Edição de Terça-Feira, 5 de Junho de 2001
 

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Verissimo

Outras bochechas

Bundas pintadas, sei não. A questão tem dois lados, com trocadilho. É bom ver a garotada de novo na rua usando as bochechas para protestar. Essa turma tinha o quê? No máximo dez anos quando a outra pintou a cara contra o Collor. É natural que queira ser diferente. Outros tempos, outras bochechas. Mas acho que nem todo o mundo está se dando conta do perigo de mostrar a bunda para o Governo. Não me refiro ao risco de comprometer a seriedade da situação.

  Comparado com o resto da situação, mostrar a bunda é hoje um ato de exemplar sobriedade pública. Quem dera ao País que a bunda exposta fosse o limite do seu despudor e a nudez cívica - em vez de, por exemplo, o relativismo ético - o seu parâmetro moral. Também não me refiro a riscos prosaicos, como o resfriado, ou circunstanciais, como o beliscão. É verdade que o que promete ser uma animada temporada de protestos jovens coincidirá com o inverno, o que pode trazer algum desconforto na região Sul, do País e dos manifestantes. Mas, pensando bem, uma bunda fria éainda mais pertinente ao momento que vivemos. E uma bunda arrepiada, então, multiplica a sua mensagem política.

  Refiro-me ao risco de, seguindo a nova determinação de não deixar crítica em resposta, integrantes do Governo passarem a mostrar a bunda aos manifestantes. Como nenhum deles tem mais a bunda que tinha na adolescência, podemos estar à beira de um cataclismo estético, uma clara ameaça às instuituições. Para onde vão os neurônios que perdemos?

  Há dias escrevi sobre o filme "A casa da Rússia" e disse que não me lembrava quem eram os autores do roteiro e da música. O gentil leitor Roberto Elisabetsky me socorreu: o compositor era Jerry Goldsmith e o adaptador, claro, era Tom Stoppard. Eu não apenas sabia isso e esqueci como dias antes, a um entrevistador que perguntara quais as pessoas que eu mais admirava, tinha respondido "Tom Stoppard e quem consegue dormir em avião". Stoppard também escreveu para o cinema, entre outros, "Shakespeare in love" e adaptou e dirigiu o seu "Ronsencranz and Guildenstern are dead".








 

 
 
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