Município pernambucano, localizado na região do
Agreste, é o maior produtor de renascença do País
Carlos Costa
DA EQUIPE DO DIARO
Poucas pessoas sabem que o município de Poção,
Agreste, a 202 km do Recife, é o maior produtor de renda de renascença
do Brasil. Segundo dados do Sebrae, é de Poção
que saem mais de 90% das peças de renda de renascença
vendidas em diversas cidades brasileiras e exportadas para sete países
da América, Europa e Ásia, sem nenhuma identificação
que relacione o produto à sua origem. Há três anos
sem água nas torneiras e com a produção de rendas
em decadência, empresários e artesãos tentam reverter
o quadro e reerguer a produção dos trabalhos de renascença,
que envolvem 80% dos 8,5 mil moradores da cidade, inclusive homens e
crianças.
Uma das principais ações nesse sentido será
a I Feira de Renascença, que a prefeitura promoverá na
Semana Santa, dias 7 a 15 de abril, período em que a cidade vive
sua maior festa: o Domingo de Ramos. Uma das idealizadoras do evento
é a primeira-dama de Poção, a rendeira Maria Anunciada
Aguiar, que tem esperança de que o evento resgate a antiga forma
de venda do produto - a feira - e a fama da cidade.
Isso, no entanto, não será suficiente. Maria
Anunciada reclama da falta de incentivo e ajuda dos governos estadual
e federal no sentido de capacitar e qualificar os artesãos. Enfrentamos
três grandes problemas: a presença dos atravessadores,
a queda da qualidade dos trabalhos e a falta de uma marca que identifique
as rendas de Poção, diz.
Airon Araújo, proprietário da maior fábrica
de matéria-prima - linha e lacê (fita de algodão
que une as tramas) - e rendas da cidade, a Arte Rendas, concorda com
Maria Anunciada em dois pontos. A crise que o município
enfrenta é reflexo da queda de qualidade. As rendeiras tentaram
atingir um público maior com trabalhos mais simples e não
conseguiram.
Segundo Tereza Cristina Barreto, coordenadora do programa
de artesanato do Sebrae, a presença dos atravessadores é
inevitável. Temos um projeto para, daqui a três meses,
capacitar e treinar artersãos de 13 cidades, entre elas Poção.
No treinamento, eles serão instruídos a não baixarem
o preço para atravessadores. O artesão precisa ter
consciência e controle do preço do seu produto.
PEÇAS DELICADAS - Trabalho exclusivamente artesanal, que exige
visão aguçada e habilidade manual, a renda de renascença
é tramada com agulha comum sobre desenho riscado em papel manteiga,
fixado em almofadas. A diversidade de pontos cria peças delicadas
de rara beleza. Os desenhos geralmente exploram temas florais e o produto
final demora de semanas a um ano para ficar pronto, atingindo preços
que variam de R$ 4,00 (pequenas rendas para toalhas de rosto) a R$ 1,5
mil (toalhas, colchas de casal ou vestidos).
A origem do artesanato é européia, século
XVI, período do Renascimento. Trazida ao Brasil pelos portugueses
e ensinada no Recife em colégios internos e conventos, a renascença
chegou a Poção na década de 30, pelas mãos
de uma senhora famosa na cidade, Maria Pastora. Em municípios
vizinhos - Pesqueira, Camalaú (PB), São João do
Tigre (PB) e Zabelê - também se registra produção
de renascença.