Futebol misterioso
Em campo, os times já não conseguem motivar nem emocionar o desanimado torcedor. Mas, fora dele, os trabalhos da CPI do Futebol, do Senado, dão novo alento para que a ordem esportiva seja recuperada e, principalmente, respeitada.
Ainda é recente a imagem de deboche exibida nacionalmente, ao final dos trabalhos da CPI da CBF-Nike, na Câmara dos Deputados. Naquela ocasião, não houve votação do relatório em razão do tumulto em plenário, provocado pela tropa de choque representante dos cartolas. O deputado Eurico Miranda - também presidente do Vasco da Gama - tomou a iniciativa de promover uma votação de mentira, ironizando a mesa da comissão, já fora da sessão.
Nos bastidores do Congresso Nacional, observa-se uma disputa silenciosa entre os poderes das duas Casas. A CPI da Câmara não pediu o indiciamento do presidente do Vasco, que deixou sem resposta o destino de US$ 110 mil, entregues ao clube pela Confederação Sul-Americana de Futebol. Eurico, fortalecido pela proteção, ironiza os parlamentares da CPI do Senado, que, por sua vez, querem vê-lo punido por falta de decoro parlamentar. Assim, a questão que era exclusivamente esportiva tornou-se política, passou ao âmbito da Justiça e, agora, virou caso de polícia.
Agindo de forma truculenta, como é o seu estilo, Eurico Miranda, num novo capítulo do dramalhão, não cedeu a um mandado de busca e apreensão dos livros contábeis do clube, de 1995 a 2000. Sua resistência, porém, terminou na quinta-feira, quando trinta agentes da Polícia Federal, armados com metralhadoras, acompanharam assessores do Senado na apreensão dos documentos requisitados judicialmente pela CPI.
É lamentável que o esporte mais popular do País seja submetido a essa humilhação sem fim, dentro e fora dos gramados. E que o Vasco da Gama, em particular, de tradições que orgulham a história do futebol, fique exposto a constrangimentos públicos provocados pela desobediência de um dirigente que, como parlamentar, deveria dar o exemplo e cumprir decisões judiciais.
Com quatro meses de trabalho pela frente, a CPI do Futebol deverá progredir nas investigações para identificar onde se concentram os desmandos e as irregularidades do futebol. Espera-se, assim, que suas conclusões sejam bem aproveitadas pelo Ministério Público.
Espera-se mais desta CPI: que os seus parlamentares, longe das paixões clubísticas, investiguem outros dirigentes, buscando explicações para transações milionárias, com suspeitas de irregularidades já apontadas em documentos em poder da comissão. O nosso futebol, sabe-se, é desorganizado e misterioso em seus bastidores. Mas a CPI do Senado está perto de prestar um grande serviço ao desporto, se estender o trabalho a outros clubes com a mesma determinação que aplicou ao Vasco da Gama.
Artigos
Amor de irmão
Tereza Halliday
JORNALISTA E ANALISTA DE DISCURSO
Ao receber um presente, o garoto agradece e cobra: "Cadê o de Beto?". Amor de irmão. Ao constatar que a irmã fora enganada pelos pais, o filho confrontou-os e ficou ao lado dela. Amor de irmão. Minha mãe visita semanalmente o mano de 81 anos, que perdeu praticamente a fala. Nenhum outro membro da família vai lá regularmente. Os amigos já não aparecem. Ela traz bolo, notícias e recordações. Amor de irmã.
Paulo Ricardo de Lima Lôbo envia-me carta em defesa do engenheiro Sílvio Lôbo, por seu "irretocável comportamento pessoal" no desabamento do edifício Ijuí, recebendo inclusive "provas de respeito, compreensão e ajuda dos prejudicados e de todas as autoridades envolvidas na questão". Amor de irmão.
O missivista protesta contra meu artigo "Construindo Mal e Porcamente" (DP, 14/06/2001, p. A-3). Discorda de minha visão geral "surpreendentemente amarga sobre a construção civil". Contristou-se por eu citar o Edifício Ijuí, junto ao Érica, Enseada de Serrambi, Aquarela e Palace 2, como "registros de horror, símbolos de imperícia, incúria ou ganância". O construtor Sílvio Lôbo está ressarcindo as vítimas do desabamento e lhes prestando assistência. Por este comportamento diferente, seu irmão acha que o nome do Ijuí não deve ser posto "na linha de frente da listagem de outros acidentes com prédios no Grande Recife". Esclareço: o Ijuí encabeçou a lista apenas por ser o caso mais recente de queda de edifício. Cópia da elegante e detalhada carta do sr. Paulo Ricardo pode ser obtida pelo e-mail: mcm@cyb.com.br
Ele também se queixa que o jornalismo generaliza e só se interessa por "crimes, tragédias, desastres". Nem sempre. A mídia divulgou amplamente a boa notícia de que Sílvio Lôbo está cumprindo suas obrigações legais e morais. Quanto às generalizações, tanto as repudio que não esqueci de falar nas "honrosas exceções". Aliás, o tema central da minha matéria foi a má qualidade das construções de pé, e não os casos específicos dos prédios que ruíram. Meu texto mencionaa existência de construtoras competentes e idôneas. Mas torno a perguntar: quem garante que mesmo as firmas sérias sejam isentas de falhas, cujas conseqüências sobram para o morador?
