Tatiana Nascimento
Da equipe do DIARIO
O consultor Fábio Ortiz trabalha com empresas
há mais de 15 anos. Desenvolveu projetos com gigantes como Embraer
e Petrobras e já conviveu com os modismos da Qualidade Total,
Reengenharia e Planejamento Geral de Recursos da Empresa. Em 1996, começou
a prestar atenção nas teorias do americano Thomas Stuart
e, desde então, é um dos maiores entusiastas do chamado
capital intelectual, ou tudo aquilo que os empregados de uma organização
sabem. Tudo mesmo.
De acordo com a cartilha de Stuart, todas as pessoas têm
algo que pode ser aplicado em benefício da empresa. E o melhor
que é esse conhecimento é sempre mais difícil de
ser copiado pela concorrência, ao contrário de equipamentos
e tecnologia. Para Fábio Ortiz, ao enfatizar o capital intelectual,
a empresa consegue se diferenciar das outras, principalmente nos atuais
tempos de globalização.
"Máquinas se depreciam ao serem usadas. Acontece
o contrário com o conhecimento das pessoas. Ele se valoriza mais",
afirma. Ele lembra que ainda são poucas as empresas preocupadas
em descobrir as qualidades dos seus empregados, colaboradores. Na maioria
das vezes, colocam a tecnologia como prioridade. Isso não acontece
só no Brasil.
Segundo ele, no mercado norte-americano existe nas empresas
aquela vontade de manter idéias antigas, sem fazer renovações.
Mesmo assim, ele diz que vai continuar viajando pelo País para
disseminar suas idéias.
DIARIO DE PERNAMBUCO - O que é capital
intelectual?
Fábio Ortiz - É uma riqueza específica que
existe dentro da empresa e que está inserida na Gestão
do Conhecimento. Quem trata de Gestão do Conhecimento, começa
abordando duas questões. As organizações, particularmente
as empresas, têm os chamados ativos tangíveis e os intangíveis.
Os tangíveis são aqueles que podem ser tocados, como os
equipamentos e a matéria-prima utilizada pela empresa. O que
é difícil de mensurar é o ativo intangível,
mais difícil de ser copiado pela concorrência. É
tudo aquilo o que a empresa sabe. E a empresa sabe exatamente o que
as pessoas que fazem parte dela sabem, individualmente ou coletivamente.
Isso vem a constituir o capital intelectual, o ponto estratégico
da empresa.
DP - Quando foi criado o termo capital intelectual?
Ortiz - O termo começou a ser fixado na década
de 90 pelo americano Thomas Stuart. Ele foi a primeira pessoa a levar
a idéia a sério, a tentar conceituá-la. Começou
em um artigo que publicou no início dos anos 90. No começo,
ele era visto como um poeta. Hoje já não é assim.
Sempre recomendo a leitura de O Capital Intelectual, escrito por Stuart
e já traduzido no Brasil. É um livro fundamental para
quem deseja entender o tema.
DP - Mas é difícil encontrar organizações
preocupadas com o que os empregados pensam ou sabem. Normalmente, a
maior preocupação é com os lucros, com os resultados,
não?
Ortiz - Exatamente. O que acontece é uma coisa assustadora.
São pouquíssimas as empresas que se preocupam em saber
o que elas mesmas já sabem, em descobrir as qualidades dos seus
empregados, colaboradores. Em geral, as empresas desconhecem o que elas
sabem. Muitas vezes, colocam a tecnologia como prioridade, quando ela
não deve ser considerada o grande patrimônio da empresa.
O que o computador era capaz de fazer dois anos atrás, vai continuar
fazendo, com algumas alterações. O computador pode apenas
ser melhorado. Infelizmente, as empresas sempre dão mais importância
ao que é visível.
DP - Essa falta de preocupação,
e até mesmo visão, acontece mais nas organizações
brasileiras ou também pode ser observada em países mais
desenvolvidos?
Ortiz - Isso acontece no mundo inteiro. Claro que depende da
cultura de cada país. O Brasil tem se voltado nos últimos
40 anos principalmente para os Estados Unidos, para o que os americanos
pensam. Mas mesmo no mercado americano também há muita
inércia dentro das empresas. Há uma vontade de manter
a cultura antiga, sem fazer renovações. O mercado americano
é mais competitivo, está mais aberto. Comparado com o
resto do mundo, valoriza o capital intelectual. Estão um pouco
mais adiantados, mas não são hegemônicos neste sentido.
DP - Quais os benefícios para a empresa
que adota processos de gestão do conhecimento e que dá
importância ao capital intelectual?
Ortiz - Elas conseguem se diferenciar das outras. Hoje, as empresas
competem não mais cercadas pelas fronteiras de um país.
