Olinda e Recife são as cidades mais antigas do
País que contam com uma espécie de certidão de
nascimento. Emitido em 1537, o Foral de Olinda é o único
documento do tipo no Brasil conservado até hoje. Através
dele, Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco,
doou parte das terras que compunham a cidade de Olinda para a Câmara
do município. Até hoje a questão é polêmica:
na época, boa parte do que atualmente é o Recife pertencia
a Olinda que em 1996 conseguiu na Justiça o direito de
cobrar uma taxa indenizatória dos proprietários de imóveis
em bairros como Santo Antônio, São José e Ilha Joana
Bezerra.
Controvérsias à parte, o Foral traz informações
importantes sobre a formação e consolidação
das duas cidades, especialmente com relação ao desenvolvimento
urbanístico dos dois centros na época da fundação,
servindo como base para entender as mudanças empreendidas pouco
depois, durante o período holandês. O Foral possibilita
ainda o entendimento do contexto que levou à separação
dos dois municípios, cisão consolidada somente depois
da Guerra dos Mascates. É com base nele que a arquiteta e pesquisadora
Valéria Maria Agra Oliveira, coordenadora do Projeto Foral, resgata
parte da história da cidade e a demarcação de seu
patrimônio. Em entrevista ao DIARIO, Valéria Agra ressalta
o valor histórico e econômico do documento, que nem os
464 anos desde sua emissão puderam diminuir.
Diario de Pernambuco - Com que importância
você avalia este documento?
Valéria Agra - A principal importância do Foral
é a história, sem dúvida. Porque esse manuscrito
é o certidão de nascimento da cidade de Olinda, o único
no País. É um registro dos primórdios da colonização.
É uma riqueza também para a área urbanística.
Mesmo porque esclarece nesse âmbito coisas que para nós
arquitetos seriam incompreensíveis. Com certeza é um documento
com um valor inestimável.
DP - Além do Foral de 1537, em que tipos de documentos
a senhora se baseou para desenvolver a pesquisa sobre a cidade de Olinda
e suas demarcações?
Valéria - Utilizamos textos históricos de vários
estudiosos especialistas neste período para buscar dados de referência
sobre o surgimento da cidade e muitos deles traziam a mesma data do
Foral para indicar o acontecimento. Os escritos dos autores mais antigos
já citam o Foral como documento-base para o nascimento de Olinda.
Então observamos que o Foral de 1537, por si só, já
é muito importante, porque é o documento utilizado por
vários dos historiadores antigos e traz, em seu texto, todas
as descrições históricas sobre a fundação
da cidade de Olinda.
DP - Há um documento como este que também registre
o surgimento da cidade do Recife?
Valéria - Não. Hoje, ele é o único
Foral de Vila do País - pois existem vários Forais de
Estado. Ouvimos falar de outros dois Forais de Vila, um da cidade de
Piratininga, e outro da cidade de Santos, ambas em São Paulo.
Mas estes ninguém conhece, pois nunca foram apresentados. No
Brasil, só Olinda possui um Foral de Vila conhecido.
DP - Então, baseado em que comemoramos o surgimento das
duas cidades juntas?
Valéria - Fora todo o contexto histórico que temos
notícia, o Foral também faz referência ao Recife,
embora não apresente uma data específica ao seu surgimento.
Nele, a cidade é descrita como A Ribeira do Mar Posteriormente
Povo e só depois Recife. Lá se instalou um grupo de pescadores
no extremo sul do istmo que fazia justamente a ligação
entre a Vila de Olinda e o seu porto. Recentemente, inclusive, a Prefeitura
do Recife adotou o Foral de 1537 como documento que marca a fundação
da cidade do Recife. Obviamente, Olinda já o tem estabelecido
há muito tempo.
DP - Sabe-se que o documento que está em Olinda é
uma cópia. Há um original do Foral?
Valéria - Não. Os originais foram todos perdidos.
Naquele tempo, o documento era feito em três vias. Uma delas ficava
guardada no Senado da vila, mas esta foi perdida em um incêndio
que houve no prédio, no período holandês. Uma outra
era entregue ao donatário, e a terceira via ficava guardada no
arquivo da Coroa, na Torre do Pombo, em Portugal. Mas, até hoje,
não se tem notícia de nenhuma delas. Em 1672, foi encontrado
um documento no Mosteiro de São Bento, com o mesmo teor e reconhecido
através de relatos de pessoas que já haviam visto antes
o texto de origem, mas se tratava de uma cópia. Mesmo assim,
na época, a Câmara de Vereadores de Olinda enviou o documento
para a Coroa Portuguesa para que pudesse ser comparado ao que estava
guardado no arquivo ultramarino, em Lisboa, e confirmado como Foral.
