Melhorar a imagem
O presidente da Câmara, Michel Temer, confirmou que a
eleição de seu sucessor será realizada hoje a partir das 15 horas. Antônio
Carlos Magalhães cumpriu sua parte na liturgia do Senado. Também se
comprometeu a instalar, às 15 horas, a sessão destinada a escolher o
novo presidente da Casa. Os dados estão sobre a mesa, os conchavos foram
feitos, as alternativas, examinadas. A feroz disputa pelo poder dentro
do Legislativo atingirá agora o ponto máximo. E precisa estar encerrada
antes da meia-noite. O regimento interno de cada uma das casas dispõe
que no dia 15 será a posse dos eleitos. Portanto, há prazo determinado.
A eleição tem que começar e terminar nesta quarta-feira. Não é possível
adiá-la sob pena de ocorrer vacância de poder. A competição entre PMDB,
PSDB e PFL em torno das presidências é inédita na história do Congresso.
Jamais ocorreu situação como a dessa eleição. O salão verde da Câmara
se parece com quermesse de igreja do interior, e o Senado se afunda
em constrangedor pugilato verbal entre dois de seus integrantes. Disputar
cargo eletivo é característica básica do parlamentar. Ele vive em função
de eleições. Está acostumado a cortejar eleitores. A brandir promessas
e escamotear soluções. Faz parte do perfil do político. A competição
no Senado e na Câmara é democrática, livre e aberta. Integra o conjunto
de providências necessárias para oxigenar o regime brasileiro. Em última
análise, é saudável. No caso atual, contudo, a corrida começou a afetar
a governabilidade, além de ter contribuído para piorar a imagem da instituição.
Os brasileiros de todo o País estarão assistindo pela televisão ao
show eleitoral proporcionado pelos parlamentares. Ao vivo. É de elementar
prudência conter ações e reações dentro dos limites da ética e do decoro
exigidos pelas duas casas. Os eleitores estão cansados das seguidas
denúncias de corrupção e tendem a se desencantar com os políticos. E,
à medida que se distanciam dos assuntos que interessam ao País, abrem
o espaço onde viceja a demagogia, o populismo e a retórica dos salvadores
da pátria. Deputados e senadores terão hoje a chance, importante e
histórica, de mostrar à nação que merecem estar no Congresso representando
o povo brasileiro. Moderação, objetividade e tranqüilidade são elementos
fundamentais para que as duas sessões, a da Câmara e a do Senado, resultem,
somente, na escolha dos novos presidentes. O recurso a qualquer tipo
de truculência merecerá o mais claro repúdio da sociedade. Os brasileiros
gostam de viver na democracia, regime que permite aos antagônicos a
convivência no mesmo espaço político. A eleição é apenas a escolha de
um nome. Haverá vencedores e vencidos. É próprio do regime. Há uma renovação
em curso. Essencial, contudo, é demonstrar ao País que seus senadores
e deputados são capazes de administrar situações de crise até na própria
seara. É o momento de melhorar a fotografia. E caprichar na imagem que
será transmitida à Nação.
Artigos
Recifolia: decida, prefeito
Alexandre Gueiros
PRODUTOR CULTURAL E PROPRIETÁRIO
DO BLOCO NANA BANANA
Pernambuco entra no Milênio com a cara da nova
economia. Isso mesmo. Estado Pobre em recursos naturais parecia fadado,
dentro dos paradigmas da economia industrial, a uma posição
desfavorável na economia brasileira. Deixa estar que a onda da
revolução tecnológica nas áreas de informação,
transporte, comunicação, biotecnologia, ciência
médica etc, colocou Pernambuco na rota das grandes tendências
do nosso tempo.
De repente, setores da economia que ocupavam uma posição
secundária, ou sequer eram capturados como relevantes pelos dados
estatísticos, passaram a ser encarados como potencialidades e
como uma nova base econômica, dinâmica e competitiva, na
configuração de um moderno projeto de desenvolvimento.
Salta aos olhos, hoje, o significado de Pernambuco como
um pólo regional de logística e comércio atacadista;
como centro de invejável porte na prestação de
serviços médicos; como uma nucleação nacionalmente
respeitada na área de informática; como centro produtor
avícola, fruticultor e gesseiro; e como um Estado privilegiado,
talvez singular, na integração de um patrimônio
histórico-cultural rico e diversificado, às oportunidades
várias em relação ao turismo de convenções,
de lazer, religioso, cultural, ecológico (e aí merece
destaque Fernando de Noronha, cujas mudanças que vêm se
operando nos últimos cinco anos, transformarão o arquipélago
no destino ecoturístico mais charmoso e próspero do Brasil)
e às enormes possibilidades da economia do entretenimento que,
no Mundo inteiro, apresenta vertiginosos indicadores de crescimento.
É dentro deste quadro que se situa o Recifolia, evento
em torno do qual as análises sempre primaram por uma pobre e
simplista abordagem.
Para efeito de argumentação (e apaziguar a
ira de parcela da intelectualidade), admitamos que, do ponto de vista
das raízes da cultura carnavalesca pernambucana, o Recifolia
não seja nenhuma Brastemp (embora os espaços estejam abertos
para as manifestações do maracatu e blocos de frevo);
admitamos que exista um grau de perturbação para os moradores
da área (embora, segundo pesquisa, 65% dos moradores de Boa Viagem
sejam favoráveis à realização do evento);
impossível negar o Recifolia como um evento consagrado no calendário
turístico de Pernambuco e, mais ainda, como um fato econômico
de saudáveis efeitos sobre a ocupação e a renda,
especialmente do enorme contingente de trabalhadores que se situam no
campo da informalidade.
