Dad Squarisi
E-mail:dad@cbdata.com.br
O tropeço da frase
A cena é familiar. Alguém vai andando galhardamente. Cabeça erguida, ombros eretos, barriga chupada, bumbum encaixado. De repente, não mais que de repente, tropeça. Levanta-se rápido. Desconfiado, olha pra lá e pra cá. Continua a marcha como se nada tivesse acontecido. Mas o estrago está feito. A frase também tropeça. Basta pôr certa vírgula em certo lugar. Mais precisamente: basta provocar o adjunto adverbial que está quietinho, lá no fim da oração.
Na ordem direta, o adjunto adverbial (o termo que indica circunstância - causa, tempo, modo, lugar, comparação, conformidade) vem no fim da frase. Aí não aceita vírgula.
- Infecção hospitalar (sujeito) matou (verbo) 24 bebês (objeto) em Roraima (adjunto adverbial de lugar).
- O homem (sujeito) está perdendo (verbo) a guerra contra a máquina (objeto) por enquanto (adjunto adverbial de tempo).
- Flamengo e Vasco (sujeito) jogam (verbo) domingo (tempo) no Maracanã (lugar).
Nem todo adjunto adverbial é comportado. Irrequieto, o traquinas vive mudando de lugar. Ora vai para o começo da oração, ora para o meio. Aí, sim, vírgula nele. A vírgula indica o descolamento do arteiro. Veja:
- Em Roraima, infecção hospitalar matou 24 bebês.
- Infecção hospitalar, em Roraima, matou 24 bebês.
- Infecção hospitalar matou, em Roraima, 24 bebês.
- Por enquanto, o homem está perdendo a guerra contra a máquina.
- O homem, por enquanto, está perdendo a guerra contra a máquina.
- O homem está perdendo, por enquanto, a guerra contra a máquina.
As orações adverbiais não fogem à regra. Quando vêm depois da oração principal, estão no lugar delas. Nada de vírgula:
- Fernando Henrique pode interferir na eleição para evitar confronto.
- Paulo retirou-se quando o presidente entrou.
- O Palio agradou a todos porque apresenta design moderno e bom desempenho.
- Os convidados aplaudiram o anfitrião conforme estava combinado.
- Estudei muito embora não tenha conseguido classificação.
Se mudarem de lugar, usurpam a casa dos outros. Vírgula, pois:
- Para evitar confronto,Fernando Henrique pode interferir na eleição.
- Fernando Henrique, para evitar confronto, pode interferir na eleição.
- Quando o presidente entrou, Paulo retirou-se.
- Porque apresenta design moderno e bom desempenho, o Palio agradou a todos.
- O Palio, porque apresenta design moderno e bom desempenho, agradou a todos.
- Conforme estava combinado, os convidados aplaudiram o anfitrião.
- Os convidados, conforme estava combinado, aplaudiram o anfritrião.
- Embora não tenha conseguido classificação, estudei muito.
No deslocamento da oração adverbial, a vírgula se impõe. No do adjunto, há concessões: se ele for pequeno, a pausa é facultativa (as gramáticas consideram pequeno o adjunto formado de uma palavra ontem, hoje, amanhã. Os jornais, o que tem até três):
- Hoje Flamengo e Vasco jogam no Maracanã.
- Hoje Flamengo e Vasco jogam no Maracanã.
- Flamengo e Vasco hoje jogam no Maracanã.
- Flamengo e Vasco, hoje, jogam no Maracanã.
- Flamengo e Vasco jogam hoje no Maracanã,
- Flamengo e Vasco jogam, hoje, no Maracanã.
É isso. Adjunto e oração adverbiais estão no lugar deles? Palmas. Nada de vírgula. Pularam a cerca? A vírgula denuncia. Cuidado. Não brinque com a pausa. Ao menor descuido, pronto. A frase fica manca e gaga.
