Técnicas adotadas por empresas são criticadas pelos candidatos a emprego pela falta de praticidade
Passar por um processo de seleção para conseguir uma vaga de trabalho pode se transformar em um calvário tão doloroso quanto frustrante, especialmente se o emprego não for conseguido. Alguns recursos de avaliação, como as dinâmicas de grupo, causam espanto, estranheza e, em muitos casos, até a revolta dos candidatos que se submetem aos métodos.
Situações como a enfrentada pelo engenheiro civil Adilson de Albuquerque Carneiro, 60 anos, chegam a ser patéticas. Há dois anos, ele se submeteu a uma seleção para um cargo de executivo em uma montadora de veículos multinacional e ficou indignado com o que presenciou. "Numa certa hora, nos dividiram em grupos. No meu, tinha apenas uma mulher. Daí, recebemos um papel nos mandando escolher alguém da equipe para representar uma prostituta. Foi constrangedor, terrível! A moça teve que assumir o personagem", lembra o engenheiro.
Tchan - O pior, no entanto, estava por vir. Depois do teatro, a psicóloga que aplicava a dinâmica exigiu que Adilson e seu grupo dançassemo tchan e a macarena. "Nessa hora eu explodi. Não pude aguentar tanta humilhação. Aquilo não podia ser uma seleção séria. Era uma palhaçada!", reclama. Na opinião do engenheiro, as dinâmicas aplicadas não têm condição de avaliar competências técnica ou intelectual do candidato.
Para a psicóloga e consultora Edilza Guimarães, da Dimensão (empresa que promove capacitação na área de recursos humanos), alguns profissionais de RH estão usando técnicas de dinâmica sem qualquer critério, responsabilidade ética ou conhecimento. "As empresas que precisam contratar serviços para selecionar pessoal devem procurar consultorias com tradição de mercado", aconselha. Segundo Edilza, o processo de seleção começa no anúncio da vaga e, antes de estabelecer os métodos que serão usados no recrutamento, o perfil do cargo que será ocupado tem que estar bem claro na mente do recrutador.
Traumas - Clareza foi o que faltou nos vários recrutamentos pelos quais passou a secretária-executiva Ana Pimenta, 39. Alguns deles a deixaram tão traumatizada, que hoje ela não consegue se livrar da tensão na hora de encarar novos desafios do tipo. "Da última vez, depois de ter sido entrevistada várias vezes, cheguei ao final do processo tendo que repetir, em outra entrevista, tudo o que eu já havia dito no iníci o. Me senti como se estivesse respondendo a um interrogatório policial. Era como se eles procurassem contradições", analisa. Tanto estresse não valeu a pena, pois apesar de estar trajada dentro dos padrões exigidos, Ana foi eliminada por causa da roupa que vestia.
De acordo com o vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, Emydio Palmeira, técnicas holísticas de seleção que viraram moda como o biorritmo (método que se propõe a revelar fases positivas e negativas dos ciclos emocional, físico, intelectual e instintivo de uma pessoa) e o horóscopo não têm embasamento científico.
"As dinâmicas de grupo, por sua vez, têm o seu valor tanto no recrutamento quanto no treinamento, mas precisam ter objetivo definido", diz.Para Palmeira, tais técnicas não devem ser encaradas como brincadeira. "O profissional que as aplica precisa ter um alto nível de conhecimento de psicologia humana", adverte. (C.G.)