Edição de Terça-Feira, 5 de Junho de 2001
 

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Opinião

Única saída

Começou, ontem, formalmente, o racionamento de eletricidade do consumidor residencial. Decididas pela Câmara da Crise de Energia Elétrica, as medidas de economia fixaram redução compulsória de 20% do consumo, adotando como base a média dos meses de maio, junho e julho de 2000. Além disso, determinaram sobretaxa para quem ultrapassar o patamar de 200 quilowatts mensais e corte punitivo para os que não atingirem a meta.

  São restrições pesadas. Exigem sacrifício e mudança de hábitos da população. Muitas têm sido contestadas e já ocorreram casos de decisões judiciais favoráveis. Apesar disso, porém, o brasileiro entendeu a gravidade do problema. Desligou aparelhos elétricos, trocou as lâmpadas, diminuiu a duração do banho, apagou luzes. No Sudeste e Centro-Oeste, desde que as regras de conservação foram anunciadas em 16 de maio, a queda do gasto residencial ultrapassou os 10%.

  A consciência cívica surpreendeu a Nação. O Brasil já foi chamado de País do desperdício. Sem ter vivido guerras, sofrido a inclemência das forças brutas da natureza ou padecido períodos de grandes provações, o brasileiro teria criado a cultura da abundância. A fauna e a flora, generosas, eram capazes de fornecer alimento sem necessidade de maiores esforços. Bastava estender o braço e colher a fruta, ou improvisar um anzol e encher o cesto de peixe.

  A urbanização acelerada e o acesso à educação, aliados às sucessivas crises econômicas, ao desemprego e à deterioração dos salários, ensinaram dura lição. Os bens são limitados. E o meio ambiente, freqüentemente agredido, apresenta conta salgada. Chuvas escasseiam, safras se frustram, a desertificação se amplia. Abre-se caminho para a cultura da escassez.

  Daí a resposta da população. Poupar é preciso. O fato é que falta energia. O risco de apagão não está exorcizado. Só se vislumbra luz no fim do túnel em 2003, quando serão concluídas usinas termoelétricas e obras de geração hídrica. Até lá, se exigirão mais sacrifícios da sociedade, que, nos últimos anos, tem sido submetida a reajustes detarifa de energia elétrica em patamares muito superiores a qualquer índice de preço ao consumidor.

  As campanhas de sensibilização devem continuar. E, como já referido neste espaço, precisam ser sistêmicas, não se limitando aos apelos à redução do consumo estrito de eletricidade. Impõe-se transmitir a necessidade de conservação dos bens e serviços cuja produção consome grandes cargas. É o caso da água, do alumínio, do papel, do vidro. Cabe ao Governo, neste momento dramático, mostrar mais competência na gestão da crise que provocou. A população está fazendo a sua parte.

Artigos

Pesadelo neoliberal nos trópicos


Leonardo Guimarães Neto

ECONOMISTA

No início dos anos 90, com a administração Collor, o País inicia a sua trajetória neoliberal, tentando repetir no Brasil a experiência dos EUA e Inglaterra. A administração FHC aprofunda essa trajetória, seguindo à risca os mandamentos do consenso de Washington: abertura, desregulamentação, Estado mínimo, privatização, além das reformas (previdência, relações de trabalho, tributária). Cumprido o dever de casa, estariam abertas as portas de acesso ao Primeiro Mundo com a vinda, em profusão, do capital internacional, o acesso aos mercados dos países industrializados, a vinda da tecnologia que permitisse a reestruturação da economia nacional e, em decorrência, o aumento do emprego e da renda, a estabilidade monetária e a melhoria das condições de vida. Passados mais de dez anos dessas experiências e, no final precoce da atual administração, o que era um sonho transformou-se num grande pesadelo.

  A promessa do crescimento da economia nacional, da renda pessoal e do emprego, nos anos dessas experiências, não se concretizaram. A renda média do brasileiro, de 1989 a 2000, expandiu-se a uma taxa de 0,6% ao ano. O desemprego que alcançou níveis desconhecidos no final dos anos 90, registrou uma melhora em 2000 e deverá, com a crise de energia, voltar ao nível anterior. Agregue-se o agravamento na distribuição de renda e, associado a isto, o aumento do número e do percentual dos pobres (Ipea) e da quantidade de favelas (IBGE). A estabilização da moeda, obtida com sucesso, foi seguida de uma desastrada gestão que elevou, às nuvens, a dívida pública, desequilibrou as contas externas e tornou a economia muito vulnerável aos humores do capital especulativo.