Infelizmente, não há amor de irmão que retire da imagem coletiva o nome do edifício Ijuí, de junto dos demais desmoronados, todos associados à insegurança, medo e desconfiança na percepção popular. Os cinco prédios citados têm um triste ponto em comum: não deviam ter caído e caíram. E não foi por terremoto nem bombardeio. Algo vai mal na construção civil. Os que zelam pelo bom nome deste ramo de negócios precisam zelar ainda mais. Os inspetores precisam inspecionar ainda mais.
Amor fraterno também não consegue evitar que um irmão machuque a família e se suicide a prestação com a tétrica doença do alcoolismo. Nem pode restaurar células cancerosas de uma irmã em fase terminal. Amor fraterno não faz milagres nem é notícia, mas é gosto doce nas amarguras, cobertor nos frios do destino, clarão nos escuros da vida.
O Brasil do Hemisfério Norte
Roberto Cavalcanti de Albuquerque
ENSAÍSTA
Na semana passada, cerca de 20 congressistas brasileiros, entre eles os senadores Pedro Simon e Romeu Tuma, participaram, em Boa Vista, a convite do ministro da Defesa, Geraldo Quintão, de seminário sobre o programa Calha Norte. No encontro, foi apresentada estratégia de desenvolvimento sustentável para a Amazônia Setentrional (desdobrada em planos regionais e locais) e avaliadas as realizações daquele programa, ou por ele apoiadas: no que respeita à segurança do território nacional; à promoção econômico-social nos níveis estadual e municipal; à assistência e proteção das comunidades indígenas; à preservação e conservação dos recursos naturais. Seguiram-se visitas de inspeção a projetos específicos, nas fronteiras com a Venezuela e a Guiana.
Quase todo o território de Roraima (224 mil km2, 324,1 mil habitantes, PIB de 1,1 bilhão de dólares) situa-se acima do Equador e avança além dos cinco graus de latitude norte. O município da capital, Boa Vista (com 62% da população e 82% do PIB do Estado), abriga a maior cidade brasileira do Hemisfério Norte (197 mil habitantes e PIB de 800 milhões de dólares). Foi graças à visão geoestratégica de Portugal que Roraima foi conquistada para o Brasil. O rio Branco, que banha Boa Vista, já vinha sendo explorado desde 1718 por portugueses e brasileiros. Em meados desse século, porém, espanhóis, ingleses e holandeses penetraram seu vale, provenientes da Venezuela, Guiana Inglesa e Suriname. Foram expulsos por determinação de dom João V. Em 1775, o marquês de Pombal mandou erguer, ao norte de Boa Vista, o Forte São Joaquim, marco da presença brasileira na região. A questão das fronteiras arrastou-se até 1904, quando os limites com a Guiana Inglesa foram arbitrados pelo rei da Itália, tendo Joaquim Nabuco e o barão do Rio Branco como negociadores.
Roraima apresenta grande variedade de paisagens, dominadas ora pela floresta tropical úmida; ora por cerrados; ora por vastas savanas, chamadas lavrados. Na segunda metade do Século XX, teve grande surto de progresso, lastreado na pecuária extensiva, que definhou ante a interdição de mais de metade de seu território por parques e florestas nacionais e, principalmente, por terras indígenas. Mais recentemente, o motor da economia foi a desordenada e predatória expansão garimpo do ouro, desbaratado no início dos anos 1990 pelo Governo federal. A despeito disso, o Estado apresenta hoje grandes potencialidades de progresso. Venceu dois dos principais obstáculos ao desenvolvimento: as dificuldades de acesso, com a pavimentação da BR-174 (Manaus/Boa Vista/Fronteira com a Venezuela), seu grande eixo de integração e inserção econômica; e a escassez de energia, que passará a ser importada da Venezuela a partir de agosto próximo (230 Mw, mais do dobro das atuais necessidades). Nos lavrados, prospera o cultivo da soja e do milho, em condições muito mais vantajosas do que nos cerrados do Centro-Oeste. Nas áreas de colonização dirigida despontam vocações para a pecuária intensiva e a fruticultura. Nos dois casos, há cerca de três milhões de hectares disponíveis, sem necessidade de desmatamento. Muitos defendem a utilização sustentável da floresta, em especial o aproveitamento da biodiversidade, bem como a exploração, em bases empresariais modernas, de grandes riquezas minerais (ouro, diamantes e outras gemas, cassiterita, nióbio, dentre outras).