Edição de Quarta-Feira, 30 de Maio de 2001
 

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Excentricidade

O moralismo tem uma estranha história na política brasileira. É uma constante no nosso eleitorado e, como tal, um constante desmentido do nosso suposto imoralismo congênito. No país da tolerância, do jeitinho institucionalizado e da resignação ao mau caráter ("brasileiro é assim mesmo"), repete-se o voto na moral - e muitas vezes na moral irrelevante, ou irracional. À medida que cresce o prestígio retroativo do governo Juscelino, hoje universalmente aceito como o melhorzinho que já tivemos, cresce a estranheza com a vitória de Jânio Quadros, eleito para varrer as suas sujeiras. O eleitorado da época, aparentemente, escolheu a moral sobre o bom senso. Seria uma simplificação chamar o Collor de candidato do moralismo, mas a imagem do jovem caçador de marajás, que acabaria com a suprema imoralidade para a maioria mal paga - alguém ganhar demais para não fazer nada - teve muito a ver com o seu sucesso.

  A fama de "louco" do Jânio e do Collor encaixaria no paradoxo: como excêntricos notórios, eles representariama excentricidade do moralismo brasileiro. Políticos "normais" são a nossa normalidade resignada, não se pode esperar deles que sejam mais do que, enfim, brasileiros. Jânio e Collor seriam assomos do moralista fanático que cada brasileiro tem dentro de si, esperando o momento de romper a superfície e emergir, com o olhar furioso, para nos redimir da complacência. Mas o momento passa: tanto Jânio quanto Collor foram expurgados do governo, Jânio por ele mesmo e pela sua loucura, Collor por corrupção. Mas desconfia-se que ambos foram vítimas mesmo desse corretivo de todos os assomos súbitos, que é o tempo para pensar. O País refletiu sobre o que tinha feito, e sobre como aquilo não era típico dele, e o desfez. A resignação e o bom senso, ou qualquer outro nome que se queira dar para a nossa normalidade restaurada, venceram a excentricidade.

  O Éfe Agá é, de muitas maneiras, um anti-Jânio e um anti-Collor. Por mais que alguns o idolatrem, não tem nada de messias maluco. Também não parece haver nenhuma besta salvacionista, alimentada pela crescente indignação geral com a corrupção, se arrastando na direção de Brasília para nos dar outro governo teatral e curto. Talvez o Brasil tenha mudado e ficado mais politicamente sofisticado ou definitivamente resignado. Mas sempre haverá esse imponderável, esse latente moralismo anômalo e possivelmente avassalador, a complicar todas as projeções sobre o comportamento do eleitorado. É apenas mais uma das contradições brasileiras, o país do Carnaval também ser o país em que o jansenismo pode ser um determinante político.








 

 
 
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