Agenda do Congresso
O Congresso Nacional retoma as atividades no próximo
dia 29. Por força da Carta Magna, que obriga a apreciação das medidas
provisórias em cinco dias, senadores e deputados foram convocados extraordinariamente.
Até agora, porém, não se definiu a pauta dos trabalhos. A razão é
simples. Não fosse o mandamento constitucional, as proposições poderiam
esperar o reinício da sessão legislativa, em 15 de fevereiro. Nenhum
projeto em andamento clama urgência que justifique a interrupção do
recesso parlamentar. A convocação extraordinária é sempre malvista
pela sociedade. A maioria da população entende que chamar deputados
e senadores para trabalhar por alguns dias constitui estratagema para
que eles recebam pagamentos adicionais. No momento em que o País se
moderniza, caminha a passos largos para dar transparência às atividades
do Estado, os parlamentares podem aprovar medidas que melhorem a imagem
do Poder Legislativo. Tramita na Câmara projeto de lei que acaba com
a ajuda de custo em casos de convocação extraordinária. Aprovado, traria
resultados benéficos. Além de diminuir a desconfiança em relação ao
Parlamento, representaria significativo alívio aos cofres públicos.
Nos 17 dias de trabalho, cada deputado e senador embolsará R$ 16 mil.
Aguardam deliberação outros projetos que podem elevar o conceito da
classe política. Um exemplo é o apresentado pelo senador Pedro Simon
(PMDB-RS), já aprovado no Senado. O texto acaba com o sigilo bancário
e fiscal das autoridades que lidam com dinheiro público. Se a lei estivesse
em vigor, a Câmara não precisaria agora ter que passar pelo constrangimento
de investigar as contas bancárias do deputado Eurico Miranda, dirigente
do Vasco. A consulta ao site da Câmara dos Deputados aponta 582 proposições,
entre projetos de lei, propostas de emenda à Constituição, requerimentos,
todos prontos para entrar na ordem do dia. Algumas dispensam análise
imediata. Outras poderiam ser votadas rapidamente, dando ao Congresso
o senso do dever cumprido. Entre elas, propostas indispensáveis à
modernização do Estado. Algumas, de tramitação lenta, se figurarem na
pauta, terão acelerado o andamento. Vale lembrar a Reforma Tributária
— que propõe a simplificação e a universalização do sistema de pagamento
de impostos. Ou a reforma política, forma de fortalecer o sistema partidário
nacional. Os dias que antecedem a reabertura dos trabalhos do Congresso
devem ser aproveitados na definição de um cronograma de discussão e
votações que justifique à sociedade a dispendiosa convocação. Seria
constrangedor o contribuinte arcar com salários extras dos parlamentares
apenas para cumprir prazos de medidas provisórias e manter a disputa
de poder na base governista pelas presidências da Câmara e do Senado.
Os políticos têm condições de fazer muito em fevereiro. Deputados
e senadores, forçados a voltar prematuramente às comissões e ao plenário,
podem e devem cumprir o seu papel com uma agenda factível e de interesse
nacional.
Artigos
Quanto investir
Leonardo Guimarães Neto Economista Um pequeno exercício
permite que se tenha uma idéia dos investimentos que a economia pernambucana
teria de realizar para alcançar uma taxa razoável de crescimento. Para
isto, o ponto de partida é a definição da taxa a ser adotada. Dado aumento
da produtividade, que se traduz na crescente produção por trabalhador,
uma expansão da economia de menos de 5%, ao ano, em Pernambuco, não
provoca repercussões capazes de absorver a população adicional que anualmente
procura emprego e diminuir o contingente de desempregados já existente.
Portanto, 5%, embora não seja uma taxa de milagre econômico, é uma cifra
que não deve ser desconsiderada. O segundo passo consiste em saber
qual o montante atual do produto e qual a parte deste que deve ser voltada
para investir. O produto interno de Pernambuco, a preços correntes de
mercado, em 1998 foi estimado, pelo IBGE/Condepe, em R$ 24,8 bilhões.
Admitindo-se o seu crescimento real em 1% em 1999 e 2,5% em 2000, e
considerando uma inflação de 8% em 1999 e 6% em 2000, alcança-se o valor
do produto interno de R$ 29,4 bilhões em 2000, a preços do referido
ano. Isto posto, qual a parcela desse produto que deve constituir o
investimento capaz de garantir a expansão de 5% ao ano? Se no período
áureo de expansão da sua economia (nos anos 70), o Nordeste (não existem
informações para Pernambuco) investiu, para um crescimento de 7% ao
ano, uma média de 27% do produto, é de se esperar que Pernambuco, para
se expandir a 5% deva investir algo em torno de 20% do seu produto.
Crescendo a 5% ao ano, o produto estadual chegaria, em 2010, a R$
47,9 bilhões e exigiria que, a cada ano, em média, fossem investidos
no Estado cerca de R$ 7,6 bilhões. Qual poderia ser a parcela que cabe
a cada um dos agentes econômicos? As informações da Sudene mostram que,
para o conjunto da região, nas últimas décadas, a parte do investimento
privado no total correspondeu a 55% e que nos meados dos anos 90 ultrapassou
60%. Com a privatização, pode-se admitir que o setor privado seja, hoje,
responsável por 65% dos investimentos. Dos 35% restantes, do setor público,
pode-se estimar, com base ainda na Sudene, a seguinte participação:
20% para o Governo federal, 10% para o estadual e 5% para as prefeituras.