Estão obrigadas a competir globalmente. Claro que pequenas empresas
vão encontrar seus nichos regionais. Mas a maioria delas está
condenada a crescer. Nenhuma empresa hoje pode ficar contente quando
uma pequena meta é alcançada. Se ela pára, fica
condenada a desaparecer. Será absorvida por outra ou simplesmente
desaparecerá do mercado. As empresas estão condenadas
a um crescimento eterno e indefinido. Quando o Brasil abre suas fronteiras,
se vê obrigado a receber empresas de fora, muitas vezes melhor
capacitadas. As nacionais são obrigadas a melhorar para competir
internamente e externamente. Elas estão se tornando melhores,
mais organizadas. Chega o momento em que a empresa encontra uma concorrente
em condições semelhantes.
DP - E para se diferenciar dessa concorrente
a empresa deve utilizar os ativos intangíveis, então?
Ortiz- Este é o detalhe. Os equipamentos estão
disponíveis globalmente, o acesso à tecnologia é
fácil e rápido. Antigamente, uma tecnologia chegava ao
Brasil depois de anos. Hoje, demora pouco. O que começa a fazer
diferença são as pessoas que ela tem dentro. E as pessoas,
do ponto de vista da organização, são o que elas
sabem. Os ativos tangíveis vão se depreciando ao serem
usados. O intangível é o único artigo que se valoriza
ao ser mais usado. Hoje, o mundo está voltado para isso. É
o detalhe que vai fazer a empresa ganhar o jogo. É isso o que
tenho procurado colocar. É um trabalho até meio evangélico.
DP - Você poderia citar algumas empresas
que já se beneficiaram ao prestar maior atenção
ao capital intelectual que detêm?
Ortiz - No Brasil, poderia citar casos de empresas que promoveram
ações na área de Recursos Humanos. O Banco do Brasil
começou a tratar de gestão do conhecimento. O Citibank
e as lojas Arapuã, também. Todas estão preocupadas
com o desenvolvimento do pessoal. Nestes casos, o pessoal de RH foi
ouvido. A PUC de São Paulo está usando gestão do
conhecimento em seus projetos de pesquisa. No meio acadêmico as
pessoas tendem a reter as informações para si mesmo, até
para evitar o roubo. Nos EUA, entre as empresas que colheram frutos,
citaria a Arthur Andersen e a HP.
DP - Qual o grande obstáculo que impede que o capital
intelectual e a Gestão do Conhecimento sejam mais adotados pelas
empresas?
Ortiz - O maior obstáculo para essas mudanças é
sempre cultural. Uma empresa que há 20 anos se relaciona com
o cliente do mesmo jeito pode pensar que deve continuar agindo da mesma
forma. Mas a organização deve perceber que já existe
algum concorrente seu que está atuando de outra forma, mais eficiente.
Em algum momento, esse cliente de 20 anos deixará de ser seu.
DP - Existem outras dificuldades encontradas
nas orgazinações?
Ortiz - Outro problema é que, normalmente, as empresas
trabalham como departamentos isolados entre si. Muitas vezes, se comportam
como feudos, pequenos centros de poder. Acabam retendo informações
importantes, que poderiam ser compartilhadas com outros departamentos.
Boa parte das empresas também cultivam um ambiente de desconfiança.
Se houver um chefe que não estimula o contato entre as pessoas,
está matando as idéias.
DP - Então como fazer para sensibilizar
a empresa na necessidade de valorizar o capital intelectual?
Ortiz - Se a pessoa não está em posição
de decisão, não é gerente, tem que procurar alguém
que lhe dê atenção. Ela também tem que valorizar
o que sabe e disseminar a idéia de mudança, até
que tenha muita gente para encaminhá-la a uma instância
superior. Mas a maneira mais rápida de um processo desses acontecer
ainda é de cima para baixo, partindo do presidente. Se parte
de um subordinado, o trabalho é sempre maior. A pessoa vai ter
que encontrar seus pares. É o primeiro passo de um caminho complicado,
trabalhoso. O departamento de Recursos Humanos geralmente é mais
aberto às mudanças. Isso faz parte do trabalho deles.
Mas se observarmos as áreas de administração e
finanças, veremos muita inércia, falta de vontade de querer
mudar. Mas o mais impressionante é verificar isso na área
de informática. Antigamente, o pessoal de informática
era o mais aberto a mudanças. Hoje, em geral é o mais
resistente. Para eles, substituir qualquer tecnologia é muito
difícil.
DP - Qual o papel do consultor neste contexto?
Ortiz - O papel do consultor é o de ajudar a desenvolver
a idéia, fazer palestras até criar um ambiente favorável.
Encontrar as riquezas. Trabalho muito com treinamento para grande corporações.
