Edição de Sábado, 19 de Maio de 2001
 

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Verissimo

Apagaremos o pato

TT Catalão

JORNALISTA

O reino das trevas instala-se definitivamente sobre a classe média. A "criativa saída" do governo para "escapar de um ônus político maior" foi criar nova taxa sobre a energia. Diz-se, para evitar apagão. Durma-se com mais uma CPMF dessas! Assalariados sem aumentos, sob baixa perspectiva de manterem seus empregos, pressionados pela angústia de ver a ruína das instituições - pela falência moral dos que deviam mantê-las - recebem a notícia desse repasse infame na conta de luz. O faz-de-conta deu nisso.

  O fracasso na falta de planejamento de infra-estrutura interna pela ocupação desmedida com as contas a acertar, ou dever de casa junto ao credores internacionais, deu nisso. Cortaremos no osso a protelação demagógica de vários governos. Se a crise anunciada explode irreversível em FHC há uma lógica perversa de merecimento: ele encarna, no momento, o sistema mundial gerador dos equívocos em economia, cultura e soberania política.

  O pânico é maior ao ver a escassez de programas mais profundos na própria oposição. Conceitos mais propositivos, sem cair na armadilha do desenvolvimento alienado da natureza, não parecem ter grandes chances no discurso do contra: soa mais como um apagar de incêndio com mais gasolina.   Ora, convenhamos, não há impeachment por incompetência, nem perda de mandato por alienação. Palanque funciona até certo ponto. Pode até estar na hora de demolir, mas chegando à complexidade do poder vai construir como? Vozes oposicionistas apertam até na tecla hedionda da energia nuclear, de novas usinas, de mais combustíveis (finitos) fósseis, enquanto as bases de pesquisas para alternativas viáveis e inteligentes, como as fontes de energia solar, do vento, das marés, biodigestores e afiliadas, deveriam estar em pauta.

  É uma triste reedição do sucesso de 1983 da banda Ultraje a Rigor: "A gente somos inútil". Temos carro, não sabemos guiar. Chuveiro, sem banhar. Aparelhos, sem ligar. Tecnologia, sem funcionar. Polícia, só para punir. Políticos, sem poder confiar. Luzes, para apagar. Inútil! O mais cínico é que não dá para fazer uma "evocação cívica" de salvação patriótica. O assalariado já dá muito mais que a sua parte. Governo atocha a taxa. Mais triste é ver que os impostos não são honrados. O ralo da ladroagem aberto. O Congresso na picuinha doméstica. Inútil, quem? Inúteis, quais? Inútil, como?








 

 
 
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