Edição de Sábado, 5 de Maio de 2001
 

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Opinião

Editorial

Brigas de vizinhos

Um dos esportes favoritos de dirigentes argentinos é fazer críticas às políticas internas brasileiras. Domingo Cavallo, ministro da Economia no outro lado da fronteira, abriu as baterias contra a Tarifa Externa Comum (TEC) imposta pelo Brasil a seus parceiros no Mercosul. Ele falou em Harvard para empresários norte-americanos. Antes, em São Paulo, a caminho de Londres, disse que a TEC é “uma palhaçada”.
  Palavras pesadas e descorteses originárias de dirigente do país vizinho e, até onde se sabe, amigo. No seu entender, a relação entre Brasil e Argentina “ficou impossível” após a desvalorização do real e a proposta de dolarização da economia feita pelo ex-presidente Carlos Menem. Os dois países não se entendem. Mas Cavallo tem memória curta. No tempo em que o comércio entre os mais ricos da região produzia generosos lucros em Buenos Aires, ele jamais reclamou da assimetria das duas economias.
  A mania argentina de se intrometer nos assuntos internos brasileiros é antiga. No tempo dos generais deles, eles tentaram se envolver no planejamento de geração de energia no Brasil. A pretexto de Itaipu, cuja construção estava para ser iniciada, a diplomacia platina queria modificar parâmetros nacionais para conseguir uma hidrelétrica menor e menos rentável. Não conseguiram. E as geradoras prometidas por eles na década de 70 jamais saíram das pranchetas.
  O objetivo não é resolver um problema pontual. É discutir e rediscutir assuntos internos brasileiros. O momento é ideal para que o Itamaraty ofereça resposta dura a Buenos Aires e aos devaneios do ministro Cavallo. Suas hesitações têm sido acompanhadas com atenção pelo Palácio do Planalto, Ministério da Fazenda e Banco Central. Apesar de todas as dificuldades, o Brasil tem se esforçado na busca de soluções para seus problemas. A dificuldade está lá. A crise é argentina. Os brasileiros são meros espectadores.
  Criticar o Brasil pode render dividendos eleitorais em Buenos Aires e arredores. Na década de 70 era atitude politicamente correta, que atiçava o nacionalismo portenho. É bom lembrar que os argentinos quase foram à guerra contra o Brasil por causa de Itaipu, chegaram perto do conflito bélico com o Chile em razão do canal de Beagle e invadiram as ilhas Malvinas, de onde foram expulsos pelos ingleses. Eles gostam de brigar com vizinhos.
  As críticas de Cavallo à desvalorização do real, à Tarifa Externa Comum e à política brasileira para o Mercosul tendem, apenas, a encobrir as deficiências argentinas. É melhor sair atirando do que explicar os sucessivos erros na condução da política econômica. Afinal de contas, foi ele o principal responsável pela adoção da política da paridade entre o peso e o dólar. Medida que reduziu a inflação a quase zero, mas gerou desemprego e produziu enormes déficits comerciais. É muito difícil saber quem está, de fato, certo. O Cavallo de hoje ou o de ontem. Um dos dois errou muito. Ou continua a errar.

