Editorial
A matriz da violência
A situação da criança em todo o Mundo mudou de qualidade. A mortalidade infantil foi reduzida. Meninos e meninas estão freqüentando mais as salas de aula. Mas agora os pequenos morrem nas guerras. Há 300 mil combatendo nos conflitos armados em 41 países. O narcotráfico os emprega. São 30 milhões de menores envolvidos no comércio e consumo de drogas.
Esse é o quadro revelado pela Unicef, o braço da Organização das Nações Unidas voltado para a proteção às crianças, no documento denominado We are Children (Nós somos crianças), divulgado semana passada em Nova Iorque. O relatório torna evidente que as preocupações mudaram seu eixo principal. Os problemas que existiam há dez anos foram superados. Surgiram outros.
A diarréia que matava milhões de crianças foi substituída pelos conflitos éticos, religiosos e pelo tráfico de drogas. A paralisia infantil, praticamente erradicada na Terra, abriu espaço para a morte e mutilação de 10 mil menores por minas terrestres. O estudo de 147 páginas revela que mais de dois milhões de crianças foram mortas na última década em decorrência das guerras.
O governo brasileiro é um dos poucos que ainda não entregaram à ONU o relatório da década. Aqui conflitos éticos, religiosos ou guerra civil não constituem problema. A questão principal está na crescente utilização de meninos e meninas por quadrilhas de traficantes de drogas. O secretário geral de Direitos Humanos, Gilberto Saboia, que promete fechar o relatório nacional ainda este mês, antecipa que, dos dezenove compromissos assumidos há dez anos, apenas três não tiveram suas metas atingidas: a universalização do leite materno nos primeiros seis meses de vida do bebê, o fim da carência de iodo, ferro e vitamina A e a vacinação em recém-nascidos contra o tétano.
O desafio básico, neste momento, é o tráfico de drogas. Ele ameaça a sociedade como um todo, pode comprometer a governabilidade de países e, no caso brasileiro, assume grandes proporções em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. O Estatuto da Criança e do Adolescente,contraditoriamente, contribuiu para essa situação. A lei proíbe a prisão de menores de doze anos.
No Rio, crianças ocupam cargos importantes na hierarquia do tráfico, atuando como seguranças ou gerentes de bocas-de-fumo. Boa parte delas trabalha como vapor, intermediário dos traficantes na venda aos clientes. Em 1998, um menino de onze anos foi preso na favela da Mangueira. Ele tinha um revólver calibre 32 carregado e decorado com um adesivo do Simba, personagem do desenho animado Rei Leão, de Walt Disney.
O receio dos técnicos da ONU é que os países retornem suas prioridades de investimento para compra e venda de artefatos bélicos. O guarda-chuvas antimísseis, projeto denominado guerra nas estrelas, sonho da atual administração George W. Bush, tem orçamento previsto de US$ 500 bilhões. Essa montanha de dinheiro seria capaz de solucionar os problemas sociais em curtíssimo tempo. A má distribuição da renda mundial gera ignorância, miséria e fome, que são as principais matrizes da violência.
Artigos
Desaceleração da economia
Leonardo Guimarães Neto
ECONOMISTA
A economia pernambucana, que vinha numa trajetória de retomada desde o ano passado, deverá, nos próximos meses, iniciar um processo de desaceleração. As estimativas mostram que tendo crescido a uma taxa de 1% em 1999, o Estado passou para 3,1% em 2000 e, recentemente, no primeiro trimestre de 2001, registrou 2,5% (de acordo com o boletim de conjuntura da Celpe e Ceplan). Isto significa que nos últimos quinze meses a economia pernambucana havia dado os primeiros passos na direção de uma expansão econômica. Os sinais dessa trajetória eram percebidos em outros indicadores, além daqueles referentes ao nível de atividade. O desemprego, segundo os dados do IBGE, apresentava redução, pois, de uma taxa de desemprego aberto no primeiro trimestre de 1999 de 8,1%, a Região Metropolitana do Recife alcança 7,8% no mesmo período em 2000 e 7,1% em 2001. Além disso, foram registrados, nestes quinze meses, sinais de expansão do emprego formal, numa tendência contrária à que vinha ocorrendohá vários anos, denominada de precarização do emprego. O rumo seguido, a partir de 2000, foi, portanto, de um lado, o de crescimento e, de outro, o de redução da desocupação e melhora das relações de trabalho, não obstante o fato de as taxas de expansão do produto terem sido, ainda, modestas.
Nesta trajetória de retomada da economia, o setor industrial ganhava, gradativamemte, espaço e os serviços, sobretudo os do setor privado, vinculados ao turismo, ao pólo médico, à educação e às telecomunicações, vinham, com mais regularidade, sustentando a expansão da economia estadual. Além disso, a partir da seca de 1998, a agropecuária iniciou a recuperação do seu nível de atividade, ao registrar crescimento de 18% em 2000 e de 6,6% no primeiro trimestre de 2001. O que se pode esperar para os próximos trimestres ? Não resta dúvida que o contexto externo instável, a seca e, sobretudo, a crise de energia levarão a economia brasileira e a pernambucana à redução das taxas de crescimento. No que se refere à economia brasileira, o IPEA, num cenário mais otimista que o das demais instituições que realizam projeções econômicas, admite que a economia nacional, que deveria crescer a 4% em 2001, registrará uma taxa de 3%. Já a UFRJ estima que a taxa do produto deverá ficar em 1,5%. Admitindo-se esta proporção para uma taxa prevista, para Pernambuco, de 3,5%, em 2001, antes da crise energética, é de se esperar que, num cenário otimista, seu crescimento fique em 2,5% e no pessimista em 1%. Prevalecendo este último, a economia pernambucana voltaria a um desempenho semelhante ao de 1999, no qual se alcançou taxas de desemprego aberto muito altas. Só para se ter uma idéia do impacto social neste último cenário: passar de uma taxa de desemprego de 7% para outra de 8% significa aumentar o número de pessoas desempregadas na Região Metropolitana do Recife em 12 mil pessoas. Ou seja, passar de 83 mil para 95 mil desempregados, de acordo com as estimativas do IBGE. Para o Estado, seria passar de 248 mil para 283 mil, um aumento de 35 mil sememprego. Estudo da FGV sobre o incremento do desemprego, decorrente do racionamento de 20% do consumo de energia elétrica no Sudeste e Nordeste, estima que ele alcançaria 856 mil pessoas.