A partir dessas relações, pode-se estimar a distribuição dos R$ 7,6
bilhões necessários para se alcançar a taxa de 5%. Neste esforço, com
base na experiência regional, o setor privado deve investir R$ 4,94
bilhões, sendo o restante, R$ 2,66 bilhões, de responsabilidade do setor
público, assim dividido: o Governo federal com R$ 1,52 bilhão, o Governo
estadual ficaria em torno de R$ 760 milhões e a participação anual das
prefeituras em torno de R$ 380 milhões. Os dados ilustram o esforço
que é necessário desenvolver no Estado, em relação aos investimentos
privados e públicos. Para que se tenha uma idéia, a parcela anual do
Governo estadual representaria metade da soma obtida com a venda da
Celpe e cerca de 20% das receitas correntes estaduais. Algumas lições
podem ser tiradas deste exercício. Embora os investimentos privados
sejam os mais relevantes, a parcela do Governo federal foi, historicamente,
muito significativa e, portanto, Pernambuco não pode se dar ao luxo
de não exercer uma permanente pressão sobre suas lideranças federais
que, ultimamente, não estão viabilizando as obras estratégicas no Estado.
O investimento do Governo estadual tem sido um pouco mais da metade
do federal. Não se pode, portanto, pensar em substituí-lo. Embora pequena,
a participação das prefeituras tem aumentado nos investimentos públicos,
e a formação de parcerias e consórcios é fundamental. É com este propósito
e o da sua utilização como contrapartida de empréstimos nacionais e
internacionais, que os recursos da venda da Celpe podem exercer papel
estratégico, atraindo recursos adicionais e vitais para o Estado.
2001: simpático e “frappé”
José Carlos Poroca
Superintendente do Shopping Tacaruna
Um grande empresário da área têxtil com quem tive
a oportunidade de conviver, costumava dizer, com suas palavras, que,
nos negócios, os investimentos devem ser sempre feitos em época
de crise. Na baixa, a gente planta; mercado em alta, vamos colher
os frutos da plantação afirmava. Ao contrário
do que ele recomendava, nove entre dez empresas brasileiras se comportam
diferentemente: quando o mercado está em alta, baixa o espírito
empreendedor e, a partir de um estado de euforia, decide-se ampliar,
reformar, investir, diversificar, modernizar, etc. Em boa parte dos
casos, quando o produto está pronto para sair às ruas,
a empresa se defronta com uma bruta crise. Resultado: financiamentos
e dívidas a saldar, vendas em baixa, estoques em alta. Tudo o
que um barco sem recursos necessita para entrar num mar em fúria.
Na entrada do novo Milênio e diante das perspectivas
que estão à nossa vista, é possível dizer,
sem medo de errar, que teremos pela frente um ano com grandes possibilidades
de ser melhor (economicamente) que o de 2.000. No nosso Estado, mesmo
com o que foi registrado no censo demográfico, tudo indica que
os pernambucanos terão a oportunidade de vivenciar um ano com
o surgimento de obras públicas e privadas (como já foi
anunciado), como não se via há algum tempo.
Aliado a tudo isso, resumos das perspectivas econômicas
de algumas entidades (inclusive internacionais) apontam queda da inflação
e possibilidade de aumento do PIB (próximo a quatro pontos percentuais),
com a entrada do novo Milênio. Para auxiliar, e por existir espaço
de manobra, admite-se a possibilidade de baixa nas taxas de juros. Bom
para (quase) todo mundo. E, para concluir, estão falando que
a gasolina vai baixar de preço. Se acontecer, será um
marco na história da política de preços brasileira.
Vamos todos rezar e pedir a confirmação da previsão:
Meu querido São José, aqui estou aos vossos pés
.... !
Dito isso, pergunta-se: e o desemprego, vai aumentar ? Lamentavelmente,
sim. Considerando que seria necessário um crescimento econômico
de cerca de 6% para absorver a faixa dos sem-emprego e se as perspectivas
indicam que o crescimento da economia brasileira não vai ultrapassar
os 4%, significa dizer que vamos continuar convivendo, no próximo
ano, com esse problema que já é considerado um dos grandes
males do mundo moderno e que, no Brasil, só se compara à
insegurança e à falta de habitação
para citar apenas estes dois.
Soluções? As soluções não
surgem a partir de um toque de mágica e dependem de políticas
estruturais de longo prazo. Mesmo assim, sabe-se que investimentos em
determinados setores (turismo e construção civil, por
exemplo) proporcionam retorno imediato, pois, além de absorverem
farta mão-de-obra, têm influências direta e indireta
sobre outros setores. No caso específico da construção
civil, o setor, quando aquecido, não apenas ganha por si, como
arrasta (no bom sentido) um bom número de outros segmentos, funcionando
como um círculo com imã que vai provocando desdobramentos
positivos, nascimento (ou manutenção) de empregos, geração
de tributos, etc. Todos saem ganhando.
E o 2001? Nada de pessimismo, nada de otimismo. A nossa
Região continua pobre e carente, como se estivesse num Brasil
(B) vizinho de outro Brasil (A), separado por
uma linha imaginária. Os problemas locais já foram estudados
e reestudados e estão à disposição da sociedade,
quando houver boa vontade para resolvê-los. O momento é
propício para a plantação das primeiras sementes,
na esperança de que daqui a vinte anos (no mínimo!) possamos
colher os frutos do que poderá ser iniciado hoje. Em suma, 2001
poderá representar um marco de renovação de pensamentos
e quem sabe? o começo de um novo Brasil B,
mais próximo do Brasil A. E que Deus nos proteja,
pelo menos nos próximos 365 dias.