O documento foi validado pelo Rei e voltou para cá em 1678. Esse
documento também passou muito tempo perdido, só voltando
a ser encontrado em 1975, nos livros de tombo da prefeitura de Olinda
pelo historiador José Antônio Gonçalves de Mello.
DP - De onde vem esse consenso entre Recife e Olinda sobre a
veracidade do documento e a sua utilização como ponto
referencial do nascimento das duas cidades?
Valéria - De evidências. Primeiro, ele é
o documento mais antigo relativo à cidade. Em segundo, ele tem
em seu conteúdo um texto muito comum a todos os Forais escritos
naquela época que, de uma forma geral, estabeleciam justamente
a elevação de um povoado para vila. Baseado nessa evidências
é que ele é tomado como ponto de referência para
a fundação da cidade. Depois, o Foral foi um documento
muito polêmico na época.
DP - Como assim?
Valéria - Com o achado do Foral naquele tempo, a Câmara
de Olinda pediu à Coroa que fosse enviado, juntamente com a autenticação
do Foral, um juiz para fazer o tombamento dos bens da Câmara.
Veio à capitania o juiz José Inácio Arouxe, que
era também ouvidor geral da capitania. A pedido de Duarte Coelho,
ele realizou todo o trabalho demarcatório do Foral, ou seja,
delimitou toda área que era citada pelo documento. Isso em 1710.
A história conta que nessa época, Recife já pedia
seu desligamento de Olinda. Na hora da demarcação da terra,
o ouvidor determinou que Recife não deveria ser desmembrada da
Vila de Olinda, e se fosse, para ela bastaria apenas o que são
hoje os bairros do Recife e de Santo Antônio. Todo o restante
ficaria para Olinda, já que os moradores da vila viviam da agricultura
e os de Recife apenas do comércio. E pelo visto os moradores
do Recife naquela época não gostaram nada disso. A conclusão
dos trabalhos de demarcação, aliada à série
de conflitos que aconteciam entre os dois povoados, acabou na Guerra
dos Mascates e no desligamento das duas cidades.
DP - Quantos habitantes existiam naquela época?
Valéria - Isso eu não saberia dizer. Sei que com
Duarte Coelho, na época da colonização, eram cerca
de mil colonos.
DP - Para o Estado todo?
Valéria - Sim, porque na época só existiam
as feitorias. A ocupação no litoral era pouca. Em Pernambuco
havia quatro feitorias. Então quando Duarte Coelho chegou, em
9 de março de 1535, ficou abrigado na feitoria de Igarassu, que
era uma feitoria régia, onde colocou o Marco de divisão
entre as duas capitanias. Mas ficou pouco tempo e ninguém tem
a data precisa de sua mudança para Olinda. Já em citações
históricas de diários de viagens marítimas, em
1536, existem relatos de que ele estava construindo a vila. Em 1537
ele pede o Foral, para passar o povoado para Olinda.
DP - Assim como essas citações de diários
marítimos, a senhora contou que o Foral traz descrições
da vila na época. Como se deu o povoamento do local?
Valéria - O início da ocupação do
povoado, as primeiras edificações foram no topo onde ficam
a Sé e Misericórdia, naquela plataforma. Naquela época
havia recomendações para a ocupação. Uma
delas era de ordem de segurança militar, que determinava que
as edificações teriam que ser no alto, porque dava segurança
no controle das vias de acesso, de comunicação e do mar.
Elas deveriam também ter um recuo em relação ao
mar para que a parte mais próxima à água fosse
o local onde seria posicionada a artilharia e realizadas as manobras
militares. É essa área, cercada de paliçadas, que
o Foral chama de Roci. Algumas cidades possuíam muros, mas no
caso de Olinda era tudo bem rudimentar. Eles usavam uma cerca de madeira
para se proteger do ataque dos índios. Os colonos ficavam confinados
dentro dessas paliçadas, formando pequenos núcleos, onde
havia roças e de onde eles tinha que retirar água e tudo
para subsistência.
DP - Então foi uma estratégia de guerra que fez
os portugueses escolherem a área de morros para construir a cidade?
