Edição de Segunda-Feira, 5 de Março de 2001
 

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Entrevista

Rolando Toro : O amor tem que ser globalizado

Samarone Lima especial para o DIaRIO

Afetividade, êxtase, celebração. A vida, para o psiquiatra chileno Rolando Toro, pode ser uma caminhada rumo à felicidade, ao encontro. Criador da Biodança, um sistema terapêutico que trabalha com música, emoção e movimento, Toro acredita que a civilização atingiu um estágio avançadissimo no aspecto tecnológico, mas foi esquecendo o fundamental. "Em termos de afetividade, estamos na idade da pedra", diz. Crítico das novas formas de compensação afetiva que ludibriam milhares de pessoas que buscam a felicidade, ele considera a "inteligência emocional" um "escândalo moral e uma aberração". Em seu lugar, propõe a inteligência afetiva.

  Aos 77 anos, Rolando Toro tem se tornado um observador sentimental e participante de um mundo cada vez mais veloz. Cruza fronteiras para divulgar um projeto que nasceu há 40 anos, e se espalhou por todo o planeta. Hoje, mais de 100 mil pessoas no mundo praticam a Biodança. Na Inglaterra, ela é reconhecida como medicina complementar. No Chile, 200 escolas utilizam o sistema, com crianças e adolescente. A Universidade Federal do Ceará já incluiu a Biodança na grade curricular do curso de Psicologia. No Recife, o Instituto Vida aplica o sistema com adolescentes do Alto José do Pinho e Chão de Estrelas. De passagem pelo Recife, pouco antes de coordenar uma vivência conhecida como "Projeto Minotauro", ele recebeu a reportagem do DIARIO para uma conversa, carregada de calor humano e permeada pelo que a Biodança parece oferecer de melhor ao mundo - afeto.

DIARIO DE PERNAMBUCO - A Biodança trabalha principalmente com a afetividade, com a música, a emoção e o movimento. Como o senhor analisa o crescimento da chamada "inteligência emocional", nos últimos anos?

Rolando Toro - Inteligência emocional não existe. É uma noção psicologicamente errada. Quando se toma decisões sob a força das emoções, quase sempre se comente erros, porque as emoções são uma resposta do instante a estímulos circunstanciais. A afetividade gera uma inteligência para viver, uma busca de soluções globais, uma visão de totalidade. Então, fazendo um estudo de profundo do ponto de vista psicológico, a motricidade tem um fundo afetivo, a linguagem tem uma motivação afetiva, a memória tem um filtro afetivo, a aprendizagem tem motivações afetivas. Praticamente todas as funções mentais têm um um forte componente afetivo. A trajetória existencial das pessoas está profundamente orientada pela afetividade.

DP- Como explicar, então, o sucesso da inteligência emocional?

Toro - Ela é típica de uma concepção norte-americana de êxito nos negócios. Manipula as emoções para o êxito nos negócios. É uma espécie de astúcia, de falta absoluta de ética. No comércio, usa-se muito isso. As emoções são utilizadas para que entusiasmar o cliente e orientá-lo para que cumpra suas finalidades. Para mim, inteligência emocional é um escândalo moral, uma aberração. Francamente, uma vergonha.

DP- Uma espécie de neoliberalismo aplicado aos afetos?

Toro - A concepção neoliberal abarca não apenas os processos econômicos, mas psíquicos, comportamentais, quereforçam o individualismo.

DP- O que propõe o sistema Biodança?

Toro - A globalização do amor. A Biodança está oferecendo esta disposição anímica da alegria de viver, com base no erotismo, criatividade, afetividade e transcendência, que são as grandes carências da civilização Ocidental, e grande parte da Oriental. A Biodança propõe novas formas de comunicação, de contato, de sensibilidade para compreender o outro. Estimula a afetividade, a comunhão, o encantamento pela amizade e pelo amor, o contato.

DP- Parecem propostas contrárias ao "levar vantagem em tudo", que faz parte do cotidiano de milhares de brasileiros...

Toro - A única possibilidade de levar vantagem em tudo, com "V" maiúsculo, é através do amor. Porque, aqueles que levam vantagem em tudo com minúsculas, são perdedores. Perdem tudo. Aí temos esses executivos com 40 anos, com stress, com câncer, com hipertensão, e não têm boas relações com suas famílias. Ou seja, têm vantagens econômicas, mas estão perdendo a vida, a existência total. As pessoas têm medo de amar. Elas não sabem amar, e não têm coragem para modificar seus estilos de vida. Nosso estilo de vida está fortemente influenciado pela publicidade e pelo consumismo.

