Apenas o setor hoteleiro do país espera preencher sete mil vagas, oferecidas preferencialmente aos brasileiros
Cleide Galdino
DA EQUIPE DO DIARIO
Portugal, a terra de Camões, está se transformando no oásis do trabalho encravado na Comunidade Européia. As vagas de emprego estouram como pipoca. De acordo com levantamento da Associação dos Hotéis de Portugal (AHP) existem sete mil delas disponíveis somente no setor hoteleiro e turístico esperando, sobretudo, por mão-de-obra brasileira. São oportunidades que muitos brasileiros já começaram a agarrar para fugir da recessão prenunciada pelo fantasma do apagão.
Só do Recife, oficialmente, 15 profissionais, com contrato temporário de seis meses, embarcaram, no final de abril, para trabalhar como garçom, camareira, auxiliar de cozinha, recepcionista e lojista, nos navios da Açorline Transportes Marítimos, que fazem rotas curtas entre as nove ilhas do arquipélago de Açores. O encaminhamento dos trabalhadores só foi possível graças ao convênio assinado entre a Associação das Empresas de Planejamento e Consultoria Empresarial do Nordeste (Assemp) e a AHP.
De acordo com o coordenador do Centro de Solidariedadeao Trabalhador da Força Sindical, Marcos Aurélio Medeiros, responsável pela seleção e treinamento dos profissionais, outras dez pessoas estarão embarcando para Europa nesta primeira quinzena de junho para trabalhar nos navios lusitanos. "Um empresário português do setor hoteleiro deverá chegar ao Recife no final deste mês ou começo de julho para fazer novas entrevistas visando a seleção de mais gente para trabalhar lá fora".
REMUNERAÇÃO - Os trabalhadores que cruzam o Atlântico rumo a Lisboa têm garantida uma jornada de trabalho de 48 horas semanais e salários que variam de R$ 1,2 mil a R$ 1,5 mil por mês. Além disso, têm direito a gorjetas, 3% do faturamento do navio (dividido entre os empregados), cinco refeições por dia, alojamento, fardamento, lavanderia, material de higiene e limpeza e seguro-saúde. "Os brasileiros têm grandes chances de se dar bem em Portugal pela qualidade dos serviços que prestam e pela garra que possuem", diz o gerente executivo do Centro de Solidariedade, Nilo Pereira Neto. Em suaopinião, a responsabilidade da primeira turma enviada é grande, pois é a partir do seu desempenho que as portas continuarão abertas para outros trabalhadores.
Gente como Aurilene Pereira da Silva, 29 anos, casada, que está disposta a deixar o marido por seis meses para se empregar como camareira no navio Cachalote, da Açorline. "Estou desempregada há dois anos e em Portugal ganharei, em seis meses, o que não ganharia em um ano inteiro no Brasil, recebendo o salário mínimo", calcula. Recém-saído de um curso do Senac, o garçom Genilson Severino da Silva, 21, é outro que está na fila de embarque rumo ao continente europeu, "Pretendo ganhar pelo menos R$ 8 mil durante os seis meses em que ficarei por lá", assegura Genilson, que pretende abrir um buffet quando voltar ao Brasil.
A festa trabalhista dos brasileiros em Portugal não vai acabar tão cedo. Pelo menos é o que acredita o presidente da Assemp, Rodolfo Moreira. Segundo ele, além dos 25 trabalhadores dos dois primeiros grupos, os empresários lusitanos querem levar mais 50 para atuar na área de hotelaria. "Também existem vagas no setor da construção civil, destinadas a trabalhadores africanos. Na área médica, eles estão importando mão-de-obra espanhola", informa.
PLANOS - Cansada de perder vagas para profissionais com formação de nível superior, a atendente Luciana Barbosa da Silva, 29, fez o curso de recepcionista de hotel oferecido pelo Centro de Solidariedade e conseguiu ser selecionada para trabalhar em Portugal como vendedora, na loja do navio Cachalote. "Falo inglês e isso deve ter influenciado na hora que me escolheram", supõe. Acreditando na possibilidade de conseguir um contrato definitivo de trabalho, seu colega, o garçom Cleiton João Batista, 26, tentará ficar mais tempo em Portugal. "Pretendo até mandar buscar a namorada mais tarde".
Apesar de ser uma grande oportunidade, o convênio da Assemp e a AHP não é o único meio de se conseguir trabalho legal em Lisboa. Empresas de recrutamento, como a M.Brazil, também oferecem a chance. "Disponho de350 vagas para imigrantes, só em navios portugueses", adianta Marcelo Toledo, diretor da M.Brazil. Com a chegada do verão no hemisfério Norte, a tendência é que esse número aumente. Os interessados devem ter experiência em hotelaria e não precisam dominar o idioma inglês. Os salários chegam a US$ 500,00. "Também existem vagas para o comércio e a construção civil", garante Toledo.
Separar-se da família é o maior sacrifício para quem pretende trabalhar em Portugal. A cozinheira Elisângela Alves Barbosa, 26, deixará a filha Andressa, de quatro anos, para realizar o sonho de juntar dinheiro e construir a casa própria. "É por ela que faço esse esforço". Com uma visão mais romântica, a auxiliar de escritório, Simone Souza vai em busca de uma experiência nova. Pleiteando uma vaga de camareira, ela tem a vantagem de já ter morado em Tele Aviv, Israel. "Portugal é um lugar novo que quero conhecer. Se gostar, quem sabe acabo ficando".
Serviço
Centro de Solidariedade - 3419-2401
M.Brazil - (site) www.passaporte.org