Infelizmente, treinamento ainda é visto como despesa, não
como investimento. Uma vez, mostrei a um cliente como treinamento e
gestão do conhecimento são importantes. O cliente - um
hotel - contava com quatro pessoas na área de marketing. Por
causa do trabalho, viviam mandando fax. Tinham que mandar cerca de 300
num dia só. Quando chegava esse momento, uma subgerente precisava
pegar o que era impresso nos micros e ficar segurando as folhas na máquina
de fax. Vi quanto tempo ela gastava e quanto ganhava (R$ 1.400,00).
O pior é que o hotel possuía um software para enviar os
faxes, mas o departamento de informática dizia que não
dava para adapta-lo para as máquinas. Fiz o software funcionar.
Cobrei R$ 1.150,00. E a subgerente nunca mais precisou gastar seu tempo
enviando faxes. A empresa já tinha o conhecimento. Era só
aprender a usá-lo.
DP - E como o empregado pode fazer parte de toda
a engrenagem?
Ortiz - Programando o seu desenvolvimento pessoal. Ele deve observar
o que falta na empresa, ir atrás das pessoas que ofecerem as
ferramentas, aprender e depois mostrar o que aprendeu. Ao buscar seu
desenvolvimento, o empregado acabará beneficiando toda a organização
também.
DP - A partir do momento em que uma empresa decide investir no
capital intelectual, ela começa adotar que ações?
Pode trocar três empregados regulares por um excelente?
Ortiz - Não é por aí. Conhecimento está
nas pessoas e não se extrai das pessoas. Ele pode circular, ser
compartilhado com outras. Toda pessoa sabe não uma coisa, mas
um conjunto de coisas. Portanto, é capaz de ensinar a outras
pessoas aquilo que ela sabe. O que deve se fazer é colocar as
pessoas em contato, comunicação. Existe uma corrente de
consultores de empresas sugerindo uma idéia absolutamente ultrapassada.
A idéia de uma tecnologia pode vir a substituir pessoas. É
um grande equívoco.
DP - Existe alguma pesquisa no Brasil sobre capital intelectual
ou gestão do conhecimento?
Ortiz - Talvez exista. Mas não conheço nenhum estudo
na área. Todas as observações que faço são
empíricas. Conheço muitas pessoas preocupadas em fazer
estudos neste sentido, mas ainda não existe articulação
patrocinada.
DP - E quando você começou a se interessar pelos
temas?
Ortiz - Faço parte de um grupo de pessoas que tem se dedicado
ao estudo da gestão do conhecimento durante alguns anos. Particularmente,
tenho prestado atenção nos últimos quatro anos.
Tento sistematizar o estudo sobre o tema. Na verdade, o conhecimento
é uma preocupação muito antiga minha. Como as pessoas
se apropriam do conhecimento, o desenvolvem, como utilizam individualmente
e coletivamente o conhecimento. Há 2500 anos, filósofos
como Platão e Sócrates já começaram a tratar
disso. Mas hoje está tudo mais claro. Existe uma massa crítica
de conhecimento dentro das organizações, conhecimento
empresarial.
DP - Como outras teorias, capital intelectual
e Gestão do Conhecimento não podem acabar se tornando
pura moda?
Ortiz - Podem. Por isso, temos que ter cuidado ao falar sobre
elas, para, do ponto de vista das empresas, não levar isso como
palavras da moda, que surgiram nos anos 70, 80 e 90. Durante muitos
anos, as empresas estiveram focadas na Qualidade Total. Depois veio
a Reengenharia, o Planejamento Geral de Recursos da Empresa. Agora é
Gestão do Conhecimento. Isso é sempre um perigo ao tratar
de um assunto que tem relevância. Alguém começa
a estudá-lo, percebe a importância, sistematiza e começa
a apresentar para algumas pessoas. Num determinado momento, a informação
começa a ser bastante ventilada, sendo descoberta pelas consultorias.
DP - São as consultorias que transformam
as teorias em moda?
Ortiz - Muitas delas sempre possuem uma solução
a procura de um problema. Descobrem um produto, um método, um
conhecimento, uma ferramenta, sabem que pode ser útil para algumas
organizações e saem vendendo o peixe. Só que sair
vendendo o peixe não é sair vendendo um produto qualquer.
Você está vendendo um conhecimento. Também existe
gente confundido sinal, dado, informação e conhecimento.
Sinal está presente o tempo todo e não depende da nossa
presença. Se um sinal encontra um receptor, pode se tornar um
dado, porque passa a ser reconhecido. A pessoa pode uni-lo a outros
dados e tornar isso uma informação, que tem significado
dentro de um contexto. Se tece correlações entre as informações
pode chegar ao conhecimento. Quem decide se aquilo é conhecimento
é a pessoa.