi ainda, entretanto essa dívida ainda será saldada em sua homenagem. Mais alguns anos adiante reencontrei o velho marinheiro, capitão das areias das terras do sem fim, num sebo do Mercado de São José, pasmem, procurando saber se o livreiro conseguiria um exemplar de primeira tiragem, justo da Tieta. Conversamos muito, relembramos mais aquela passagem do Salgueiro e não o deixei na mão: consegui o que ele queria meses depois e mandei imediatamente. Qual não foi a minha surpresa, certo dia, ao receber um embrulho pelos Correios contendo o respectivo livro, devolvido com carinho e dedicatória.
Minha homenagem singela a Jorge Amado, cuja grande obra deixou para sempre bem endereçada aos jovens que amam uma Dona Flor - sem marido nenhum - ou uma Gabriela com todos os cravos e canelas, infernizando a seara vermelha doPaís do Carnaval com o cacau e suor baianos. Saravá, grande mestre da ficção brasileira.
2 - Estão tentando parar a primeira grande obra de Pernambuco dentre tantas. Trata-se, obviamente, da duplicação da BR-232, tão sonhada pelo povo da nossa região semi-árida, sua economia, conseqüentemente o desenvolvimento do Estado. Essa gente política não tem jeito mesmo. O que diabo querem essas oposições? Invocam corrupção e não provam nada? E o Tribunal de Contas da União alega o quê? O que existe é o cafajestismo da demagogia do medo de quem sabe trabalhar. O companheiro Jarbas, o governador que tenta concretizar tamanho sonho de todos nós, deveria mandar sua assessoria deixar de acanhamento e responder mais grosso sobre o assunto aos pagadores de outdoors.
n PS - Peço desculpas aos meus leitores pela falha cometida no meu último artigo, nesta página, quando menciono Tobias Barreto completando centenário de nascimento. Na verdade, o douto sergipano nasceu em 7 de junho de 1839 e faleceu em 26 de junho de 1889 -portanto completaria este ano 102 anos de sua morte.