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Opinião

Editorial

Doenças velhas

Há algum tempo, falar em certas doenças significava relembrar pesadelos do passado. Parecia distante o tempo em que dengue, febre amarela, tuberculose, cólera e hanseníase tiravam o sono dos governantes. Hoje, a reincidência dessas enfermidades que estavam sob controle volta a preocupar o sistema público de saúde.   Segundo pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a hanseníase deu significativos saltos nos últimos anos. O Brasil ocupa o indesejável segundo lugar mundial em ocorrências da bíblica lepra. Anualmente, cresce em pelo menos 40 mil o número de novos portadores. Em 1995, o Amazonas registrava 32 casos para cada 10 mil habitantes. A meta da Organização Mundial de Saúde está bem longe desse patamar — um para cada dez mil pessoas.   O retorno de velhas moléstias não constitui exclusividade brasileira. Bate também às portas do Mundo desenvolvido. Muitas delas têm relação com o desenvolvimento dos antibióticos e o surgimento de novas doenças. A Aids, por exemplo, abriu caminho para a supertuberculose, resistente aos medicamentos tradicionais. Os Estados Unidos registram crescentes aparecimentos do mal entre sua população.   No Brasil, existem outros complicadores. A ignorância, a pobreza, a degradação ambiental e problemas no sistema de saúde respondem por boa parte das mazelas que afligem o País, de Norte a Sul, mas concentram-se sobretudo nas áreas mais pobres. Lá, vivem pessoas em condições precárias, sem saneamento básico ou coleta de lixo. São brasileiros mal-alimentados, com baixa ou nenhuma escolaridade e sem acesso à informação.   As doenças do passado encontram terreno fértil entre eles. A cólera, que se julgava erradicada, há dez anos retornou ao País via Peru. Evitá-la constitui tarefa fácil. Basta lavar bem os alimentos e as mãos antes de comer. Mas muitos não o fazem. Falta-lhes água ou informação.   A dengue prolifera nos lixos modernos. Recipientes plásticos ou de vidro se avolumam nas favelas e invasões. Com a chuva, formam reservatórios de água — hábitat do Aedes aegypti, transmissor do vírus.   Mais: a tuberculose é 100% curável. Mas os pacientes interrompem o tratamento aos primeiros sinais de melhora e, reincidentes, vêm distantes as possibilidades de recuperação da saúde.   Combater a pobreza e a ignorância exige dinheiro, tempo, determinação e persistência. Erradicar as doenças delas decorrentes não constitui tarefa de uma só geração. Cabe às autoridades sanitárias evitar que as enfermidades proliferem. Impõem-se campanhas de esclarecimento contínuas e atuação direta nas áreas de surto.   Vale o lembrete. Na primeira metade do Século XX, com recursos materiais e humanos infinitamente menores, o Brasil conseguiu a proeza de acabar com a febre amarela.

Artigos

Globalização, cidadania e escola do futuro

Michel Zaidan Filho
Coordenador do Mestrado
em Ciência Política da UFPE

O processo de mundialização da economia e sua desterritorialização do poder vêm engendrando uma sociabilidade, uma ética e uma política neo/darwinista, da competição exacerbada de todos contra todos, onde o ideal da eficiência a todo custo, da máxima produtividade ou da eficácia alocativa do mercado, governa soberana as ações sociais. Ética responsável por uma educação neo-taylorista que, a título de construir o trabalhador do futuro, multifuncional, multicompetente, especializa ainda mais o enfoque instrumental da racionalidade humana, inibindo ou mutilando outras dimensões sócio-culturais da humanidade. A utopia civilizatória da globalização é um Mundo sem fronteiras de cidadãos consumidores dispostos a trocar, comprar ou vender: menos a compartilhar experiências significativas de vida.
  A essa utopia mercantil e virtual, asséptica e arredia às contradições do Mundo real, é preciso contrapor uma outra baseada numa nova racionalidade, numa nova ética e cidadania. Pensando nisso, alguns ensaístas vêm reconstruindo conceitos da teoria crítica da sociedade para dar conta de uma alternativa a esse Mundo hobbesiano da nossa era criado pela globalização. Penso em nomes como Jean Cohen e Andrew Arato, ao reconceituarem a chamada sociedade civil a partir de uma perspectiva habemasiana e aplicá-la aos novos movimentos sociais pós-Leste europeu. De acordo com estes autores, seria possível ressignificar o espaço da política, como lugar da produção de significados por atores e sujeitos diferenciados, plurais e desterritorializados. Esta política, animada pelo que denominam de mundo da vida ou mundo da cotidianeidade, seria diferente da racionalidade sistêmica ou instrumental, típica dos processos globalizantes, opondo uma ética da solidariedade, do cuidado mútuo, do respeito à diferença e ao pluralismo cultural, ao rolo compressor dos interesses estratégicos das empresas transnacionais. Onde a globalização impõe uma ética da competição exacerbada através de elites cosmopolitas e cínicas, essa nova esfera pública ampliada contraporia uma ética da ajuda, do apoio mútuo e da tolerância. Artigos valiosos e escassos num Mundo cada vez mais multiculturalizado, mas destituído ainda de verdadeiras instituições públicas multi ou interculturais.
  De sua parte, essa sociedade civil planetária seria o palco de um novo cidadão, o cidadão vox ou ludens, capaz de vocalizar direitos ou produzir significados ou identidades temáticas. Tudo isso a partir de um associativismo de pequenos grupos munidos de culturas e linguagens diferenciadas, compartilhando pela palavra, pelo diálogo e a força da argumentação, experiências significativas de vida, anseios e esperanças. Este cidadão vox, local, plural, comunitarista e propenso ao diálogo, estaria conectado em rede, interagindo com outros cidadãos vox do Mundo inteiro, criando redes temáticas da cidadania. Cidadania em rede, esse conceito corresponde à política virtual da era da globalização e à cidadania planetária, como oposição a este última.
  Uma escola do futuro devia contribuir para esta cidadania vox ou ludens, apta a enfrentar os desafios das chamadas emergências humanitárias e seus cidadãos peregrinos, sem lar, sem Estado, sem trabalho ou direitos sociais. Essa escola teria de se ocupar prioritariamente de uma pedagogia do cuidado, globalizando a solidariedade, a partir das linguagens, da diversidade cultural, do associativismo dos pequenos grupos e da rede virtual de cidadãos. Se ela não for capaz disso e se preocupar apenas em formar trabalhadores e consumidores para seus estados-nação, estará condenada a ser apenas mais uma trincheira avançada do processo de exclusão social, num Mundo onde inexistirão solidariedade, direitos ou identidade cultural. A essa rede de cidadãos consumidores globais, vamos opor uma outra de cidadãos planetários, portadores de múltiplas identidades e necessidades e animada por uma fraternidade sem fronteiras.