Para entender o significado econômico e social do
Recifolia, é preciso perceber que o evento dura quatro dias,
mas perdura o ano inteiro, impulsionando os beneficiários da
indústria do entretenimento. O bloco de minha propriedade, o
Nana Banana, promove (e não é diferente com os outros)
duas festas por mês; produz bolsas, chaveiros, bonés, camisas,
empregando artesãos costureiras, bandas, chegando nos dias do
evento à contratação de 1.100 seguranças,
sem falar no impacto do conjunto dos investimentos de todos os blocos
que alcançam ambulantes, barraqueiros, motoristas de táxi,
garçons, cozinheiras e jogam a taxa de ocupação
dos hotéis, na baixa estação, para algo em torno
de 80 a 90%.
De outra parte, contribui com a difusão da imagem
da Cidade, irriga o mercado publicitário e, ao aquecer a economia,
repercute positivamente na arrecadação de impostos. Trata-se
de um empreendimento autofinanciado e capaz de bancar diretamente grande
parte dos serviços públicos necessários ao evento.
Cabe aperfeiçoamentos. Cabe aprimorar a organização.
Cabe discutir um formato e mecanismos que estimulem as nossas raízes
sem cometer o pecado do chauvinismo cultural. O que não cabe
é destruir o Recifolia. O que não cabe é fazê-lo
pela via oblíqua de retirá-lo da orla marítima.
Não há outro espaço no recife compatível
com o porte e as características do evento.
Portanto, respeitosamente, pondero que o senhor decida se
o Recifolia continua existindo ou acaba! O senhor sabe melhor do que
ninguém, que não há decisão sem ônus.
Sabe, também, que os governantes são eleitos para decidir
em função do bem comum. Sabe, por fim, que adiar decisões,
particularmente para aqueles que precisam investir, é não
decidir e não decidir é a forma mais perversa de decidir.
Indigestas decisões
Rivaldo Paiva
ESCRITOR
Ah, canadenses de uma figa! Oh, bondosos ianques! Olé,
bajuladores chicanos!
Quanta vaca doida anda com chiliques pras bandas do Primeiro Mundo!...
O professor Cardoso, presidente da gema, digo, do curral
verde-e-amarelo, que não quer expor as patriotas tetas
ao léu (típico topless lusitano), deseja mesmo é
guerra. E guerra de botões pra valer - Jacques Tati adoraria
ser o intérprete francês desse filme de ação,
no lugar de Funn×s, prestes a estrear na imaginação
fantasiosa da Alcoa, do Mercosul e de outras bicharadas globalizadas,
ainda com direito de concorrer a um paradiso Oscar post-mortem; Veríssimo
danou-se com os gringos; Cony estraçalhou na Folha de São
Paulo e Jabor botou pra quebrar no seu Conection; Malan deu uma de Armínio-sem-braço;
Pratini conversa mole, e no Congresso Nacional, a luta pelo poder legislativo
nos faz amarelar com tantas bandalheiras, grampos, engalfinhamentos
de partidos e baboseiras de políticos.
Hoje o bicho vai pegar.
Na eleição da Câmara, Inocêncio
gagueja pelos salões azuis da Casa do povo sem arrepiar um fio
do seu cabelo lambido pela vaca. O neto de Tancredo, o Aecinho mineiro
anda colado aos bois na frente da carroça e o Mercadante negocia
a forma de conchavar do seu PT com os topetes do PFL.
Pelas negritudes do Senado, ACM jura que Jáder, o
homem de 30 milhões de dólares, vai parar na bicama do
juiz Lalau e que o planalto do professor Cardoso vai desmoronar com
suas denúncias - reminiscências das Teles, rendas e bordados
das CC5, Salvatores, Eduardos Jorges e Chicos Lopes.
Como estamos perto do Carnaval, vamos ter bububú
no bobobó, pois o PMDB garante que, desta vez, rasga a baiana
de Toninho Malvadeza e não deixa nunca ele ser mais nada - só
conseguirá assumir a OAS.
Todos os atores dessa parafernália mesquinha e desmedida
para a imagem do nosso País já amanheceram esta buliçosa
quarta-feira comendo churrasco de vaca, perdão, de gado (genérica
expressão para aporrinhar nosso povo marcado, povo infeliz) acompanhado
com pães de gergelim, num fast food de sabor mórbido,
pouco apetitoso e seguido por indigestas decisões.
É o retrato perverso da modernidade, como revela
Eric Schlosser, e que deixa o ativista francês José Bovê
delirantemente feliz da vida pelo alvo acertado, pois até as
galinhas são alimentadas com restos de gado. E nossas autoridades
ainda permitem inspeção pelos ursos gelados de Quebec
e dos hambúrgueres de Bush.
Portanto, até sobrou para a galinhagem, de todos
os lados, política e diplomática.
No finzinho da noite de ontem, quando fechava este artigo,
consegui, a duras penas das penosas, um contato com o burburinho eleitoral
de Brasília, e sabem o que eu soube em primeira mão? Vai
explodir uma bomba de mil megatons durante a votação -
que não me arrisco a revelar, pois não comi vaca louca
nenhuma, sequer peruas canadenses, tampouco cocô de louro... Gosto
da boa digestão.