DP - As pessoas não sabem amar?

Toro - Elas estão demasiado preocupadas consigo mesmas. O egocentrismo, o individualismo, usura, formalismo. Falta completamente a sinceridade, a pureza das relações. As pessoas têm medo de serem enganadas, de não serem amadas, de não serem atrativos, de não terem claro sua identidade sexual, medo de ser desqualificado pelo outro, da agressão do outro. Está difícil aproximar-se do outro e poder entregar-se com tantos medos. Para poder exercer o amor é necessário coragem e criatividade.

DP - Como a Biodança pode ajudar a enfrentar tantos medos?

Toro - Propomos novas formas de contato, de sensibilidade para compreender o outro através da dança. Biodança não se trata simplesmente de dançar. É um sistema que estimula novas formas de comunhão com o outro, de níveis transcendentes. Desenvolve a empatia,que é a capacidade de colocar-se na pele do outro. As pessoas não querem se colocar no lugar do outro, sentir o outro, porque estamos num mundo do "salve-se quem puder". Não é tão difícil amar, porque a gente quer o amor. Todos querem o amor. Muita gente não sabe amar porque não tem a chance. Tem mais a chance do aprendizado do ódio do que do amor. Nossa civilização está muito avançada em tecnologia, mas em termos de afetividade, estamos na idade da pedra.

DP - A palavra tem um lugar de destaque na psicologia tradicional e na psicanálise. Como é sua utilização na Biodança?

Toro - A palavra é usada somente para relatar vivências, levando em conta o encontro anterior, para relatar o que sentiu. Mas não para interpretar.

DP- Nunca se falou tanto em qualidade de vida. Há profissionais que preferem ter um volume de trabalho menor, para desfrutar mais do cotidiano, ter tempo para ler, meditar. Como o senhor vê esta preocupação?

Toro - A qualidade de vida está inevitavelmente ligada à situação econômica. Mas nãoé um fator fundamental. Qualidade de vida começa por boas relações com a família, com os amigos, os companheiros de trabalho. Há pessoas que têm muita riqueza, êxito social, fama acadêmica ou artística, mas a qualidade de vida é horrível, porque não têm amor, não podem se comunicar com seus filhos, não têm amigos. Isso não quer dizer que estou celebrando a pobreza como fazem os católicos. De nenhuma maneira! Os votos de pobreza, de castidade e humildade são votos de exploração. Não se trata disso.

DP - Uma pesquisa recente revelou que um milhão de brasileiros descobrem anualmente que têm câncer. O que o senhor atribui isso?

Toro - Arthur Jones fala sobre isso. São as doenças da civilização. São 1.500 doenças. O preço de ser civilizado é altíssimo. Há as doenças psicossomáticas, que surgem dos nosso conflitos emocionais. A depressão, que é a perda da vontade de viver, e as doenças auto-imunes, entre as quais está o câncer. O organismo está contra si, como uma resposta aos desajustes existenciais. A dificuldade para viver em harmonia é uma espécie de suicídio lento. Há muita gente vivendo de forma suicida, mas não está percebendo.

DP - O senhor viveu 12 anos exilado no Brasil, onde desenvolveu e implementou a Biodança. Qual a visão que o senhor tem do nosso país hoje?

Toro - O Brasil é meu país preferido. Há lugares que são maravilhosos, como Salvador, Fortaleza, Maceió, Recife, e cidades grandes, magníficas de cultura, como Rio e São Paulo. É um país extremamente musical, e um país que dança. O mundo tem muito o que aprender com o Brasil. Desgraçadamente, o Brasil não tem tido sorte com seus governantes. Fui ver uma apresentação de crianças e adolescentes aqui no Recife, no Pátio de São Pedro, e vi esses meninos num êxtase. Vi um povo dançando, celebrando e sentindo-se felizes, apesar de das dificuldades diárias para sobreviver. Eu queria ver isso com os grandes capitalistas. Essa alegria de mover-se com a música e com dança, porque isso é a sabedoria da vida. A sabedoria da vida é a alegria de viver. A felicidade é algo que está no homem como uma necessidade fundamental.

DP- A concepção de felicidade, para o senhor, não é algo distante, mas uma busca interior que qualquer pessoa pode alcançar...

