| Maria
da Luz (centro) mora em garagem porque o prédio pode
desabar |
Maria
Félix da Silva (dir.) acabou de se mudar para um prédio-caixão
no bairro do Cordeiro |
| Fotos: Glauco Spíndola
|
Em 1982, Maria José da Luz realizou um sonho
compartilhado por muitos brasileiros: possuir a casa própria.
Ela e o marido foram os primeiros moradores do Bloco 129-B, do Conjunto
Residencial Muribeca, localizado no bairro de mesmo nome, em Jaboatão
dos Guararapes. “Não tinha luz, não tinha água,
não tinha nada quando a gente chegou, mas era o meu canto”.
Hoje, aos 77 anos, Maria José da Luz mora
de favor em uma garagem do mesmo conjunto. Ali estão entulhados
alguns móveis, roupas e objetos que foram retirados às
pressas do apartamento, depois que os moradores ouviram estalos
e observaram uma grande rachadura entre o lado esquerdo da estrutura
e a escadaria. O bloco foi interditado no dia 15 de abril deste
ano, por risco iminente de desabamento. “É triste a
gente notar que a cada dia o prédio cede mais e, com essa
chuva, não vai demorar muito para cair”.
A história de Maria José - ou pelo
menos o início dela - guarda algumas semelhanças com
a da dona de casa Maria Félix da Silva, de 43 anos. Desde
o início do mês de abril, Maria Félix é
uma das moradoras do Bloco 05, do Casarão do Cordeiro, conjunto
residencial que integra a política habitacional da Prefeitura
do Recife. A família morava em uma palafita na Vila Vintém
II, em Casa Forte, e era vítima freqüente das cheias
do Capibaribe, que alagavam a casa. “Lá a gente morava
dentro da maré, com rato, lama. Hoje eu me considero a mulher
mais feliz do mundo. Eu estou no palácio da princesa”.
Toda a felicidade, no entanto, não esconde
o medo de que daqui a alguns anos, a família que agora mora
no Cordeiro enfrente o mesmo problema das que comemoraram a mudança
para a Muribeca há 23 anos. “Meu marido sempre fala
que tem medo desse prédio cair quando vê alguma coisa
desse tipo na televisão. Os prédios que têm
problemas são muito parecidos com esse. Mas o que nós
vamos fazer? Pelo menos eu saí do inferno e entrei no céu.
O meu sonho era ter a minha casinha para morar”, afirma a
dona de casa.
Os engenheiros responsáveis pela obra
afirmam que, embora os blocos do Cordeiro sejam visualmente parecidos
com os prédios que apresentam problemas, o projeto técnico
é diferente. “O embasamento que nós estamos
utilizando é muito seguro e o acompanhamento da qualidade
do concreto e dos diferentes tipos de tijolos é feito ao
longo de toda a construção”, afirma Jair Kelner.
Até o momento, 192 apartamentos, construídos através
de uma parceria entre a Prefeitura do Recife e as Fundações
Odebrecht e Banco do Brasil, foram entregues, mas a obra não
está finalizada. Dois blocos estão sendo construídos
pelos próprios futuros moradores, que são capacitados
em um projeto intitulado Operação Trabalho, e outros
sete estão sob a responsabilidade da Construtora Cinkel e
devem estar prontos em seis meses.
Os prédios que viram notícia
por causa de rachaduras, fissuras ou risco de desabamento, têm
algumas características em comum: “Em geral, as edificações
são do tipo caixão, de três a quatro pavimentos,
com seis ou oito apartamentos”, explica Helvio Polito, diretor
da Dircon (Diretoria de Controle Urbano) de Olinda. Atualmente,
64 prédios estão interditados em Olinda, sendo 61
deles construídos com estas características.
BOOM NA DÉCADA DE 70 - Esse
sistema construtivo, chamado de alvenaria auto-portante, foi utilizado
em larga escala no Estado a partir da década de 70, quando
obras deste tipo foram financiadas para a população
de classe média e baixa por instituições como
a Cohab e a Inocoop. O Conjunto Residencial Muribeca, por exemplo,
foi construído pela antiga Cohab, com o financiamento da
Caixa Econômica Federal. “A gente passou até
fome para pagar as parcelas e hoje nós estamos nesta situação”,
confessa a moradora Maria José. A estimativa é que
existam cerca de 4.000 a 6.000 edifícios caixão na
Região Metropolitana do Recife.
