Mal recebido
A mudança na Argentina deixou o mercado nervoso porque a mudança do câmbio passou a ser considerada mais provável. O sistema de currency board tem vários defeitos e uma virtude: traz a certeza de que não haverá mudanças de regras. Quando elas são lentamente mudadas a qualidade deixa de existir. O sinal emitido foi entendido como prova de que o sistema de convertibilidade não é intocável.
Esse é o segundo sinal que o ministro Domingo Cavallo dá ao mercado neste mesmo sentido: de que não é mais um dogma a paridade com o dólar. O primeiro foi o anúncio do que eles chamam de convertibilidade ampliada, a idéia de que em algum momento no futuro o peso não seguirá o dólar mas uma cesta de moedas. O segundo foi a criação do câmbio duplo. Com a sua adoção a Argentina está confessando o que sempre negou: que a convertibilidade reduz sua competitividade externa reduzindo suas importações.
Cavallo é criativo e sempre tem um coelho guardado na cartola. Além disso tem uma hipertrofia do sentimento de autoconfiança.Isto dá uma mistura explosiva para um país que passa por um momento de desconfiança dos mercados. Ontem o FRB, principal título argentino, caiu, aumentando o spread do risco argentino.
-Nós estamos considerando que houve uma mudança do prêmio de risco argentino, que agora passou para outro patamar. O sistema de currency board trazia segurança, agora o novo sinal mostra que não existe regra fixa. Se ela mudou para o comércio, pode mudar para efeito interno, afirmou o economista Roberto Padovani, da Tendências.
Existem possíveis efeitos benéficos no conjunto das medidas. A redução do Imposto de Renda sobre salários, que ontem foi até ampliada para uma faixa de renda maior, aumenta a renda disponível e o pressuposto é que isto vá para o consumo. Mas pode não ser o suficiente para incentivar o crescimento econômico tirando a Argentina da estagnação.
-Este efeito positivo pode até ser cancelado pela taxa de juros que lá sobe automaticamente quando há problemas de liquidez como o que está se formando. Os juros anulariam qualquer estímulo ao crescimento produzido pelo pacote, diz Padovani.
Analistas do mercado que se debruçaram sobre todas as vírgulas do pacote argentino acham que as medidas não são exatamente um câmbio duplo, mas uma tentativa de se defender do real que está vivendo uma violenta desvalorização.
- O sistema foi montado de tal forma a criar barreira para o comércio com os países do Mercosul, para onde as tarifas são mais baixas, disse um analista.
Dois grandes bancos americanos, em suas comunicações aos clientes do mundo todo, falaram ontem do pior dos riscos: de hoje o dia amanhecer na Argentina com uma corrida bancária. Isto aconteceria se a mudança for interpretada internamente como o começo do fim da paridade. Se houver transformação dos depósitos em peso para dólar, há apenas a dolarização automática do país. Se houver remessa para o exterior é fuga de dólares, a situação é bem pior. Hoje é um dia importante. Será testada a reação do mercado local.
Este pior cenário pode não acontecer porque os argentinos permanecem confiando mais na paridade do que o mundo exterior. Ontem, o vice-ministro da economia, Daniel Marx, explicou o que está acontecendo com a afirmação de que muitos operadores são sensíveis a mudanças que não haviam antecipado e por isto são muito cautelosos. Nossa missão é continuar explicando que não há razões para temores. E por e-mail comunicaram aos principais bancos repetindo a frase super-gasta de que um peso seguirá sendo equivalente a um dólar. Adianta pouco.
- O mercado recebeu mal as medidas de Cavallo, entendeu como um prenúncio de mudança no regime cambial da Argentina. E se houver um colapso lá, diminuem os investimentos aqui, diz Régis Abreu, do Santander.
O que houve lá serviu para pressionar ainda mais o dólar no Brasil. Isto às vésperas de o Copom aumentar as apostas de uma alta dos juros ainda maior.
-Eu previa uma alta de meio ponto pelo Copom mas, com o problema argentino, não descarto que ela agora possa ser maior, diz Carlos Kawall, do Citibank. Éa mesma opinião de Márcio Verre, do BankBoston:
Não seria surpreendente uma alta maior. Os contratos de DI futuro, que projetavam juros de 17,30% na sexta-feira, hoje estavam em 21%.
O dólar só não subiu mais porque ontem o BC vendeu dólares à vista. Há muito tempo a alta do dólar já era considerada exagerada pela maioria do mercado. Contudo ele sobe ainda mais a cada dia e só ontem teve uma alta de 1,61%. Mais do que isto, oscilou nervosamente ao longo do dia todo. Mas há muito tempo a taxa de câmbio no Brasil deixou de ter qualquer racionalidade.
No fim de semana, o presidente Fernando de la Rúa em entrevista ao Clarín acusou os pessimistas agoreros de insistir em dizer que não há saídas. Mas é difícil ser otimista em relação a um país que está há dez anos com o câmbio congelado em relação a uma moeda que se fortaleceu em relação a todas as moedas do mundo; um país que não cresce há três anos; que tem um governo fraco e em vias de ficar ainda mais fraco se perder como parece as eleições de outubro para as duas casas do Congresso.