Um drama republicano

Luiz Costa Pinto
JORNALISTA

Na manhã de 29 de agosto de 1992 a Esplanada dos Ministérios era palco de um espetáculo único. O gramado diante do Congresso Nacional escondia-se sob a platéia que, dali, assistiria por telões à votação do impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Diante da Praça dos Três Poderes e nas pistas que correm ao lado das cúpulas da Câmara e do Senado, soldados da Polícia do Exército prontos para intervir e organizar o povo, não para ameaçá-lo. No Palácio do Planalto, recluso, um presidente que esperava a notificação do Parlamento para deixar o poder fustigado por denúncias de corrupção. Na esteira de um processo que se tinha iniciado em 1º de junho daquele ano e terminava 80 dias depois, o Brasil aprendera a usar as instituições democráticas. Desde então, a sociedade passou a conviver com provações que só a ensinam a estender os limites de garantia dessas instituições.
  A crise que abala o Senado é uma dessas provações. Mais do que uma mera crise moral, é um drama republicano. Para a História, é salutar que este drama tenha como protagonistas o ex-líder do governo no Congresso e no Senado, José Roberto Arruda, e um dos políticos de mais vultosa biografia mas últimas quatro décadas, Antônio Carlos Magalhães. Os dois senadores, réus no processo de violação do sigilo do painel de votação eletrônica do Senado, só encomendaram a lista dos algozes do ex-senador Luiz Estevão porque tinham certeza de poder fazê-lo sem que ninguém levantasse a voz contra a ordem dada. Regina Célia Peres Borges, a ex-diretora do Prodasen que pôs a estrutura técnica do Serviço de Processamento de Dados do Senado à disposição da vaidade dos dois parlamentares, fez isso porque não sabia como negar o cumprimento de uma missão imposta por dois homens que gostavam de falar como representantes de instituições.
  Depois que o senador Saturnino Braga apresentar o relatório à Comissão de Ética do Senado pedindo a cassação dos mandatos de Antônio Carlos e Arruda e a punição administrativa de Regina Borges, a maturidade democrática do País terá dado três passos adiante. Jamais um senador como Arruda ousará ignorar os ritos da ascensão parlamentar para se ver coroado cacique ainda no primeiro mandato apenas por ser um bom prestador de serviços. Políticos experientes como ACM terão de dosar a arrogância antes de solicitar tarefas exequíveis, mas imorais, sob o argumento de que o fazem para proteger as instituições. E burocratas como Regina Borges terão aprendido a dizer não a ordens esdrúxulas. Punido o trio, a República seguirá em frente. E será melhor.

Artigos

Leonardo Guimarães Neto
ECONOMISTA

Na discussão atual sobre o planejamento regional, a Sudene e a Sudam perdeu-se, mais uma vez, a oportunidade de redefinir-se, adequadamente, a ação governamental voltada para o desenvolvimento das regiões. Isto ocorre no momento em que o planejamento regional constitui-se, em muitos países, um poderoso instrumento de política econômica e social no processo de abertura e integração mundial. Sobretudo em países de dimensão continental e com alto nível de desigualdade espacial, como é o caso do Brasil. A lição que a União Européia oferece a todos é a de que, antes de abrir suas fronteiras, para o resto do Mundo, é importante que os países mais atrasados - entre eles Portugal - e suas regiões tornem-se, minimamente, capazes de competir no contexto da economia mundial e tenham mais a ganhar do que a perder quando o processo de globalização completar-se. O mesmo pode-se dizer da Alemanha pós-muro de Berlim, que realiza uma política regional das mais arrojadas. Vale lembrar que as desigualdades na União Européia, e em particular na Alemanha, entre países ou regiões, estão longe daquelas encontradas no Brasil. Se, no nível regional, o produto por habitante do Nordeste representa apenas 34% do produto per capita do Sudeste, na comparação entre as unidades da Federação, o produto por habitante do Maranhão representa 10% daquele registrado no Distrito Federal (IBGE). Em espaços menores, as diferenças são mais relevantes: a renda familiar per capita da microrregião de Traipu, em Alagoas, representa 7% da renda familiar por habitante da microrregião de São Paulo (Ipea-Pnud).
  Os temas importantes da questão regional dizem respeito às medidas, recursos e estratégias fundamentais para reduzir as desigualdades regionais em todo o País, e, neste particular, definir papéis que, num país que se abre crescentemente para o Exterior, devem ter as diferentes regiões e sub-regiões. Como o Nordeste, a Amazônia ou sub-regiões brasileiras como o semi-árido, o Vale do Jaquitinhonha, o Extremo-sul do Rio Grande do Sul, o Seridó, o Cariri vão tirar proveito, para sua população e para sua economia, na sua inserção na economia mundial? Na globalização, vamos nos integrar com o resto do Mundo, de modo solidário e tirando o máximo de benefício desse processo, ou assistir a uma fragmentação do território nacional, com pedaços que se integram e se beneficiam e outros que ficam marginalizados? Que políticas, instrumentos e entidades podem evitar, no processo de globalização, esta última alternativa?
  Em lugar destas questões, quais são as discussões que tem prevalecido atualmente? Do que se viu, os temas se limitaram a saber se os órgãos regionais devem, ou não, mudar de superintendências para agências. Se os estímulos aos investimentos devem continuar como estão ou constituir-se num fundo público. Quais são as formas mais adequadas para se reduzir os gastos das instituições regionais. Se os procuradores lotados nas superintendências, devem, ou não, continuar nessas instituições. Que função deve ter o conselho deliberativo: discutir os projetos das instituições ou limitar-se ao exame das diretrizes de políticas regionais. São problemas muito miúdos para se enfrentar as questões centrais de um país desigual como o Brasil.
  Não se pretende aqui minimizar a dimensão e a importância da corrupção, que tem minado não só as entidades regionais, mas que se difunde, segundo as denúncias, por parte relevante da administração pública federal. Neste particular, é evidente que não se pode contemporizar. No entanto, no momento como este, um estadista em sintonia com a história, como JK, que criou a Sudene, partiria para reforçar o planejamento regional e definir estratégias regionais, consistentes com a abertura econômica em curso. Infelizmente, as articulações políticas e os objetivos concretos são outros e o presidente atual não é o que os dicionários e o senso comum definem como estadista.

