Morto há cinco anos, Caio Fernando Abreu deixou obra que reflete angústias da geração pós-64
Carolina Leão
especial para o DIARIO
"Não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum". A falta de orientação que tanto marcou oficialmente, via críticos de arte e meios de comunicação, a geração pós-64 inspirou o verso acima de Caio Fernando Abreu, que morreu há cinco anos, no dia 26 de fevereiro. Alguns autores entraram para a história da Literatura estabelecendo, em seus escritos, uma visão angustiada sobre a vida e os prazeres mundanos.
O tédio de Baudelaire; Schopenhaeur e suas teorias sobre a morte; Clarice Lispector e suas epifanias, que transcendiam o espaço textual em considerações filosóficas. Entre outros, estes escritores e o filósofo alemão foram lidos na juventude de Caio Fernando, que partilhou das suas amarguras em obras diversas, que representavam um contexto cultural marcado por essa incógnita perspectiva de futuro.
Desesperança ou falta de credibilidade em projetos do porvir definiram a produção textual de Caio Fernando que, ao tratar de assuntos como a solidão, a dificuldade de relacionamento e as paixões, produziu uma estetização da dor presente de diversas formas no núcleo temático de sua prosa. Sobre sua obra, um crítico literário francês escreveu que "é como se entrássemos em contato com a Literatura de uma espécie de Clarice Lispector que ouviu muito rock'n'roll e tomou bastante drogas durante sua juventude".
A influência de Clarice Lispector circundou de forma tão intensa seu trabalho como escritor e sua vida pessoal que o fez, em certo momento, privar-se de lê-la, como declarou em entrevista ao Caderno 2, de O Estado de S. Paulo. "Chegou uma hora em que eu me proibia de ler Clarice Lispector. Seus livros me provocam a sensação de que tudo já foi escrito, de que nada há mais a dizer. Eu não suporto mais ler as ficções de Clarice. Claro que, às vezes, leio escondido de mim mesmo. Mas elas me perturbam muito", confessou pouco antes da sua morte.