Resposta urgente
As rebeliões simultâneas em 24 penitenciárias
espalhadas por 19 municípios de São Paulo mostram que
o Plano de Segurança Pública não avançou
além das boas intenções. Anunciado com pompa em
junho do ano passado, o documento contém 124 medidas para conter
a violência. Duas delas - aumento de vagas nos presídios
e construção de penitenciárias federais - estavam
previstas desde 1994 no programa Mãos à Obra, mas não
foram postas em prática.
O plano não foi seguido de ações concretas
capazes de reduzir os índices assustadores de violência.
Pior: não operou nenhuma mudança no sistema penitenciário.
Os condenados continuam sendo jogados em depósitos como se fossem
feras. Onde os estudos dos órgãos humanitários
da ONU recomendam espaço mínimo de três metros quadrados
por sentenciado, as cadeias brasileiras destinam apenas um. Às
vezes, menos. Em muitas, os presos se revezam para dormir e não
têm as condições mínimas de higiene.
Sabe-se que a violência é parteira da violência.
Atirar homens em cubículos desumanos para uma convivência
promíscua e miserável é criar condição
de violência que resultará em mais violência. Alguém
é condenado por infração de escasso poder ofensivo
à sociedade, mas é custodiado nas casas de correção
com estupradores, homicidas, narcotraficantes, assaltantes e quadrilheiros.
O Estado, portanto, submete o infrator não só a condição
de extremo infortúnio, mas também a prolongado curso de
selvageria criminal.
O aumento dramático da população carcerária
não se deve apenas ao crescimento da criminalidade. Tem a ver,
de um lado, com a desorganização do sistema que deve controlar
a execução penal e, de outro, com a modernização
das leis. Quantidade considerável de presos permanecem nessa
situação muito tempo depois do cumprimento da pena. Outros,
também em número significativo, sequer deveriam ser punidos
com a privação da liberdade. Sua recuperação
social poderia ser tentada mediante aplicação de penas
alternativas, entre as quais sobressaem a indenização
das vítimas e a prestação de serviços à
comunidade.
Vale a comparação. Na Europa e nos Estados
Unidos, as sanções alternativas para crimes de menor periculosidade
respondem por 30% a 40% das condenações. No Brasil, não
alcançam os 3%. Com a criação de centros de penas
alternativas e de duas varas especiais, a expectativa é que o
número cresça. É questão de tempo.
A situação das prisões, hoje, é
explosiva. O Governo não controla os presídios. A corrupção
policial fala alto. De cada dez, seis sentenciados fogem. Ontem, foi
vez de um dos cabeças do motim de domingo. A assustadora mobilização,
que envolveu a quarta parte dos encarcerados paulistas e fez 10 mil
reféns, foi, segundo declaração dos líderes,
só o começo. Eles ameaçam rebeliões em cadeias
de 22 estados se não tiverem atendida a pauta de reivindicações.
É desafio à autoridade do Estado, que exige resposta e
medidas imediatas. Sem elas, a sociedade ficará refém
do crime.
Artigos
Verissimo nada vero
Tereza Halliday
JORNALISTA E ANALISTA DE DISCURSO
Fiquei envergonhada, por mim e meus colegas jornalistas
sérios, com a infeliz afirmativa do nosso famoso confrade Luiz
Fernando Veríssimo em sua matéria Contra o Canadá
(8/2/2001, nesta página), hostilizando jocosamente os canadenses
porque o governo deles deixou de comprar carne bovina brasileira.
Veríssimo pisou na bola ao afirmar: Só
me resta combater o Canadá com as poucas armas de que dispõe
o jornalismo. Como, no caso, a calúnia. Desde quando calúnia
é arma de jornalista, ou de qualquer outro profissional e ser
humano que se preze? Calúnia é crime e quem o comete,
jornalista ou não, está sujeito às penas da lei.
Querendo ser engraçado, o cronista gaúcho
foi infiel ao seu nome e ao bom nome da profissão que ele próprio
honra. Brincadeira tem limite, principalmente quando se brinca com uma
palavra tão séria em suas conseqüências. Calúnia
é arma de escroques, gângsters, políticos inescrupulosos
em campanha eleitoral lamacenta, almas sebosas, espíritos perturbados
e perturbadores. Todos criticados por Veríssimo em suas crônicas.
Como em outras ocupações, é possível que
alguns jornalistas desgraçadamente façam parte de uma
destas categorias, mas o Jornalismo como profissão legal e legítima
não aplaude nem acoita caluniadores.