  A desvairada gestão financeira constitui, no entanto, um capítulo à parte. Nenhum Governo teve, na história brasileira, acesso a tantos recursos. No entanto, dificilmente se encontra, nos tempos modernos, uma gestão tão perdulária. Nunca se tributou tanto (a relação entre os impostos e o produto alcançou mais de 31% no ano passado), oendividamento federal chegou, na atual gestão, a um patamar desconhecido (de pouco mais de R$ 90 bilhões, em 1994, para R$ 589 bilhões, em 2001), além do fato de que, com a venda das suas empresas, o Governo federal obteve cerca de R$ 140 bilhões. O destino desses recursos não foi a melhoria dos serviços de saúde nem a modernização e construção de rodovias, tampouco a ampliação do ensino superior (com déficit de 6 mil professores). Além disso, a dimensão da crise energética mostra que quase nada foi feito na geração de energia. Para onde foram os recursos? Tal enigma só é decifrado quando se considera a cúmplice e conivente relação entre as autoridades econômicas, do País, e o sistema financeiro. Parte substancial da arrecadação foi para os cofres dos bancos: mais da metade dos tributos federais destina-se ao pagamento dos serviços da dívida. Qualquer aumento dos juros e do dólar, implica aumento da dívida pública. A desvalorização do real, em abril, significa aumento de R$ 6,8 bilhões na dívida em títulos cambiais. O aumento dos juros, em fevereiro, elevou a dívida em R$ 13 bilhões. Ao aumento dos serviços da dívida corresponde cortes nos projetos públicos, como os R$ 17 bilhões que por recomendação do FMI o Governo cortou nos investimentos em geração.

  Uma caracterização sumária da nossa experiência neoliberal deveria destacar que se fez, de fato, uma opção pelo capital financeiro em detrimento do povo brasileiro, chegando ao extremo de sacrificar o seu bem-estar para saciar a sede de lucros de uma classe social que não só vem ditando as regras da política fiscal como governando, em última instância, o País. Do neoliberalismo tropical, de Collor e FHC, não resultou políticas públicas, mas grandes negócios e uma subordinação ao sistema financeiro que ninguém poderia conceber. A não ser em pesadelo.

   Vitalino, patrimônio da cultura

Joaquim Falcão

CONSELHEIRO DO INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL

Uma vez, o então ministro do Turismo, Rafael Greca, descendo do avião no Recife, declarou aos repórteres que o cercaram: "Vitalino criou mais empregos no Nordeste do que a Sudene!" Si non é vero, é bene probabile", poderíamos dizer. Nesta época em que as agências de desenvolvimento regional estão sob fogo cerrado, a questão é pertinente. Quem melhor ajudou o Nordeste? Quem mais criou empregos? Quem mais desenvolveu nossa cultura?

  Vitalino, lá pela década de 50, começou a moldar com as mãos bichos de barros para seus filhos brincarem. Quem por ali passava, via, parava, encontrava arte, e comprava. Eu mesmo comprei, brinquei com meus primos e irmãos, e quebrei vários, tão frágeis que são. Ah, se eu soubesse! Hoje são peças de museus. Cotados em dólares.

  Jarbas Vasconcelos, governador de Pernambuco, não coleciona quadros caros, nem santos barrocos. Coleciona artesanato brasileiro. "Ninguém até hoje fez um boi como o de Vitalino". Tem razão. Um boi que parte da realidade cotidiana do Agreste, mas que se ilumina nas mãos do artista.

  Vitalino poderia ser consagrado patrimônio cultural do Brasil. Tão importante quanto uma igreja barroca de Olinda, ou uma casa de Tiradentes. Pois nossa cultura não é feita apenas de palácios, igrejas e casas-grandes. É feita também de pessoas, de saberes e fazeres imateriais, como a música do frevo e do samba, ou a receita da feijoada e do bolo de rolo. Vitalino inventou um saber, um fazer popular, pernambucanamente brasileiro. Moldar o barro a partir de nossa realidade social e ecológica.

  Não podemos mais pensar a arte do Nordeste, nem mesmo do Brasil sem nosso artesanato de barro. Sem os bois, maracatus, retirantes, girafas, jogos de xadrez, cirandas. Um barro agora multicolorido. Milhares de famílias, e mesmo cidades e povoados como o Alto do Moura, em Caruaru, e Tracunhaém, vivem deste fazer popular. É gente simples, gente pobre, brava gente brasileira.








 

 
 
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