Começa hoje e vai até o dia 18, a 51ªedição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, um dos mais charmosos eventos dedicados à produção cinematográfica mundial. Três anos depois de Central do Brasil arrebatar público, crítica e os Ursos de Ouro de melhor filme e de Prata de melhor atriz para Fernanda Montenegro, o Brasil está representado por dois longas ainda desconhecidos, que participam da mostra não-competitiva Panorama do Cinema Mundial: Latitude Zero, de Toni Venturi, e Memórias Póstumas, de André Klotzel, a serem exibidos, respectivamente, nas próximas segunda e quarta. Completam a escalação verde-e-amarela os curtas Palíndromo, de Philippe Barcinski (incluído na Panorama), e O Branco, de Ângela Pires e Liliana Sulzabach - este último na Kinderfilm, também não-competitiva.
Tudo bem, a aguerrida indústria nacional não emplacou concorrente algum na seleção oficial de concorrentes. Isto, no entanto, não implica que os berlinenses ficarão privados de conferir uma parcela significativa dos títulosnacionais lançados recentemente. A razão é o Programa de Promoção Internacional do Cinema Brasileiro, um convênio estabelecido entre a Agência de Promoção de Exportações e a Brazilian Cinema Promotion (empresa recém-criada cujo nome bem explicita os objetivos que a norteiam) e financiado pelo do Ministério da Cultura.
Depois de marcar presença em Sundance e Roterdã, o programa levará ao Mercado do Filme Europeu, realizado em paralelo ao festival, doze películas: Amélia, O Auto da Compadecida, O Chamado de Deus, Cronicamente Inviável, Cruz e Sousa, Nordeste, Quase Nada, Senta a Pua, Tônica Dominante, Urbania e Villa Lobos. É cinema tupiniquim extrapolando as fronteiras e cavando um espaço nas reservadas salas internacionais. Depois de Berlim, este pacote seguirá para Los Angeles, a fim de integrar o American Film Market, uma feira na qual milhões são gastos e acordos proveitosos acabam firmados.
JÚRI - E até mesmo entre os jurados de Berlinale há um brasileiro. Hector Babenco é um dos nove integrantes do corpo presidido pelo executivo americano Bill Mechanic (ex-presidente da Fox Filmes, responsável pelo sucesso de Titanic e Além da Linha Vermelha, Urso de Ouro em 1999). O diretor de Coração Iluminado substituiu de Beth Freire Sá na tarefa de ajudar a escolher os vencedores. Outros nomes importantes, como as atrizes Jacqueline Bisset e Dominique Blanc e os cineastas Dario Argento (sinônimo de cinema de terror de qualidade) e Fatih Akin (único alemão), também estão na capital germânica como componentes do júri.
Já a lista dos longas que a serem projetados no Palácio do Festival conspira para que esta seja uma edição memorável. O vencedor de Sundance, Hedwig and The Angry Inch, de John Cameron Mitchell, está na Panorama. Diretores de peso vão se engalfinhar pelo Urso de Ouro. Steven Soderbergh (Traffic), Mike Nichols (Wit), Lasse Halstrom (Chocolat), Giuseppe Tornatore (Malena), Spike Lee (Bamboozled) e Patrice Laconte (Félix et Lola) concorrem com Philip Kaufmann (Contos Proibidos do Marquês de Sade) e RidleyScott (Hannibal). Uma disputa que, invariavelmente, trará uma dorzinha de cabeça aos jurados.
Mas o melhor mesmo vai ser a homenagem a Stanley Kubrick. Glória Feita de Sangue será projetado numa sessão especial em honra ao Kirk Douglas. No sábado 17, é a vez do documentário Stanley Kubrick: A Life in Pictures, de Jan Harlan (rodado em beta digital). E o ápice é a exibição de 2001: Uma Odisséia no Espaço, do alto dos seus portentosos 70 mm, no dia do encerramento do festival. Mais adequado e oportuno, impossível. (Luciana Veras)