Referência do passado, apartamento dúplex deixou de ser atraente devido aos custos
Carlos Costa
da Equipe do DIARIO
Apartamento de dois pavimentos, o dúplex é um imóvel cada vez mais raro. Atualmente, só são construídos em coberturas de edifícios de luxo, mas com freqüência bem menor do que na década passada. E edifícios formados apenas por apartamentos de dois andares não se constroem mais desde a década de 80. Segundo a arquiteta Rizali Neves, assessora da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco (Ademi), diversos fatores contribuíram para a gradativa extinção dos dúplices, principalmente o econômico. "Hoje, a construção está muito básica", avalia.
A história dos apartamentos de dois pavimentos remonta à metade do século XX, anos 50, quando os arquitetos e engenheiros civis ousaram mais na concepção e construção de edifícios. Segundo a arquiteta Paula Peixoto, colaboradora da pesquisa em andamento O Morar Coletivo, coordenada pelo professor de arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Luís Amorim, Recife teve diversos edifícios de dúplices construídos nos anos 60 e 70, em vários pontos da cidade, como os bairros de Santo Antônio, Boa Vista e Boa Viagem.
Preservados - "Era uma época em que se tentava introduzir novas possibilidades como os edifícios mistos (residencial e comercial) e os apartamentos dúplices. Essas intervenções, no entanto, não se adequaram à realidade do Recife", explica Paula. Segundo a arquiteta, os apartamentos de dois pavimentos não chegaram a ser comuns, mas muitos deles ainda existem em bom estado de conservação, preservando o charme de uma época passada.
A funcionária pública Leonor Bandeira mora há 16 anos em um desses apartamentos, em Boa Viagem. Segundo ela, a vantagem do amplo espaço foi muito importante para a criação dos filhos, mas hoje é inconveniente. "Meus filhos casaram e não moram mais aqui. O apartamento ficou muito grande", explica.
Leonor ainda não deixou o imóvel porque tem forte vínculo com três dos vizinhos: Luís, Luciano e Lúcio Nilo, seus irmãos, que moram no edifício em apartamentos diferentes. "Deles, dois estão muito satisfeitos. Masum também está pensando em trocar para um imóvel menor", completa. Outro ponto relevante, observa, é com o custo de manutenção do condomínio, mais caro que um apartamento normal.
O dúplex também se popularizou na cobertura dos edifícios. Até o ano de 1996, quando passou a vigorar a atual legislação municipal de Uso do Solo, as construtoras tinham permissão para usar livremente a área sobre o último pavimento, sem contabilizar no total da área construída, por isso construíram muitas coberturas de dois pavimentos. "A melhor solução para o uso do espaço era fazer um duplex. Assim, o topo dos edifícios ficava mais bonito, com a caixa de máquina do elevador e o reservatório superior de água escondidos na estrutura do último pavimento", comenta Rizali Neves.
Com a nova legislação, profissionais e empresários do setor discutiram e decidiram por acabar com a isenção do uso do espaço, salvo para a construção de áreas de lazer. "As coberturas não eram vantagem. Tinha custo de manutenção alto e foram perdendo o público. Agora, as áreas de lazer é que têm se tornado comuns no topo dos prédios", lembra Rizali.