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Créditos exigem mais atenção

Produções cinematográficas acrescentam cenas inéditas e curiosidades para valorizar minutos finais

  Fábio Araújo
Da equipe do DIARIO


  
O filme acabou, as luzes se acenderam e o público começou a se levantar. Até ali concentrando todas as atenções dos presentes, a tela do cinema agora amarga o esquecimento. Pouquíssimos prestam atenção naquela interminável seqüência de nomes que encerra a transmissão, ainda mais com modelo fast food que hoje domina o mercado cinematográfico. Uma pena, pois os créditos muitas vezes escondem curiosidades, brincadeiras e mesmo fragmentos de cenas que se encaixam e complementam o enredo. Hoje em dia, para evitar a evasão do público, muitos estúdios e cineastas estão colocando cenas inéditas, erros de gravação e curiosidades, durante e depois dos créditos. Mas esses tesouros de cinéfilos já existem há algum tempo.
  Um caso conhecido é a comédia Curtindo a Vida Adoidado, aquela mesma que monopoliza as sessões da tarde desde a década passada. Depois de aprontar mil e uma confusões com o único intuito de queimar aula durante um dia, o protagonista Ferris Bueller (Matthew Broderick) ainda tem a coragem de aparecer no meio dos créditos para continuar dizendo suas gracinhas. Bem que o bedel da escola podia aparecer nessa hora e aplicar um corretivo no insolente malandro.
  Não é raro os diretores aproveitarem aquele espaço “morto” após a cena final para incluírem hilariantes erros de gravação. Alguns são pura gozação, como o desenho animado Vida de Inseto. O espectador mais paciente pode, após um certo tempo, presenciar as “gafes” supostamente cometidas pelos “atores” durante as “filmagens”. Tantas aspas são necessárias porque, para quem não sabe, o filme inteiro foi criado em computador. Os autores de Toy Story 2 usaram o mesmo recurso cômico, pegando Woody e Buzz Lightyear de calças curtas.
  
PANCADA – Voltando ao mundo de carne e osso (nesse caso sangue também), os filmes do astro de artes marciais Jackie Chan já trazem erros de gravação como rotina. Em Arrebentando em Nova Iorque, A Hora do Rush e Bater ou Correr há erros de verdade. Quem quiser curtir mais pancadaria pode esperar um pouco para ver também as cenas em que Chan dispensou o dublê e acabou se machucando de verdade. Já na comédia adolescente Dez Coisas Que Odeio Em Você, durante os créditos, cenas que foram cortadas do filme aparecem junto aos erros. Isso virou chavão: a comédia Os Picaretas, com Steve Martin e Eddie Murphy, usa o mesmo expediente, entre vários outros filmes que fazem o mesmo.
  No final de outra comédia, Homens de Preto, em que Will Smith e Tommy Lee Jones protegem a Terra contra ardilosos alienígenas, o diretor Barry Sonnenfeld faz questão de ressaltar sua linha de respeito aos animais. “Nenhum alien foi machucado ou sofreu maus tratos durante as filmagens”, garante ele, antecipando o que poderá ser o politicamente correto do século XXV. Resta saber que surpresas estarão escondidas na continuação do filme, prevista para chegar por aqui este ano.
  
REENCONTRO – O drama italiano Cinema Paradiso também usou os créditos para complementar a trama. A premiada obra, vencedora do Grande Júri de Cannes, do Globo de Ouro e do Oscar de Filme Estrangeiro, conta a história de Totà (Salvatore Cascio), um garoto que vira cinemaníaco ao freqüentar o cinema Paradiso, na aldeia siciliana de Giancaldo. Os anos passam, Totà cresce e se apaixona. No final, retorna à aldeia para assistir à implosão do cinema, que vai virar estacionamento. Mas o filme não acaba aí. Durante a passagem dos créditos, o protagonista se reencontra com a amada, ambos já velhos, em um bar.
  Poucos filmes reservam surpresa tão grande quanto Coração Satânico. Na trama, o detetive particular Harry Angel (Mickey Rourke) é contratado por um homem misterioso (Robert de Niro) para procurar um cantor de jazz desaparecido. Em suas investigações, Angel acaba chegando a um misterioso culto religioso em New Orleans. E descobre que está metido numa confusão muito maior do que poderia imaginar. No final dos créditos, o detetive toma um elevador que o leva direto ao... inferno!
  
PUXA-SACO – Em O Rei da Baixaria, o enredo dá uma irônica reviravolta no fim da transmissão. É a história de Howard Stern (no papel dele mesmo), um radialista escandaloso, amoral, boquirroto e iconoclasta que se torna o disk-jockey mais popular dos Estados Unidos. Sua fórmula inclui baixarias, escatologia, improvisação, mexer com os brios do público. Pois bem: depois dos créditos, um empresário que durante todo o filme tentar derrubar o polêmico programa é visto bajulando o radialista.
  Outro exemplo é Procura-se Amy, do diretor Kevin Smith, o mesmo de Dogma e O Balconista. Na trama, Smith retrata como a chamada “Geração X” enfrenta seus fantasmas sexuais, usando diálogos desconcertantes e situações impagáveis. Ele aproveita o final dos créditos para mandar um recado aos críticos que malharam com seu filme anterior, Barrados no Shopping, e ainda anuncia a volta da dupla Jay & Silent Bob - dupla presente em todos os seus filmes, sempre meio por acidente - em Dogma.
  Entre os precursores dessa técnica de subverter e atrair atenção para os créditos está o grupo cômico inglês Monty Python. Na década de 70, em Em Busca do Cálice Sagrado, o sexteto tira sarro, anuncia o fim do filme, manda o espectador ir embora e obriga os créditos a subirem, enquanto espalham piadas sobre um cervo ator no meio dos detalhes técnicos.
  Entre os casos mais estranhos está o de Seven, a perturbadora obra de David Fincher, com Brad Pitt e Morgan Freeman no elenco. No final, sem maiores explicações, os créditos descem na tela, ao invés de subirem, como é normal no cinema. O fato perpetua a sensação de incômodo que o filme deixa no espectador durante a projeção.

 
 
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