A derrota de ACM e liberais

Abelardo Baltar da Rocha
Presidente do Instituto Ulisses Guimarães

Os fenômenos macro-políticos podem ser visualizados segundo várias dimensões. Pode-se observá-los à luz do mais imediato, do mais palpável. À luz das intrigas e fofocas da política. À luz da simples disputa partidária. Mas pode-se, também, observá-los e analisá-los considerando um nível de abstração mais alto, procurando vê-los como um reflexo da dinâmica real da sociedade, com todas suas múltiplas facetas. O que aparece no imediato, geralmente, é considerado, pelos mais incautos, como a verdade última. Ledo engano, pois o imediato, quase sempre, apenas expressa, na sua linguagem própria, fenômenos cujos determinantes são muito mais remotos, muito mais profundos, muito menos aparentes.
  Veja-se, por exemplo, essa “briga”, nos dias de hoje, pela presidência da Câmara e do Senado. Aparentemente (ou seja, no plano do mais imediato) seria apenas uma disputa partidária que envolve importantes políticos do cenário nacional. Uma disputa cheia de “fofocas” e intrigas, em que os dois principais personagens, ACM e Jader Barbalho, “jogam bastante duro” um com o outro. Na verdade, é muito mais que isso, pois, de certo modo, também se acham em questão, nessa disputa, os rumos da atual política econômica do País. Sim, pois foi, exatamente, a insatisfação com esses rumos, insatisfação existente em muitos setores representativos da sociedade brasileira, que criaram as condições, no plano da política partidária, para que essa disputa se estabelecesse e prosperasse. Foi exatamente essa insatisfação que criou as condições para que a, até então, sólida posição de ACM, na base de sustentação do Governo, ficasse completamente ameaçada. Claro, pois é no PMDB e no PSDB, partidos de origens e culturas reformistas, que deságuam, com mais força, as referidas insatisfações, jogando esses partidos, conjuntamente, contra os setores hegemônicos do PFL, principais defensores, no campo partidário, da presente política de radicalismo liberal desenvolvida pelas atuais autoridades econômicas.
  A tendência atual dessa maior união do partido do Governo com o PMDB, em vez do PFL, expressa toda uma tendência que vem se consolidando no conjunto da sociedade: a necessidade de se atribuir maior ênfase ao social nas políticas governamentais, pois só a retomada do crescimento econômico, como vem ocorrendo, não é capaz nem de amenizar bastante a grave crise social por que vem passando o País. A prática recente assim demonstra. Por isso mesmo, amplos setores pertencentes/ligados ao Governo acatam, cada vez mais, essa posição de rebeldia em relação à política econômica oficial, até por uma questão de sobrevivência política. Em conseqüência, os principais defensores da atual política econômica governamental, como ACM e o seu PFL, tendem a ficar mais isolados no contexto geral da política brasileira, o que se reflete nos embates da rotina da vida partidária, como acontece, agora, nessas disputas pelas duas mesas do Congresso.
  Já o PMDB e o PSDB, quando começam a optar, definitivamente, por um posicionamento mais moderado em relação à abertura econômica, propugnando que não fiquem expostas à competição internacional aquelas atividades ainda pouco capazes de enfrentar a concorrência externa, retornam às suas raízes mais profundas de partidos de centro-esquerda. Partidos interessados na preservação do emprego interno e no crescimento econômico a partir, também, da força do mercado interno etc, etc. O retorno às fortes preocupações com os efeitos das atividades econômicas, no campo social, é o que vem unindo muito, ultimamente, esses dois partidos.

 
 
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