Pandora
"Este é um país surpreendente, verdadeira caixa de Pandora", disse FHC. Por quê? Houve pequena queda na taxa de desempregos. Ninguém esperava. Na mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher. Equivale a Eva na Bíblia. Seu nome significa 'aquela que tem todos os dons'. Explica-se. Ela foi criada com a ajuda da totalidade dos deuses. As divindades dotaram-na de beleza, graça, audácia, força, persuasão, habilidade manual. Para não ser perfeita, colocaram-lhe a falsidade no coração. A bela veio à Terra com uma missão: levar os mortais à desgraça. Trouxe com ela uma caixa fechada. Aqui, casou-se com Epimeteu. O ingênuo recebeu a caixa de presente. Abriu-a. Foi um deus-nos-acuda. Todos os males abateram-se sobre o planeta. Vieram as febres, as pragas, as fofocas. Assustado, Epimeteu fechou o caixotinho. Era tarde. Ali só restava a esperança. Azar nosso.
Como é?
"Bradesco sempre à frente", diz a propaganda. "É à frente ou na frente?", pergunta o Joelmir Trindade. Na indicação de lugar, usa-se a preposição A: Ao lado, Atrás, À frente. Eis exemplos: O Vasco está à frente do Flamengo no Brasileirão. Na corrida, ele passou à frente. O banco está à frente do seu tempo.
Ex-herói
A gente tinha um grande orgulho. Nosso presidente era das poucas pessoas que conheciam a regência do verbo implicar. No sentido de acarretar conseqüências, o danado implica. Mas não complica. Vai direto ao assunto. Não aceita intermediários. Transitivo direto, dispensa a preposição: Ganhar mais implica trabalhar mais (não 'em' trabalhar mais). Comer mal implica ganhar quilos (não 'em' ganhar quilos). Não é que nosso homem maior desaprendeu a lição? No seminário "Visões Estratégicas para um Cenário Desejável", ele disse: "A mudança não implica em mudança constitucional". O 'em' sobrou. Nosso orgulho foi pro beleléu.
Más companhias
As palavras, como as pessoas, podem andar mal-acompanhadas. Basta bobear ao juntá-las. Umas parecerão evidentes. Outras, supérfluas. É o caso de ganhar grátis, acabamento final, monopólio exclusivo, surpresa inesperada, hábitat natural. Reparou? São os famosos pleonasmos. É aquela coisa feia que pega mal como subir pra cima ou descer pra baixo. Ganha prêmio quem subirpra baixo ou descer pra cima.
Às claras
A pergunta é do Roberto Lopes Virgínio. Por que acrescentamos a alguns coletivos o seu singular e a outros não? Dizemos bando 'de vadios', mas biblioteca, simplesmente. Não precisamos explicar que é de livros. A língua não mede esforços para ser clara. "Deixe a ambigüidade pra lá", recomenda. "Evite a má interpretação." É o caso. Bando pode ser coletivo de vadios, pássaros, ladrões. Para não deixar margem a dúvidas, dá-se nome aos bois: bando de pássaros, bando de ladrões.
Xampu
Shampoo ganhou nacionalidade brasileira. Virou xampu.
Recado
"A sintaxe não foi inventada por gramáticos desocupados decididos a enjaular a língua. Pelo contrário. O bom gramático é um observador de usos e costumes lingüísticos."
Álvaro Valle Miliquinho
Responda rápido. A gente diz 'servir o Exército'? 'Ao Exército'? 'No Exército'? No sentido de prestar serviço militar, é servir No Exército. O mesmo vale para servir NaMarinha. Ou Na Aeronáutica.
Mau humor
Saiu na Gazeta Mercantil: "Mal-humor na porta da rua". Seis palavras, dois tropeços. O primeiro: o hífen. Mau humor dispensa o tracinho. O segundo: a troca do u pelo l. A lição é velha como o rascunho da Bíblia. Mau, com u, é adjetivo. Tem feminino e plural. Seu contrário é Bom: mau aluno (bom aluno), má aluna, maus alunos (bons alunos), mau humor (bom humor), mau profissional (bom profissional). Mal, com l, é substantivo ou advérbio. Seu contrário é Bem: Não há bem que sempre dure nem mal (bem) que nunca se acabe. Fujo de pessoas mal-humoradas (bem humoradas).
Tempinho
Ínterim significa intervalo, meio-tempo. A palavra é proparoxítona. A sílaba tônica cai no In. Daí o acento:
Ele saiu. Voltará em 10 minutos. Nesse ínterim, leremos os documentos.
Coluna republicada (a autora está de férias)