Um pouco mais verde
Italo Bianchi
publicitário italo@ampla.com.br
São Paulo, começo da década de 50. Uma turma de italianos contratados para trabalhar no Teatro Brasileiro de Comédia e na Cia. Cinematográfica Vera Cruz. Entre eles, eu, o mais novinho e recém-chegado. Eu que me virava em três expedientes: de manhã, como designer (profissão que na época não tinha ainda esse nome), criando programas, cartazes e logotipos para filmes e peças; à tarde, como aprendiz de cenógrafo e, logo mais, como cenógrafo; à noite, como estudante autodidata de gramática portuguesa e de literatura brasileira.
TBC, últimos dias de ensaios da peça The Beggar's Opera de John Gay, uma história hilariante sobre a mercantilização da prostituição e da mendicância, escrita no séc. XVIII, cuja intenção era satirizar a ópera italiana e a política inglesa daquele tempo (uma trama que foi retomada, no séc. XX, por Brecht com a peça A Ópera dos Três Vinténs e por Chico Buarque com o musical Ópera do Malandro). No papel principal de Polly, a maravilhosa Cacilda Becker. Na função de cenógrafo e figurinista,o importado Tullio Costa. Os dois batendo pernas por São Paulo, durante dois dias, à procura de um anel de bijuteria com uma grande pedra verde. Os dois, terríveis perfeccionistas, insatisfeitos por não acharem a tonalidade de verde desejada. Aos balconistas que ofereciam uma peça parecida com a descrição, Tullio rebatia:
- Un po' piì verde, un po' piì verde (um pouco mais verde, um pouco mais verde).
Quando Franco Zampari, nosso chefe, soube da história, ficou indignado. Que loucura era aquela de se preocupar com uma certa tonalidade de verde se, da quinta fila em diante, a platéia não poderia enxergar nem o anel, quanto mais a cor da pedra? A bronca se espalhou e Tullio teve que suportar gozações até dos maquinistas (como é, Tullio: un po' piì verde?). A título de curiosidade, vale a pena lembrar que a peça, após uma semana, teve que ser retirada de cartaz por pressão das grã-finas paulistas que a condenaram como imoral e de mau gosto. Na época de John Gay foi pior: os puritanos ingleses a proibiram durante quase meio século.
Eu não sou do tipo dos que morrem de saudades, mas dos que vivem de boas recordações (as más, eu esqueço). Que boa lembrança eu tenho de Cacilda Becker, devido ao seu caráter volitivo e obstinado! Cacilda era uma atriz que eu admirava muito pelo empenho sem tréguas com que se dedicava à profissão. A cada nova performance sua estatura crescia, sua voz envolvia mais, sua expressão corporal ocupava todos os espaços do palco. Mas somente os mais chegados sabiam que tudo isso era fruto do seu extremado perfeccionismo.
Eis a questão. O que a maioria das pessoas acha de uma minoria perfeccionista? Sente admiração, indiferença, incômodo? Como reage ao comportamento exigente dos eternos detalhistas? Com irritação, com tolerância? Os imprfeccionistas - com perdão pelo neologismo - sabem que os perfeccionistas não pretendem indireitar o mundo, ainda que pareça? Que agem movidos apenas por uma necessidade íntima, às vezes gratificante, às vezes dolorosa? Sujeitos, inclusive, a serem ridicularizados, como Tullio com sua procura de uma pedra mais verde ou como o pintor Piet Mondrion, mestre do abstracionismo puro, que passava gilete nas linhas pretas que dividem os campos coloridos dos seus quadros, absolutamente bidimensionais, para que a espessura da tinta não desse a mais vaga impressão de uma terceira dimensão?
Por outro lado, os imperfeccionistas sabem o quanto os perfeccionistas vivem incomodados com os caras que não querem marcar um compromisso para às 9:30h, preferindo marcar entre 9 e 10 horas e chegarem, sem complexo de culpa, às 11? Eles, os imperfeccionistas, sabem que ao concluírem a redação de um texto põem um ponto final e desligam o computador, enquanto os eternos insatisfeitos terão que ler e reler a matéria, procurando um adjetivo mais inusitado para colorir um conceito menos óbvio, ou reconstruir uma frase para dar mais fluência ou elegância a uma passagem qualquer?
Mas feitas as contas dos prós e dos contras, cheguei à conclusão que, do ponto de vista social, os perfeccionistas são uns caras insuportáveis.
Agora, dêem licença para encerrar esta matéria e levantar da mesa de trabalho para finalmente endireitar aquele quadro pendurado na parede bem na minha frente, que me incomoda, com seu fora de prumo, desde o momento que sentei.
Pentear o texto fica para depois.