Toro - A felicidade é algo que está no homem como uma ansiedade permanente. Ele não consegue porque está metido num mundo genocida, de interesses. A Biodança estimula a vivência primordial, que é o prazer de viver. A afetividade, o êxtase, a celebração, o júbilo de viver. As pessoas estão muito interessadas em viver o futuro, e não vêem o momento, o aqui, o agora. Há que se viver por viver. cada dia com seu projeto imediato, de sentir o sabor de cada momento, o sabor do cotidiano. Perdemos tudo isso. A velocidade nos mata. Há um verdadeiro culto à velocidade.

DP- Nesses 40 anos de Biodança, quais os avanços do sistema?

Toro - Somos mais de 100 mil em todo o mundo. A Biodança é utilizada em dezenas de países. O sistema é aplicado também em hospitais psiquiátricos, centros de saúde, casas de repouso geriátricos, etc. Chegamos recentemente à África do Sul, Rússia, China e Japão. Na Bahia, a Biodança é usada no Instituto dos cegos. Ela é utilizada com autistas, crianças com transtornos de linguagem, autistas. Na Inglaterra, ela é reconhecida como medicina complementar. No Chile, 200 escolas utilizar o sistema com crianças e adolescentes. Recentemente, a Universidade Federal do Ceará incluiu a Biodança no curso de Psicologia. Não se trata de uma terapia alternativa, mas uma extensão das ciências humanas tradicionais. Também trabalhamos em presídios, mas é mais difícil, porque geralmente separam os homens das mulheres. Fui convidado para fazer um trabalho no jubileu, do Vaticano, mas aceitei com a condição de realizar um trabalho com seminaristas e noviças, todos juntos. Não aceitaram...

DP- Como o senhor observa a violência que se espalha em várias partes do planeta, e especialmente no Brasil?

Toro - Há uma crise de valores da cultura em todo o mundo. A humanidade passa por uma grave crise afetiva. A Biodança pretende, modestamente, trazer de volta o respeito pela vida.

DP- A Biodança demonstra uma preocupação com os homens que apresentam "gestos despedaçados". Como isso é trabalhado?

Toro - Os seres humanos estão despedaçados. O que pensam é diferente do que dizem. As pessoas pensam de uma forma, e agem de outra. Têm sentimentos por alguém, e não os expressam. Há pessoas que repetem o mesmo esquema em suas vidas, não mudam nunca. É essencial expressar o que se sente, porque os medos criam fronteiras. A mente fica dissociada do sexo e da ação. Tornam-se sujeitos dissociados. Buscamos a vitalidade, a transcendência, o reforço da sexualidade e da afetividade. Poucas são as pessoas que se deixam levar por suas afinidades profundas, por essa espécie de intuição sensível e coerênte com a vida.

DP- O senhor também escreve poesias, e já publicou quatro. Está faltando poesia ao mundo?

Toro - O que mais faz falta ao mundo hoje é a poesia. Não simplesmente juntar palavras bonitas, mas uma percepção do mundo, uma forma de ver a vida. A poesia está em todas as partes, em todo o tempo. As pessoas têm perdido o encanto, o entusiasmo de viver, a poesia que está na vida. Os poetas contribuem para a evolução da humanidade.

DP- Depois de 25 anos, o senhor retornou ao Chile. Como foi o reencontro com o país, depois da ditadura Pinochet?

Toro - Retornei há três anos e fui muito bem recebido. As pessoas estão renascendo na arte, cultura. A ordem de prisão do ditador recuperou a dignidade. Considero Pinochet um dos vampiros da América, um homem que sempre apresentou uma leve debilidade mental. Mas penso que o Chile tem muito a aprender com o Brasil, um país que tem uma enorme vitalidade, uma celebração da vida muito forte.

DP- O senhor veio coordenar uma vivência conhecida como " Projeto Minotauro". Em que consiste este trabalho?

Toro - Foi concebido para trabalharmos especialmente com os medos. O Minotauro simboliza o aspecto selvagem que nos habita, como força primordial. Uma potência dos instintos, e a inocência da natureza. O desafio é encontrá-lo, assumi-lo e integrá-lo, compreendendo sua beleza. A trajetória pelo labirinto pode representar o caminho interior do ser humano em busca de sua identidade.

DP- Como fazer Biodança em Pernambuco?

Toro - Temos vários grupos em funcionamento. A psicóloga Lúcia Helena Ramos é uma referência no estado. O telefone dela é 3444.3774. A Biodança pode ser vivenciada por pessoas de ambos os sexos, de qualquer idade.








 

 
 
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