Edição de Terça-Feira, 5 de Junho de 2001
 
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As cores da memória

Italo Bianchi publicitário
italo@ampla.com.br

Participei, recentemente, de uma mesa-redonda encetada por uma entidade pública de cultura artística com a finalidade de opinar sobre a repintura de um edifício histórico, já transformado, alguns anos atrás, em centro cultural. Além da incumbência de apreciar um projeto específico para aquele caso, a reunião se propunha debater, por extensão, a legitimidade histórica e estética de fazer intervenções cromáticas em edifícios antigos, seja no caso de simples restaurações, seja no caso de adaptações dos espaços arquitetônicos para abrigar novas funções.

  O meu eventual leitor já deve estar com um sorrisinho irônico no canto da boca. Que temazinho abstruso e especializado demais para escrever uma crônica em cima dele! Calma, gente, que não pretendo fazer isso. A oportunidade só me serviu como provocação para mexer no baú da memória e revisitar alguns meandros da história da arte que escondem fatos muito interessantes, mas pouco conhecidos, e finalizar com algumas fofocas inerentes, para não deixar de acrescentarum pouco de molho, como gosto de fazer.

  Mas vamos direto ao que interessa: o cruel malentendido da Grécia branca. Alguém pode imaginar a Vênus de Milo completa, isto é, com seus bracinhos, que se perderam na reconstrução da estátua dentro do Museu do Louvre? Com certeza que sim. Alguém pode imaginá-la toda pintada na cor rosa-carne que o tempo apagou por completo? Com certeza que não. Alguém pode imaginar o Partenon e os edifícios que o circundam, formando a imaculada Acrópole de Atenas, todos pintados de amarelo-ocre, vermelho e azul? Com certeza que não. No entanto, ainda que muitos se sintam traídos na sua convicção de uma Grécia clássica, toda branca, erguida com aquele belíssimo mármore pentélico, diferenciando suas obras arquitetônicas e escultóricas dos estilos super coloridos das outras civilizações contemporâneas, que se conformem: a Grécia clássica não era branca. Esta é a pura verdade.

  A visão de uma Grécia branca, modelada apenas pelas luzes e sombras do sol mediterrâneo, é uma invenção do Sr.Winckelmann, historiador e arqueólogo alemão do séc. XVIII, que se encantou com a castidade estética das obras da Grécia clássica desenterradas. Sua tese seduziu a sua geração e gerações posteriores, até que a ciência, com sua progressão de recursos de análise, meteu o nariz na porosidade do mármore e descobriu vestígios de pintura, baseada em óxidos de ferro, tendo como veículo matérias orgânicas como o leite, ou os ovos ou o sangue que, obviamente, não resistiram à ação do tempo.

  Que desencanto! Eu tive uma aluna que ao receber esta informação desabou, gritando no meio da classe: Mas que mau gosto tinham esses gregos! O que é isso, minha filha? Como você pode acusar de brega uma sociedade que criou as coisas mais sublimes da expressão artística? Nós é que estamos errados. Nós é que não entendemos uma concepção estética que está fora dos nossos parâmetros. E inventamos outra.

  Mas, voltando à vaca fria, acho que diante de um malentendido desta dimensão, ficam absolutamente irrelevantes as abordagens feitas naquela mesa-redonda, no Brasil, no séc. XXI, sobre obras da chamada arquitetura eclética do séc. XIX.

  Só para complementar. Lembro agora dos Médici, senhores de Florença, mecenas, que visitavam diariamente os ateliês de seus artistas e as obras em construção, sem hesitar em dar orientações e ordens. Que cores teriam sido determinadas para as paredes da Galleria degli Uffizi, destinada a abrigar, no térreo, escritórios administrativos e, no primeiro andar, uma galeria de arte? Pouco interessa. Sabemos que hoje suas paredes estão pintadas nas cores mais apropriadas para não interferir na exposição de obras entre as mais inestimáveis do Mundo.

  E, para concluir, que tal bisbilhotar à respeito das cores preferidas da roupa dos gênios da arte daquele tempo? Leonardo, por exemplo, que, com aquele tamanho todo e aquele porte imponente, desenhava seus próprios figurinos e mandava confeccioná-los em tecidos cor-de-rosa, tonalidade da sua preferência (honni soit qui mal y pense). Enquanto Michelangelo vestia-se de marrom como os poverelli de Assis e namorava, ao mesmo tempo, uma senhora da alta aristocracia romana e um mancebo da mesma sociedade.

  E o que pensar de Rafael, que se vestia de azul-celeste, e que com suas feições de anjo querubim era, entretanto, um tremendo garanhão? (É daquele tempo a anedota de que perguntaram à Fornarina, sua última modelo e amante, do que ela achava que teria morrido o divino artista, e ela teria respondido, baixando o olhar: De mim!).

  Pois é. A história da arte é assim: não somente uma longa visita às coisas bonitas do mundo, mas uma história cheia de histórias...








 

 
 
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