“Os problemas desses prédios estão
sempre nas fundações. O que aconteceu foi a exagerada
economia de tempo e dinheiro, e a falta de controle de qualidade,
observadas na construção da maioria desses prédios.”,
afirma o engenheiro Gilsy Brasileiro. De acordo com ele, alguns
cuidados básicos não foram observados. “Era
usada apenas uma fileira de tijolos (alvenaria singela) fundação
do prédio, sem nenhum revestimento. Além disso, os
tijolos normalmente tinham furos na horizontal, o que facilita a
passagem de água”, enumera.
A situação é agravada porque
esses prédios são do tipo caixão vazio, ou
seja, o espaço entre a fundação e o embasamento
do piso não é aterrado, podendo haver infiltrações.
“Com o tempo, o tijolo em contato com a água vai perdendo
toda a resistência”, explica o presidente do Conselho
Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Pernambuco (Crea-PE),
Telga Araújo.
Depois de tantas tragédias e sonhos que desabaram
junto com edifícios como o Enseada de Serrambi e o Éricka,
as construções desse tipo de prédio, no entanto,
não foram paralisadas. Mas, para evitar a ocorrência
de problemas futuros, o que mudou foi a técnica construtiva.
“A tecnologia hoje é outra e nós
temos um controle de qualidade muito grande sobre os materiais que
são usados”, afirma o engenheiro da Companhia Estadual
de Habitação e Obras (Cehab), Válber Barros
da Rocha. Ele é o responsável pela supervisão
da construção do Conjunto Habitacional Áurea
de Andrade Vasconcelos, que está sendo erguido no bairro
de Brasília Teimosa, na Zona Sul do Recife, pelo Governo
do Estado.
A estrutura é composta por 15 blocos, cada
um com quatro pavimentos, totalizando 240 apartamentos. “Nós
usamos na fundação o bloco estrutural, que possui
dimensões e resistência maiores do que os blocos comuns,
e furos na vertical, o que dificulta a passagem da água.
O caixão também não é vazio, e sim aterrado”,
garante Rocha.
Além disso, antes do início da construção
foi realizada uma sondagem no solo: “A sondagem é um
procedimento técnico de fundamental importância, pois
o tipo de fundação será escolhido em função
do solo”. Outro cuidado é o controle de qualidade dos
materiais que estão sendo utilizados na obra: “São
feitas análises constantes, chamadas de ensaios, com o concreto
e o tijolo”, completa o engenheiro.
| Conjunto
do Cordeiro passou por sondagem de solo e tem estrutura reforçada |
| Foto:
Edvaldo Rodrigues |
CUIDADOS - Os cuidados também
são observados no Conjunto Habitacional do Cordeiro. Em sua
fundação, existem 53 vigas, preenchidas por 107 m³
de concreto. Entre as vigas, há duas lajes de concreto. “Usamos
ainda cabos de aço revestidos de PVC, que dão mais
resistência para a viga. Eles são muitos usados na
construção de pontes e viadutos. Todos esses cuidados
estão sendo tomados porque o terreno aqui do Cordeiro não
é muito bom e nós teremos a caixa de água em
cima do prédio. Com todos esses cuidados, a fundação
deste conjunto chegou a custar duas vezes mais do que a de um caixão
vazio, por exemplo”, explica o engenheiro Jair Kelner.
O aumento dos custos para garantir a segurança é um
dos fatores que tem afastado o mercado imobiliário das construções
tipo caixão. “A Engenharia tem solução
para tudo, mas isto tem um preço. O valor financiado pela
Caixa Econômica, por exemplo, é irreal e muitas vezes
inviabiliza a construção em algumas áreas que
precisariam ser melhoradas tecnicamente”, explica Telga Araújo.
Mesmo assim, o prédio-caixão ainda é considerado
uma solução para a habitação destinada
à clientes de classes média e baixa “Esses imóveis
têm mercado garantido por alguns fatores, como o custo das
taxas de condomínio, que são mais baixos porque os
prédios são construídos sem elevador, por exemplo”,
diz Gilsy Brasileiro.
De acordo com o presidente do Sindicato da Indústria
da Construção Civil (Sinduscon), Gabriel Neves, atualmente,
a construção de prédios-caixão está
limitada aos conjuntos erguidos com recursos do poder público.
Para serem viáveis ao mercado particular, é necessário
haver financiamento por parte da Caixa Econômica Federal.
A instituição, no entanto, suspendeu as linhas de
financiamento e não tem previsão de quando voltará
a oferecer o serviço.
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