Edição de Segunda-Feira, 23 de Julho de 2001
 
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Qual é a nossa identidade visual?

Lei impõe presença de negros na mídia brasileira e reabre discussão sobre política de cotas raciais

Phelipe Rodrigues
DA EQUIPE DO DIARIO

Até o final de 2001, o Congresso Nacional deve votar o projeto de lei nº 4.370, de 1998, do deputado Paulo Paim (PT-RS). Se aprovado, a lei obrigará as TVs, agências de publicidade e produtores de cinema a guardar 25% do total de seus elencos para aqueles que o IBGE classifica como negros e pardos. Para os modelos que só apareceram no último São Paulo Fashion Week ao serem fotografados protestando no Apagão Fashion: Por mais Negros na Moda! essa lei vai fazer muita diferença.

  Ao invés do tom humanitário, tipo united colors, como nas campanhas da Benetton, a discussão abre espaço para a "representação racial e étnica na mídia brasileira", segundo o texto do projeto. "Ela ainda está longe de existir. Na escolha dos modelos que participaram da última semana oficial de moda brasileira, mandei o book de 20 profissionais que poderiam ser selecionados. Mas sequer fizeram uma entrevista. Isso é preconceito. Além da moda, estamos falando de identidade visual", protesta o organizador do apagão e dono da agência Noir,Joni Anderson.

  Para Joni, um dos principais agentes dessa mudança deveriam ser os próprios estilistas. "Eles falam que a seleção é feita pela Associação Brasileira de Modelos e Manequins (ABAMM) e não poderiam interferir muito. Mas quando querem, eles fogem dessa regra. Marcelo Sommer, por exemplo, usou crianças no desfile", questiona. Ele lembra da força do SPFW quando deflagra campanhas importantes como a do Câncer de Mama. "Por isso, iniciar o movimento nesse evento foi importante. A vitória aparece nos debates e palestras sobre a beleza negra para a próxima temporada", festeja.

  Mas para o deputado autor do projeto, Paulo Paim, esse espaço ainda é muito pouco. "No Brasil, só vamos diminuir o preconceito com uma política de cotas. Mesmo que exista mercado para os modelos e atores, o racismo ainda veta o acesso deles à essa área. Mais ainda na moda, que preza por um padrão europeu", afirma Paim. O modelo pernambucano Geraldo Oliveira, que trabalha em São Paulo há 2 anos, conhece bem essa realidade. "Nessa temporada de primavera-verão, só fiz dois desfiles. O da Ellus e de Mário Queiroz. E eu era o único negro a desfilar", ressalta.

  Ele diz que não foi o que aconteceu quando tentou trabalhos no exterior. "Passei uma época em Nova Iorque e consegui emplacar desfiles e campanhas importantes. E estou na revista inglesa I.D. de junho e também de setembro. Lá, o racismo é bem menor". Uma visão contestada pela super model Naomi Campbell, que sempre reclamou das poucas capas de revistas estampadas por ela, quando se comparava à Linda Evangelista.

  Embora seja difícil ser recrutado para trabalhos como o que Geraldo acabou de fazer para a H.Stern, sendo fotografado pelo top fotógrafo francês Michel Comte, ele ressalta que não participa de protestos raciais. "Não vou porque penso que bater nessa tecla já é algo mais que desgastado", justifica.

  Postura diferente de outras figuras da mídia nacional, como a cantora Luciana Mello, filha do cantor Jair Rodrigues. "O movimento tem que ser feito mesmo. Não se podedeixar a coisa ficar acontecendo. Já sofri muito com racismo. Agora, que começo a ser conhecida, penso que minha função é participar da discussão", argumenta. O lado ruim da história,diz, é o da obrigatoriedade de negros na mídia. "Acaba sendo um pouco patético. Mas se essa igualdade não ocorre pelo bom senso, é necessário mesmo uma lei".








 

 
 
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