Polêmico, Medicamento tem altas taxas de hormônios femininos, impede a fixação do óvulo fecundado no útero e evita a gravidez indesejada
Cleide Galdino
Da equipe do DIARIO
Recebida gratuitamente pelas estudantes das escolas francesas desde 1999, a pílula do dia seguinte ainda é pouco prescrita pelos médicos brasileiros. Ela é capaz de impedir uma gravidez, se for tomada até 72 horas após uma relação sexual. Também conhecida como contraceptivo de emergência, a medicação é contra-indicada para mulheres que apresentam insuficiência no fígado, são hipertensas, diabéticas e têm tendência a tromboses.
Entre os efeitos colaterais provocados pela medicação, foram observadas as ocorrências de diarréia, dor de cabeça, adiantamento da menstruação e eventual queda de cabelo. Tudo provocado pelas grandes taxas de hormônio existentes na pílula. Os hormônios são substâncias responsáveis por várias funções do organismo. Qualquer mudança nas taxas, para mais ou para menos, pode causar uma verdadeira confusão no corpo da mulher.
O sangramento ocorre porque a grande quantidade de hormônios existente na pílula induz o espessamento abrupto do endométrio, a camada mais interna do útero. "Dessaforma, quando o óvulo fecundado (ovo) tenta se implantar na parede do útero, não encontra condições e acaba sendo expulso junto com a menstruação", explica a ginecologista Adriana Carla Peixoto de Araújo.
Segundo a médica, depois de fecundado o ovo migra para o útero em até sete dias. "A partir daí a Medicina considera que a mulher está grávida", destaca. Para a Igreja Católica e a maioria das outras religiões cristãs, no entanto, a gravidez se dá no ato da fecundação e a utilização da pílula do dia seguinte é condenada por ser definida como uma droga abortiva.
Natalidade - Os países que incentivam o controle da natalidade receberam com festa a medicação. Pesquisas realizadas na Finlândia, onde a pílula é vendida desde 1987, indicaram que 4% das mulheres em idade fértil já usaram o contragestivo. O governo filandês atribui ao remédio a redução na quantidade de abortos de 15 para 8 a cada mil gestações. Já na França, outra pesquisa atestou que 66% dos pais apoiaram a iniciativa do governo de distribuiro medicamento gratuitamente nas escolas.
A pílula do dia seguinte é prescrita prioritariamente pelos médicos brasileiros nos casos de estupro. "O uso abusivo do produto deve ser combatido. Ele só deve ser usado com acompanhamento médico", recomenda Adriana Araújo. A cautela dos médicos, porém, não impede que as mulheres comprem indiscriminadamente a pílula nos balcões das farmácias, embora - oficialmente - ela só pode ser vendida mediante a apresentação da receita médica.
Até os fabricantes da pílula não recomendam o uso continuado do produto. Na bula, eles lembram que o corpo de qualquer pessoa pode se acostumar a uma dose freqüente de remédios.
O QUE É
São duas pílulas, tomadas até 72 horas depois de um relação sexual desprotegida, em um intervalo de 12 horas, para impedir a gravidez
COMPOSIÇÃO
Essas pílulas possuem uma alta taxa de hormônios femininos, progesterona e/ou estrogênio, que regulam e estimulam a atuação do aparelho reprodutor feminino
CONTRA-INDICAÇÃO
Portadoras de algum tipo de deficiência ou insuficiência no fígado
Mulheres com hipertensão arterial
Pessoas com tendência a trombose
Diabéticas
MECANISMOS DE AÇÃO
Ao tomar o primeiro comprimido, a mulher recebe uma alta dose dos hormônios, que provocam três efeitos no aparelho reprodutor feminino.
A dose de reforço é tomada
12 horas depois. Veja como a pílula age
1 - Os hormônios agem no endométrio (parede do útero), que descama. Essa descamação impede a fixação do óvulo fecundado
2 - O muco que reveste o endométrio fica mais espesso, formando uma espécie de paredão. Os espermatozóides não conseguem atravessar essa barreira e fecundar o óvulo
3 - As trompas também sofrem mudanças na sua movimentação, causando um fenômeno conhecido como dessincronismo. Essa alteração impede que o espermatozóide seja levado até o óvulo e vice-versa