Os sinais, portanto, são de que os erros e a imprevidência da equipe econômica, associados à ocorrência das secas alcancem, no nascedouro, a expansão esperada da economia. Repete-se, em 2001, o que se fez em 1996/97, quando se abortou o ciclo expansivo que se prenunciava após a estabilização. O tiro certeiro dos juros (que chegaram a 40%), do corte dos gastos e crédito, à época, foi substituído, em 2001, pela crise energética. É torcer para que as empresas encontrem formas de adaptação à crise energética, a seca não se dissemine e para que o Governo consiga errar menos e, assim, a economia alcance um cenário melhor, ainda neste ano.
Petrolina, Sudene e cultura
Olímpio Bonald Neto
DA ACADEMIA PERNAMBUCANA DE LETRAS
A pujança socioeconômica e cultural de Petrolina - estimulada no governo Nilo Coelho e apoiada pela Sudene, que trouxe a missão israelita para implantar o 1º plano de irrigação - é a melhor crítica à desvairada ação do Governo federal, que em vez de punir os culpados, quer agora extinguir uma atuante agência de desenvolvimento contaminada pela corrupção que devora as entranhas do Estado brasileiro.
Petrolina, tornando-se, nestes últimos decênios, o mais evidente pólo de desenvolvimento de Pernambuco, fez-se ilha de crescimento e modernização e disseminou sementes de mudanças por toda a região sanfranciscana, diminuindo a miséria circundante.
Absorveu capital e mão-de-obra nacional e internacional, modernizou aeroportos e sistemas de comunicações, exporta frutas, vinhos finos e alimentos, atrai empresários eficientes, tecnologia de ponta e cientistas, médicos, professores, artistas e escritores que, a cada dia, comprovam a liderança da "Califórnia Brasileira".
Uma de suas maiores artesãs, a magnífica ceramista Ana das Carrancas,adquiriu prestígio internacional com seu trabalho, verdadeira escola de arte popular. O nível técnico da Imprensa local realça o prestígio dos seus colaboradores, podendo-se aquilatar na bela e informativa revista Com Você, da editora Inah Torres Moura. Escritores residentes em Petrolina - como José Américo de Lima - tem seus livros, de literatura infantil, adotados por programas escolares nacionais e internacionais.
O seu pólo médico é um dos mais importantes de Pernambuco. Os equipamentos turísticos hoteleiros, restaurantes, centro de convenções, cinemas e teatros, atendidos por eficiente infra-estrutura urbanística, ao lado dos empreendimentos científicos e sociais, tornaram Petrolina atraente opção para turistas, empresários e profissionais de todas as áreas.
Em termos culturais, comprova-se isto com a edição da 1.ªantologia de poesias editada pela UBE - Núcleo de Petrolina, sob a presidência do escritor Aroldo Leão, comapoio da professora Socorro Lacerda, dirigente da Fundação Cultural da Prefeitura de Petrolina. E este trabalho permite várias leituras.
De logo se vê como a UBE sertaneja, fundada há dois anos, segue os passos da UBE-PE, que, no Recife, sob a presidência do poeta Flávio Chaves, vem realizando profícua administração, restaurando o prédio da sede (agora definitivamente pertencente à entidade), apoiando oportuno programa editorial, congressos, cursos de literatura de alto nível, exposições, noites de autógrafos e também incentivando a cultura interiorana, com a criação de outros núcleos da UBE em cidades pernambucanas.
Depois, observo que, sob o lúdico título "Poetas em Rebuliço", esta antologia pretende representar o "perfil contemporâneo da criação poética no eixo Petrolina/Juazeiro", duas cidades tradicionalmente rivais, que se uniram em torno de um ideal artístico induzidas pelo progresso econômico e cultural, desencadeado nestes últimos anos, pela metrópole regional do sertão do São Francisco.
José Américo de Lima, presidente emérito da UBE-Petrolina, na "orelha" do livro destaca que "....a mais evidente motivação para esta antologia, congregando poetas distanciados dos mais importantes centros culturais deste país continente, é o impulso de mostrar vozes poéticas da nova geração local que se angustia no isolamento regional".
Afinal, constato ter esta primeira obra da UBE-Petrolina ainda maior alcance. Edita 33 poetas, a maior parte jovens (de década de 60); um quase centenário sonetista (Cid Carvalho); alguns já publicados no Recife, como carlos Laerte (1º presidente da UBE-Petrolina), outros debutantes; muitos baianos, alguns de estados sulistas, vários nascidos em cidades pernambucanas e em outros estados nordestinos e todos, não obstante a variedade de origens, atuando em Petrolina, a comprovar a extraordinária força de atração deste magnífico pólo de desenvolvimento regional, originalmente induzido pela hoje vilipendiada Sudene.