Entre as poucas armas de que dispõe o Jornalismo
no bom combate para melhorar a sociedade, temos: a informação
mais objetiva e circunstanciada possível e a livre expressão
de idéias que alimentem o debate democrático e contribuam
para boas decisões e soluções. No cumprimento de
seus deveres funcionais, jornalistas cometem erros. Como o colunista
Clóvis Rossi, que escreveu forte peça de retratação
sob o título Errei. (Folha de S.Paulo, 14/2/2001,
p.A2). Recomendo aos usuários da Internet o site www.observatoriodaimprensa.com.br,
que traz avaliações periódicas do desempenho dos
jornalistas, por colegas e outros analistas da comunicação
de massa. Num sistema de pontuação de erros do Jornalismo
a calúnia é infração gravíssima.
Piadas contra grupos que não sejam o nosso,
fazem parte do humor universal. As mesmas anedotas de português
que nós, brasileiros, contamos, são narradas nos Estados
Unidos contra os poloneses. As gozações de Veríssimo
contra os canadenses desandaram em péssimo humor, porque ele
próprio teve a desfaçatez de definí-las como calúnias.
A notícia que gerou sua ira e verve tem muitas facetas e pode
estimular etnocentrismos descabidos entre os leitores desinformados
por ele.
Desejei muito que a mancada de Luiz Fernando fosse erro
de digitação. Se não foi, seu saudoso pai Érico
Veríssimo, deve estar, lá do céu, dando um puxão
de orelhas no pimpolho. O mal está feito, mesmo que o criador
da impagável personagem Dora Avante venha a reconhecer ou tenha
reconhecido o erro com o qual confundiu seus leitores e caluniou sua
profissão. Calúnia como arma do Jornalismo? Xô,
satanás!
Jamenson e Funeso
Djalma Costa
JORNALISTA
É grande a lista de homens aos quais muito deve
esta Pátria Municipalista e Capital Espiritual de Pernambuco
que é Olinda. É óbvio que, neste restrito espaço
que me cabe, não poderei citar todos; muitos deles encarnados,
e outros que já atravessaram as fronteiras do Eterno.
Sem embargo, há, também, aqueles que nada
fazem pela coletividade, espécie de homens adomados, narcisistas
e vaidosos de si mesmos. Quem melhor explica isso é o acadêmico
Antônio do Carmo, no seu recente livro intitulado Novas Fronteiras,
transcrevendo palavras de José Carlos Pacheco: Há
quem diga até que nem homem foi aquele que viveu na fantasia
e não viu, nem tratou, nem pelejou... E ainda: o fluminense
Manoel Otaviano pôs isto nestes versos: Quem passou pela
vida em brancas nuvens / e em plácido repouso adormeceu / não
foi homem, foi espectro de homem / passou pela vida / e não viveu.
Da mesma linha, insiste Antônio do Carmo, o maranhense Gonçalves
Dias, para quem a vida é uma luta renhida, que só
aos fracos abate, mas que os bravos e fortes só faz exaltar.
Dos que muito fizeram por este burgo duartino alteia-se
Jamenson Ferreira Lima, um lutador de primeira linha a quem nesta hora,
lhe presto as minhas homenagens.
Se nós realizássemos uma ação
de retrocognição chegaríamos àquele já
distante ano de 1971, onde iríamos encontrar Jamenson, ao lado
de Ubiratan Castro, João Suassuna Sobrinho e Gerson Barbalho,
fundando a Funeso, uma faculdade que deve ser ajudada e preservada,
levando em consideração as dificuldades pela qual passam
as instituições de ensino neste País.
Em outra oportunidade já afirmei que Jamenson Ferreira
Lima é um homem ligado à educação, à
ciência, à cultura e à sociedade. A man for
all seasons, como diria Robert Bolt. E mais: uma word is
enough for a wise man. Com trabalho e estoicismo plantou a Funeso
e agora se esforça para chegar à universidade.
Reconhecendo, com justiça, tudo que ele fez por Olinda
é que a Casa de Bernardo Vieira de Melo lhe outorgou o título
maior de olindense de quatrocentos anos.
A fome - como diria Saramago, é imoral;
é que os graves problemas do analfabetismo e da fome são
os mesmos e devem ser tratados com humanismo. É o que Jamenson
vem fazendo ao longo de sua vida; basta se ler os seus livros intitulados
Educação e Humanismo e Condições
da Vida da Classe Pobre de Santo Amaro.
Aplausos aos que plantaram a árvore e aos que a estão
regando com entusiasmo flamante.