Fendas de até dois metros de largura ameaçam destruir 75 imóveis e causar tragédia no município
Jailson da Paz
ENVIADO ESPECIAL
QUIPAPÁ - Aos poucos, a funcionária pública Márcia Prazeres Costa, 28 anos, vê seu único patrimônio afundar. E o pior: nada pode fazer. Ela é uma das 500 pessoas expostas ao risco iminente de uma tragédia neste município do Agreste pernambucano. A casa de Márcia está sendo engolida pelas fendas - algumas medindo aproximadamente dois metros de largura - abertas pelo deslizamento de uma barreira. Outros 74 imóveis enfrentam a mesma situação.
"É triste ver o que construímos ir ladeira abaixo", lamentou a funcionária pública, que está de malas prontas para se mudar com o marido e os dois filhos pequenos. O novo endereço é uma casa cedida por amigos. Segundo Márcia, as fendas começaram a surgir há cerca de 15 dias e tomaram conta dos quintais da rua da Conceição. O muro do quintal dela, por exemplo, afundou mais de dois metros e as rachaduras se aproximam das paredes da cozinha.
O aposentado Francisco Inácio da Silva, 70 anos, vive caso mais complicado. Sete fendas - com aberturas variando entre 20 centímetrose um metro - se espalham pelo terreno da casa, erguida ao longo dos últimos 35 anos. "Só resta pedir a Deus para que nada de grave aconteça com a gente", disse, mostrando as aberturas que apareceram nas paredes do quarto, da cozinha e do banheiro. Silva e a mulher Florentina insistem em permanecer durante o dia na casa - onde os móveis estão - e somente à noite vão para outro lugar.
CAUSAS - A prioridade imediata, segundo o secretário municipal de Infra-estrutura, Paulo Álvaro de Oliveira, é retirar as famílias do local. "Sabemos o quanto será difícil, pois muitas das pessoas trabalharam a vida inteira para fazer suas casas. Mas recorremos até a Justiça se necessário". Das 75 casas atingidas, 60 ficam na rua do Amaral. Dessas, 40 tiveram a energia elétrica desligada e, nas próximas horas, também ficarão sem água tratada. As 15 da rua Conceição devem passar pelo mesmo processo.
A retirada foi sugerida por técnicos da Coordenação de Defesa Civil de Pernambuco (Codecipe) que, na última sexta-feira, vistoriaram o local. Eles concluíram que o deslizamento resultou dos despejos contínuos, nos últimos anos, de águas servidas - de banho e de lavagem de pratos -, das chuvas do inverno passado e dos cortes irregulares do terreno. "Se ocorrer uma chuva forte toda a área pode desabar", explicou o chefe da Divisão de Cadastramento, major Luiz Filho. O relatório ficará pronto esta semana.
Para muitos moradores de Quipapá a explicação não é convincente. "Nunca vi coisa assim. Parece negócio de outro mundo", comentou a dona de casa Maria Cícera da Silva, 34 anos. Entre os boatos que correm na cidade, o mais excêntrico se refere a uma serpente. "A terra se abre quando o bicho levanta o espinhaço", descreveu o estudante Leandro Heleno da Silva, 14 anos. É por versões assim, que dezenas de pessoas, como Maria Cícera e Leandro, passam parte do dia olhando o movimento da barreira. A encosta virou a mais nova atração turística da cidade.