Marcelo Silveira explora esferas de madeira em exposição que abre, hoje, na Galeria Amparo 60, no Pina
Tatiana Meira
Da equipe do DIARIO
O que você faria se, ao caminhar tranqüilo pelas ruas do Recife, encontrasse uma esfera de madeira enorme, pesando aproximadamente 300 quilos? Curiosidade, medo, desconfiança, espanto. As reações do público diante de tão inusitada situação estão registradas em uma das salas da exposição Entre a Surpresa e o Que se Espera, do artista plástico Marcelo Silveira. A mostra começa na próxima terça, dia 19, às 20h, e segue até o dia 27 de julho na Galeria Amparo 60, no Pina.
O passeio da bola de madeira de 1,10 metros de diâmetro por alguns pontos da cidade foi uma das formas encontradas por Marcelo para se aproximar de novos públicos. A esfera pôde ser vista no pátio em frente à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no Centro do Recife, num outro dia no Pátio de São Pedro e, numa terceira ocasião, no calçadão da avenida Boa Viagem.
De propósito, a obra foi colocada sem explicação ou vigilância em locais de grande fluxo de pessoas. O artista queria que ela fosse vista em situações diferentes, por gente de todas as classes sociais, para saber que reações poderia causar e como os transeuntes iriam reagir diante de algo tão aparentemente sem sentido.
A mostra está dividida em três salas. Na primeira, mais gráfica, foram colocados desenhos e representações, apresentando a concepção dos trabalhos. As linhas estão definidas, por exemplo, numa peça que mistura duas hastes de couro conectadas a dois pedaços de madeira talhados em formas distintas, que se equilibram. "O couro foi usado por sua maciez e flexibilidade, além de possuir um cheiro forte e novo", explica.
Num segundo ambiente, estão reunidas as peças propriamente ditas, num total de 30 esferas. Algumas foram feitas em madeiras como a cajacatinga, a baraúna e a jaca, materiais que também exalam aromas fortes. Marcelo Silveira gosta de se apropriar de elementos externos e por isso resolveu marcar as esferas com ferros de boi, desgastados na superfície das peças em baixo ou alto relevo. Os ferros de boi trazem as iniciais de várias gerações das famílias proprietáriasdos rebanhos e, na opinião do artista, representam o ciclo de vida do ser humano.
PREPARAÇÃO - O processo de preparação das peças envolve outras pessoas além de Marcelo. Os pedaços de madeira são encontrados caídos na mata, em Gravatá ou no Recife. O material é trazido para o ateliê do artista, no Bairro do Recife, e começa a ganhar contornos definidos através de lixadeiras e formões. No polimento e acréscimo de detalhes nas peças, Marcelo conta com a ajuda de dois assistentes.
A madeira é o elemento que melhor representa a maturidade do trabalho do artista, que iniciou sua trajetória através da pintura, suporte utilizado por Marcelo para exprimir suas idéias até o final da década de 80. Já o alumínio é mostrado de forma mais grosseira, primitiva.
O desejo de estar perto do povo, sem se limitar ao público que normalmente freqüenta as galerias de arte e museus, fez com que Marcelo tivesse a idéia de trabalhar em praça aberta. Em maio, ele montou seu ateliê no meio da rua em Garanhuns, como parte do projeto Correcaminhos, previsto para ser retomado em agosto. "Não sou performático, mas gosto de falar com as pessoas e despertar a curiosidade delas. A arte é fazer e ter a consciência do que se está fazendo", afirma o artista, que considerou fantástica a experiência de estar em contato com crianças, universitários, moradores da cidade.
Doze peças de madeira que fazem parte do trabalho exibido agora no Recife serão mostradas também numa exposição coletiva na sede da Funarte, no Rio de Janeiro, em julho. Marcelo Silveira não realiza uma mostra individual no Recife há três anos. O título da exposição foi retirado do fragmento final de um texto escrito por Moacir dos Anjos para descrever o trabalho. "Estar entre a surpresa e o que se espera define o ato de se fazer arte", acredita.
Serviço
Exposição Entre a Surpresa e o Que se Espera, do artista plástico Marcelo Silveira
Onde: Galeria Amparo 60, no Pina
Quando: De hoje, às 20h, até o dia 27 de julho
Quanto: Acesso gratuito