Projeto leva grupos folclóricos a divulgar arte em capitais nacionais
Michelle de Asumpção
Da equipe do DIaRIO
O maracatu é uma manifestação tradicional da cultura pernambucana que resiste - com inevitáveis transformações - à ação dos tempos. O baque virado não é mais o mesmo da época dos velhos pioneiros Luiz de França e Dona Santa. As alegorias ganharam mais brilho e as toadas são compostas pelos mestres de bateria, que fazem adaptações de coisas mais antigas. Mas, ao passo que nada hoje é como há 50 anos atrás, o apoio oficial à manifestação é cada vez mais eficiente. O maracatu sempre foi a peça mais importante - até mais do que o frevo - para vender a imagem de Pernambuco lá fora. Agora, outro grande investimento nesse sentido está sendo feito. Diversas capitais do País irão receber, a partir da próxima segunda-feira, uma caravana de mestres de baque solto e virado. Eles desfilam pelo projeto Maracatus de Pernambuco, concebido e produzido pela África Produções e financiado pelo Governo do Estado, através da Empetur.
Tudo segue a linha econômica, que utiliza e viabiliza a área cultural para ter como retorno o incremento turístico do Estado . "A gente quer transformar a cultura em economia auto-sustentável", diz o Secretário de Desenvolvimento Econômico e Turístico de Pernambuco, Carlos Eduardo Cadoca. Segundo ele, o Governo vai investir R$ 70 mil nas duas primeiras etapas do projeto, que começa segunda-feira, com a viagem do maracatu Piaba de Ouro e o grupo O Sonho da Rabeca - ambos comandados pelo mestre Salustiano - para Londrina (PR), onde ficarão até 27 de maio.
Numa segunda etapa, entrarão em cena também os maracatus Leão Coroado e Cambinda Brasileira e as cidades de Brasília (de 30 de maio a 2 de junho), Nazaré da Mata, Recife e, a partir de novembro, Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e Maceió (AL). O fato do maracatu estar sendo usado como atrativo turístico não ameaça transformar as apresentações num espetáculo para inglês ver. Há uma preocupação com a imagem da manifestação: por todos os lugares que passar, o projeto Maracatus de Pernambuco levará consigo um extenso material fotográfico e a sábia presença do mestre Salustiano com suas aulas-espetáculos.
VIAGEM - "O projeto é uma viagem até a alma do povo pernambucano, no qual o espectador vai entender todas as particularidades do maracatu", comenta uma das produtoras do projeto, Viviane Alves. O mestre Salustiano, que além de ser um dos mais antigos maracatuzeiros do Estado, é também o mais articulado politicamente - fator importante para obtenção de recursos para projetos - e o responsável pelas aulas-espetáculos que acompanharão o maracatu, por onde passar. Seguindo a idéia criada por Ariano Suassuna, Salu tem um modo bem particular de explicar ao povo o que é um maracatu.
"Eu começo falando do plantio do feijão, da macaxeira e da cana e de quanto tempo ela demora para ser colhida, pois foi no canavial, no plantio, que o maracatu começou a ser feito", conta o mestre da cultura popular. Salustiano afirma que muita coisa mudou dentro do maracatu, nos últimos 50 anos. "Antes era miséria, agora está muito bom, mas se não continuar tendo apoio o maracatu se acaba", diz ele.
Futuramente, o projeto pode ganhar ares mais ambiciosos. Por enquanto, a idéia é ficar no Brasil, viajando pelas capitais que, segundo Cadoca, já consomem turisticamente o Estado. Mas pode-se pensar em vôos mais altos, com comitivas de maracatus para outros países. Nesse caso, é preciso garantir que haja um retorno econômico e turístico para nossa região. "O projeto é mais demorado, precisamos ter informações que nos liguem culturalmente ao lugar onde estamos indo", explica o secretário. Fora isso, segundo ele, há um importante trabalho de cidadania a ser feito. É que, por serem pobres, muitos brincantes não têm documentos necessários (como certidão de nascimento) para viajar. Por enquanto, o Brasil basta. Será a chance de os grupos perpetuarem sua imagem e torná-la atemporal. O maracatu também precisa sobreviver fora dos dias de Carnaval.