(Atualizado no dia 19/02/2001)
 
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Empregos

Desafio de ter o pai como patrão

Para os jovens, uma das maiores preocupações é mostrar que a competência de cada um está desatrelada da condição de ser o filho do dono

Carlos Costa
DA EQUIPE DO DIARIO

Começar a vida profissional numa instituição sólida, reconhecida no mercado e propriedade dos pais pode parecer um caminho fácil, cheio de privilégios. Mas não é assim que os filhos de empreendedores de sucesso encaram a prática de trabalhar no mesmo ramo e empresa dos pais. Na maioria das vezes, são submetidos à mesma realidade dos demais empregados e, ainda por cima, vivem a cobrança de um patrão, que acumula também a autoridade de pai.

  Um exemplo vem da agência de publicidade Italo Bianchi Publicitários Associados, na qual três jovens, filhos de três associados, estão iniciando as carreiras com um dia-a-dia de tarefas e horários igual ao de todos os funcionários. Miguel Melo, 23, formado em Administração de Empresas e está há dois anos e meio trabalhando na empresa do pai, Alfrízio. João Lima, 26 anos, estudante de Publicidade, há dois anos na empresa do pai, Jairo. Por último, João Souza Leão, 24, também estudante, retornou esse ano à empresa do pai, Joca.

  Os três sãosubordinados a diferentes chefes imediatos, que não são os pais, e confessam viver sob responsabilidade dobrada, de profissionais e de filhos dos patrões. "Nunca tive facilidades por ser filho de um dos sócios. Para começar, a questão de serem sócios, de ser mais de um dono, já acaba com essa idéia", revela Miguel. Os outros dois concordam e acrescentam que o parentesco termina fazendo as cobranças por parte dos chefes e outros empregados ser maior do que o comum. "O tempo todo, estamos provando nossa capacidade com o resultado do nosso trabalho. E por ser o patrimônio dos nossos pais, a responsabilidade acaba sendo maior", observa João Lima.

TRATAMENTO - A chegada do terceiro filho de associados à agência, esse ano, levou os sócios a se reunirem para discutir os procedimentos que iriam tomar com a questão. "A decisão foi óbvia, de tratá-los da mesma forma que qualquer funcionário. E, por ainda morarem em casa, terminam recebendo cobrança maior. A hora de acordar, por exemplo, João nunca perde, porque eu nãodeixo", confessa Joca Souza Leão.

  Os rapazes são atualmente supervisor (Miguel), assistente (João Souza Leão) e auxiliar de atendimento (João Lima), os mesmos cargos que tiveram desde da entrada na agência. Segundo Joca, os três estão conseguindo um bom desempenho e já deixam os pais pensando numa possível sucessão. "Mas será o desempenho deles que assegurará essa sucessão; a ascensão na empresa terá de ocorrer gradual e naturalmente", completa.

RESTAURANTE - Em outros setores do mundo dos negócios, como alimentação, a relação entre pais e filhos empreendedores segue o mesmo molde, de cobrança e responsabilidade. O sucesso também é assegurado apenas pelo esforço e talento. O empresário Antístenes Azevedo, há 25 anos no ramo de alimentação, formou a filha, Adriane, em seu restaurante de cozinha suíça La Maison. Há oito anos, Adriane, por vontade própria, resolveu trabalhar no restaurante. "Começou fazendo as compras. Depois passou para a cozinha, onde tomou gosto pela coisa. Não quis mais sair", lembra o pai.

  Hoje, Adriane cuida de um restaurante próprio, o Le Mazot, montado pelo pai depois de considerar a filha pronta para o desafio. "O primeiro passo para aprender foi esquecer que era filha do dono. Depois foi me envolver de fato, com seriedade", avalia Adriane. Segundo Antístenes, o caminho do aprendizado da filha foi composto por diversas etapas, onde ela sempre foi submetida a agir como uma empregada qualquer da empresa. "Depois de aprender a cozinhar, ela foi para a parte do receptivo e, por último, a administrativa. Assim, chegou ao pulo do gato", completa.

O estudante Luciano Ribeiro Silva, 16 anos, também segue o caminho do pai, o metalúrgico Antônio Ribeiro da Silva, conhecido por Mineiro, hábil em adaptar, desamassar e consertar todo tipo de defeito em calotas e pneus. Desde pequeno, Luciano aproveita as horas livres na oficina do pai, aprendendo os segredos da metalurgia. Esse ano, vai dedicar o turno da tarde, diariamente, à oficina. "Ele já aprendeu a maioria das tarefas e trabalha como qualquer outro", comenta Mineiro.

  Segundo Luciano, a tarefa na oficina não é pesada e o aprendizado profissional vai garantir seu futuro. Para conseguir o respeito entre os demais funcionários empresa do pai, sendo tão novo, Luciano diz que o caminho escolhido foi a da competência. "Aprendia a fazer quase tudo me esforçando. Só falta aprender a tratar com os clientes, que sempre querem desconto e, às vezes, ficam muito nervosos. É o mais difícil", completa.








 

 
 
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