Valéria - Foi. Toda colônia portuguesa tinha essa
escolha. Já por uma questão habitual. Se você parar
para observar, as cidades portuguesas são construídas
em sua maioria no alto. É diferente das cidades holandesas, que
preferem ás áreas planas. O Recife, por exemplo é
diferente. Foi uma cidade construída no período holandês.
Daí a geografia do Bairro de Santo Antônio. São
planejamentos extremamente diferentes. Então se os portugueses
pensavam que o lugar alto era bom, os holandeses pensavam exatamente
o contrário. Quando os holandeses chegaram aqui, eles acharam
Olinda uma cidade completamente indefensável, pela localização
na qual os portugueses a estabeleceram. Com isso concluímos que
o planejamento é uma questão de características
até da própria cultura do colonizador. Há também
quem relacione isto à religião.
DP - Como se o fato de estar no alto deixaria os habitantes mais
próximos de Deus?
Valéria - Não exatamente. Muita gente explica que
essa escolha pelas colinas era uma forma de evidenciar as igrejas. Mas
eu particularmente não acredito nisso. Acho mesmo que o fundamento
para a escolha dos morros era a questão da segurança.
DP - Quanto ao desenvolvimento urbano da cidade, como é
que ele foi progredindo?
Valéria - No topo da colina mais alta e mais plana foi
onde começou a formação de uma praça. Uma
espécie de plataforma alongada de leste a oeste com uma boa vista
para o mar. Lá foram reunidos os edifícios mais importantes
como o Castelo de Duarte Coelho - onde hoje funciona o bar Cantinho
da Sé. O morro sofreu uma erosão mas ainda restou uma
plataforma, também conhecida por Fortaleza. Em frente a ele foi
erguida a ermida (uma espécie de capela) do Salvador do Mundo
e, mais ao norte, a ermida de Nossa Senhora da Graça. Nessa região
é que se concentravam as casarias e vivendas, os açougues,
a ferraria e a casa da cadeira. Na encosta do morro é que ficava
o povo em geral. No alto só os nobres e os edifícios públicos
importantes. Logo depois, a partir de 1580, é que vêm as
ordens religiosas e se estabelecem nos outros núcleos. Mas no
momento da fundação da cidade, era só a praça
com duas ligações para o Varadouro, onde chegavam todos
os produtos vindos da Europa. O Varadouro era uma espécie de
mercado onde depois foi construída uma alfândega, que hoje
é a casa onde funciona o mercado Eufrásio Barbosa, e lá
em baixo passava o rio Beberibe. O Varadouro ficava na altura da igrejinha
da Boa Hora. Ali era o ponto de carga e descarga das pequenas embarcações,
mesmo porque por ali não entravam grandes navios.
DP - É a essa organização urbana que vocês
se referem na pesquisa como primeiro plano de habitação
funcional e territorial do Brasil?
Valéria - É. O Foral guarda muitos vestígios
dos primórdios da colonização. O Plano de Ocupação
descrito no Foral equivale aos modernos Planos Diretores onde se prioriza
a preocupação com a organização territorial
e funcional do espaço através de diretrizes de ocupação
do uso do solo. Essas informações traçam o que
seria um plano de habitação, o qual enriquece a história
urbanística da cidade.
DP - O que compõe esse plano de habitação?
Valéria - Havia o local da Habitação, onde
deveriam ser construídas as casarias e vivendas de moradores
e povoadores. Sabemos que no topo se localizavam as residências
dos nobres, e nas encostas, o povo. Também tinha a área
de Comércio, onde eram estabelecidas a Alfândega e Armazéns.
A área de Abastecimento Alimentar, destinada ao cultivo da terra,
voltado para a produção de subsistência. As Áreas
de Uso Comum (Rocios) eram destinadas aos encontros sociais como feiras
livres, festas litúrgicas, comercialização de animais
e treinamento militar. Era uma região que funcionava também
para manobras de guerra e como reserva para expansão da Vila.
Ao redor do núcleo urbano, estavam as Várzeas das Vacas,
a de Beberibe e as que davam acesso ao Poço do Governador. O
Mato da Praia, que se estendia desde o Varadouro até o rio Doce,
era um local destinado à exploração restrita de
lenha. As outras que não estão definidas no plano eram
terras agricultáveis, destinadas ao plantio da cana-de-açúcar,
que era o comércio de exportação.
DP - Qual foi a primeira igreja?
Valéria - A igrejinha do Monte, que inclusive consta no
Foral. A primeira a ser construída na cidade alta foi a da Sé,
que é a ermida do Salvador do Mundo, construída na época
de Duarte Coelho.