Balada para uma serpente

Raimundo Carrero
ESCRITOR

Todos vocês sabem que tenho paixão pela literatura pernambucana. Agora mesmo estou lendo, com entusiasmo, o livro Balada Para Uma Serpente, de Paulo Costa, que demonstra uma certa influência do romance norte-americano - que é uma presença vigorosa em todos nós - e uma necessidade de analisar a trajetória do movimento mangue. É a primeira vez que este movimento chega à ficção, no Estado.
  Por isso, creio que esta é uma qualidade que merece reflexão. Senão vejamos: a literatura brasileira teve, desde o seu início, uma forte tendência ao documento. O que é natural, nossos escritores procuravam refletir a ficção a partir da realidade. Tivemos sempre essa tendência, bastando verificar as obras de Joaquim Manuel de Macedo, Franklin Távora e José de Alencar, por exemplo.
  José de Alencar foi mais ousado. Além de ter um projeto para a literatura brasileira, cuidava dos aspectos técnicos dos seus romances, com um cuidado extremamente meticuloso. Tudo isso está documentado em Como e Porque Sou Escritor, um trabalho rigorosamente belo. Ali está traçado o seu projeto literário. O caminho como intelectual.
  Mais tarde, veio o Movimento Regionalista, tratando de dar ao documento um crédito literário. Foi assim com José Lins do Rego, por exemplo, um dos nossos escritores fundamentais. No entanto, neste caso, o talento criador estava a serviço da interpretação do comportamento humano, com bases na sociologia e na antropologia.
  No caso de Paulo Costa, a ficção tem um caminho diferente: o de registrar o movimento mangue, mas sem preocupação documental. Digamos, referencial, o que provoca até uma certa estranheza. Alguma dúvida, concordo. Talvez, incerteza. Mas Paulo Costa é intelectual verdadeiro, aquele que vê na ficção uma verdade, uma busca desesperada de esperança.
  Daí a trajetória deste romance que foi lançado no Abril Pro Rock, do Ano passado, e que tem recebido, inclusive, a atenção da crítica portuguesa, de onde Paulo Costa está recebendo elogios. Ocorre que, em Pernambuco, existe hoje uma conspiração contra os escritores que, em toda a História, têm sido o que mais importante é revelado aqui.
  Mais é inquietante que nem mesmo o Movimento Mangue, que sempre se intitula tão verdadeiro e internacional, não esteja preocupado com aquilo que ele tem de mais puro: a revelação de um escritor, que usa o talento para se refletir sobre um movimento que ainda precisa de legitimidade. Numa palavra: quem dá legitimidade à música é a literatura.
  Senão, porque é que os músicos e os intérpretes precisam da literatura para solidificar os seus talentos? Por que escrevem autobiografias e pedem socorro aos escritores e jornalistas? Portanto, é hora de o próprio Movimento Mangue reconhecer que tem o seu documento e que ele atende por um nome simples e forte: Paulo Costa.








 

 
 
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